Escritas

O morredouro

Remisson Aniceto

Na minha rua há um morredouro, quasecomo
aquele da Irmã Angélica de Bombaim.
Lá, tudo é miserável e não háenfermeiras,
só moribundos, decadentes, agonizantes,
cujas vidas não podem ser saciadas com
comidas ou remédios terrenos.
As paredes são descarnadas e pequenasvalas
serpenteiam entre as enxergas,
um acúmulo de sangue, pus, escarros e lágrimas.
Tudo forma um quadro de pinturaabstrata,
involuntária, de chãos e paredesmulticores,
vermentos, com predominância dovermelho.
Cães comem pelos cantos e lambem asvalas;
não é justo chamá-los de nojentos: nãohá
nojo em saciar a fome, há satisfação.
Vê-se uma sutil beleza naquelapodridão,
naquele concerto de gemidos e lamentos.
Oh! Deus! Quando minhas pernasbambearem
estarei lá, adepto da loucura poralgumas
horas, alguns meses ou até a horaextrema,
a critério dos vermes que, quaseimperceptivelmente,
já me corroem as entranhas...
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