Escritas

Lista de Poemas

Canção final


Depois de muito fastio,
da dor cruel da partida,
do pranto intenso o estio
acalmou enfim minha vida.
 
Voltar talvez eu não possa.
Receio uma nova recusa.
- Que foi que houve da nossa
intensa paixão, minha musa?
 
Nem arrisco seguir os teus passos;
só de longe te olhar me contenta.
Um mistério fez o descompasso,
transformando a calma em tormenta.
 
Agora é esperar... triste sina...
Enrolar-me no manto...está frio!...
Tua imagem se esvai na neblina...
Já me embaça o olhar doentio...
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Chuva/Pluja

Um corpo na mesa-
e lá fora o dia chora
águas de tristeza

-

Un cos a taula -
i allà fora el dia plora
aigües de tristesa

Tradução para o catalão: Pere Bessó
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Fragmentos

Dorme, que a vida é fracionada em dias e noites 
como o sol que nasce e morre a cada dia. 
Vive intensamente tuas dezenas, centenas 
ou milhares de dias e dorme, dorme serenamente 
para talvez despertar para um novo dia, uma nova vida, 
vida dividida em vidas, 
como quando abrem-se as cortinas e, 
primeiro ato, cena um, a vida entra em ação! 
E, segundo ato, segunda cena,
vários atos e várias cenas 
e o pano desce. 
Noite. 
No seguinte dia, se se vive, reinicia-se 
involuntariamente a mesma peça 
em vários atos, 
em várias cenas 
com talvez o mesmo e mais outro e outro elenco. 
Em cena encena naturalmente
que a vida é fracionada em tomos, 
dorme, vive, vive e dorme serenamente, 
que na medula da vida tudo surge de repente, 
sem preparo, sem rubricas. 
Tanta coisa 
nascemorrenascemorrenascemorrenasce... 
todos os dias, todas as noites. 
Isto, enquanto há olhos, vê-se. 
E se não se acorda, sabe-se? 
Atores de palcos antigos, de peças passadas, 
de lidos tomos, de atos findos 
ainda não me disseram.
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Cinzas


 
Na rua
a moça passa,
os carros passam,
adiante tudo passa...
Só eu não passo!
De repente,
qual ilusão de ótica,
itinerante e órfã de sorte
minha vida passa,
ilógica,
sob a visão cinérea
da morte.
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Ave


Ontem, vi um pássaro no estertor da morte.
As asas não içavam o frágil corpo.
Das pernas - finos gravetos - esvaía a firmeza.
Peguei-o e não o senti: já não havia
movimentos, apenas imperceptíveis tentativas internas.
E eu, que sempre, tantas vezes,
desejei alçar voo como as aves
e desfrutar da liberdade da altura,
senti-me inútil...
Aquele pequenino ser, naquele momento
quisera sê-lo para transpor
as barreiras da liberdade.
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No céu de Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá eu é que sou o rei
Lá terei tudo que quero
Na terra que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá eu é que sou o rei
De uma terra encantada
Que um dia abandonei

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá todo mundo é rei
Lá poderei encontrar
Tudo que em vão procurei

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá eu serei feliz
Lá poderei despertar
Na rica Terra do Sem Fim

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá só vive gente boa
Lá, sem cetro e sem coroa
Serei rei e súdito de mim

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá terei uma mulher só minha
Lá todo mundo é feliz
Cada rei com sua rainha

Lá montarei em cavalo
E verei o sol nascer
Lá tenho amigos reais:
Cecília, Carlos, Manuel...

Que me dizem que Pasárgada
Faz divisa com o céu
Onde dá pra ir e vir
Num piscar de olhos

E se algum dia talvez
A tristeza brincar comigo
Querendo em Pasárgada abrigo
Ou se a morte desdenhar

Da alegria de um amigo
Basta eu me lembrar
Que em Pasárgada sou rei
Que lá todo mundo é rei

Vou-me embora pra Pasárgada
De onde um dia saí rei
E desde então me perdi

Vou-me embora pra Pasárgada
De lá não mais sairei
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Estrangeiro


Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
 
Estrangeiro sou e não ardo.
Meu corpo segue em névoa calma.
Não carrego nenhum fardo:
não sofre quem não tem alma.
 
Piso as pedras do caminho
livre, só, sem rumo certo.
E por ser assim -sozinho-
nada é longe, nada é perto...
 
Estou aqui, além, aquém,
não importa meu destino;
se não me espera ninguém,
meu viver é peregrino.
 
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
 
Ser estranho é ser feliz,
é ter tudo e não ter nada,
ser mestre e aprendiz,
tendo a casa na estrada.
 
Vai, alma, não voltes mais!
Vê se te aportas noutro porto.
Ser assim muito me apraz:
não ser vivo nem ser morto...
 
Se meu corpo não tem alma,
minh'alma um corpo não tem.
Tal estado hoje me acalma;
a ela não sei se convém.
                                                                                                                                                                                                                            
                                                                                                                           
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
 
Sou meio-termo inteiro,
animal de consciência;
sou ar puro e passageiro,
que de si não dá ciência.
 
