Escritas

Sede

Remisson Aniceto
Um homem (?) tem sede, muita sede. 
Sede quase insuportável. Seus lábios já estão 
trincados e embranquecidos, a língua grossa, viscosa 
e pastosa, os olhos, baços. É líquida e certa a única 
alternativa contra o fim para este homem (?) 
gerado, nascido e criado na mais inóspita das 
regiões. Uma região labiríntica onde ele, agora, 
vê-se completa e irremediavelmente só. 
Água! Água! Água... água...
Inconscientemente refletida no embaciado olhar do 
homem (?), ao longe uma mínima poça com algumas 
gotas do líquido. Ele sabe que em outras regiões existe
água, muita água, água em abundância sendo mal 
cuidada, desperdiçada, jogada fora. Mas só lhe basta 
naquele momento a pocinha que ele parece ver, 
um mental resíduo da água que lhe furtaram durante 
a vida inteira. Rastejando, o homem (?)
tenta se aproximar da mínima fonte. Mas à sua frente 
surge o vulto de um homem (!), este bem vestido e 
com a fome e a sede saciadas. Este homem (!) 
lhe promete ajuda para que aquela pocinha d'água 
fique ao alcance dos seus lábios. 
Mas ele terá que pagar pela ajuda. Sem ter algum
dinheiro, o homem (?) ouve que pode ser uma troca, 
uma barganha, uma promessa. Uma promessa de 
barganha, um juramento de troca e de entrega.
Naquele momento o homem (?) concordaria com 
qualquer oferta, por mais insidiosa que fosse. 
Ele já não via e no seu estado nem conseguiria 
ver nenhuma outra forma de escapar.
Mas escapar do quê? Ele não percebia, a sede 
não lhe permitia perceber qual seria o seu destino 
ao "assinar" aquele acordo.
O único destino que a mente do homem (?) 
descortinava era aquele caso ela não conseguisse 
água. E naquela terrível situação ele não conseguia 
mesmo decidir qual destino escolher.
Sede! Sede! Sede! Sede quase insuportável!
Os lábios trincados e embranquecidos, a língua 
grossa, viscosa e pastosa, os olhos baços... 
e uma minúscula pocinha de água naquela 
árida imensidão.
E entre aquele homem (?) e a salvadora visão, 
do líquida, um outro homem (!), esperando 
pela resposta.
Diante de tal situação, o que vale a alma de um 
homem (?) com os lábios trincados e embranquecidos, 
a língua grossa, viscosa e pastosa, os olhos baços?
Sua alma valeria mais do que algumas 
míseras gotinhas de água?
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