Minh'alma foi carcereira
do corpo, as rédeas tomava.
Fingia ser companheira
enquanto só regras ditava.
 
Perdi amor e felicidade,
que a ela não interessava.
Hoje há paz e não saudade
da alma que o corpo matava.
 
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
é que longe, aquém das serras,
alma me abandonou...
 
Desalmado sou, bem sei,
estou solto e desgarrado,
livre do mundo, da lei,
sem presente e sem passado.
 
Minh'alma já foi bem tarde
se perder por outros lados.
Faço tudo sem alarde:
sem alma não há pecado.
 
Vai, alma, pedir pousada
em corpo que te receba.
Sou feliz e não me agrada
te encontrar pelas veredas.
 
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
 
                                                                                                                        
É bom que eu seja assim,
como nuvem passageira..
Que o mundo não saiba de mim.
Sou quem não fede nem cheira.
 
Fui louco, tolo, bastardo,
a alma de mim fez desdém.
Leitores, compreendam meu fado:
a alma jamais fez-me bem.
 
Serei o que queiram que eu seja.
Se quiserem, serei ninguém.
Sou o novo que viceja
do que já foi velho. Amém!
 
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
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Os dançarinos

Melancólica e sonolenta, eis a lua,
flutuando sobre as águas do oceano.
Alheio a tudo, imerso na noite e no mundo,
meu pensar também vaga neste plano.
 
Ei-la, imagem erradia na pista do mar,
entrando, dançando, bailando nas ondas vadias.
Minha imagem também entra, dança, baila,
embalada pela aquátil melodia.
 
Qual casal de dançarinos da esperança,
vestidos de amor e de alegria
deslizamos sobre as águas nessa dança.
 
Já desperta e alvacenta, eis a lua,
causadora dessa bela fantasia
que nos tira do real e nos flutua
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Canção do mar


Poema onde o mar é o protagonista, percorrendo os continentes, transportando, saudando, cantando, rugindo, protegendo e arrebatando vidas, numa constante, numa ininterrupta viagem.


No mar quase tudo nada
na imensidão que a vista inunda,
no mar quase tudo nada,
nada na superfície, nada n'águas profundas.
No mar quase tudo nada
e o que não nada ou quase nada
quando não boia, afunda...
No globo quase todo mar
na terra quase nada terra,
na vastidão que tudo circunda,
em movimentos ora de paz ora de guerra
quase tudo tudo nada
e tudo tudo é navegar...
Eia! Terras d'além mar!
Eia! Povos d'além mar!
Nada nada é tão perto
nada nada é tão longe
que o mar não possa alcançar.
E tudo que nada segue
no mar onde quase tudo nada.
No ondulado tapete repleto de vida,
na planície azul sem tamanho,
sob o sol ou na noite estrelada
o que não nada é estranho.
E lá no fundo que cores!
Há muito que admirar!
Algas, pedras, peixes, flores,
decorando o fundo do mar...
E esta brisa que delira,
suave perfume do mar
no marulho que enleva,
serena canção de ninar...
                                                                                                                           
Que ninguém passe pela vida
sem conhecer este mar...

E o céu quando beija o mar
seja no norte ou no sul,
que divino, que divino
é este amor vestido de azul...

E o mar quando beija a areia
serpenteia
serpenteia
deixando cobras na areia...
deixando cobras na areia...
Rema rema pescador
e observa os sons do mar.
Rema rema pescador,
no seu barquinho a flutuar,
que a tempestade é um terror
até pra quem sabe nadar.
Quase tudo no mar nada,
quase tudo nada no mar,
quase tudo o mar carrega
no seu diário navegar.

E o mar quando beija a areia
serpenteia
serpenteia
fazendo cobras na areia...
fazendo cobras na areia...
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Encontro


No “Bar e Café Pessoa” encontrei Fernando.
Ele bebericava numa caneca de porcelana,
lendo “O Corvo”. Puxei uma cadeira da mesa ao lado
e sentei, observando seu porte magro, alheio a tudo
em redor. Ali, o mundo e o pensamento eram
somente dele. Sobre a mesa de tampo fino,
repousava uma caixa envolta em papel pardo,
com uma etiqueta da Air Portugal. Ele devia ter
chegado há pouco de lá, talvez para visitar o Reis.
Fiquei observando-o durante longo tempo.
Calmamente, após pousar “O Corvo” sobre a mesa,
ele dirige sua atenção a mim, uma expressão
de desalento no olhar, como a dizer:
- Fui descoberto!
Ouço a voz da garçonete e viro o rosto:
- Sim, traga-me café numa caneca de porcelana.
Volto-me e já não o vejo. Corro até a porta,
perscruto a rua parcamente iluminada.
Não o encontro, ele sumiu definitivamente.
Retorno à mesa onde ele estivera.
A garçonete se aproxima e repete:
- Não temos caneca de porcelana, senhor.
Abro o pacote que, na pressa, ele esquecera.
Há vários livros, entre os quais um de Poe
que me chama a atenção, intitulado

“Histórias Extraordinárias”.
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