Lista de Poemas

os amigos

os amigos entardecem como papoilas
pousadas sobre o silêncio da garganta
penso, peso, escrevo, digo - axioma
que há campos póstumos de papoilas
que os amigos são as próprias amoras
invisíveis e negras no esquecimento da noite
absolvidos no absoluto tempo do crânio 
rio, bato palmas, não regresso.

Poema dedicado ao Herberto
(Pedro Rodrigues de Menezes, "os amigos")
 

👁️ 387

de pernas para o mar

hoje foi dia
de deixar tudo
de pernas para o mar.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "de pernas para o mar")

👁️ 284

Temazcal

bastou-me o incandescente violino
oblíqua labareda alada explodindo
rompendo o incauto negro véu 
para que aos pés descessem
todos os imemoriais caminhos
singular tremor vaginal de terra
esplendoroso e fátuo tambor 
absoluta e indigente catarse.

(Pedro Rodrigues de Menezes, Temazcal)

👁️ 345

logo serei o que existo

talvez não seja 
mais que isto
menos aquilo
produto inteiro
real racional
gramática verbo
verborreico sangue
ponto luz corrente
arde-me o crânio
numa estrada luz
exactidão isóscele
coração para o pão
pele pedra sal e sol
ardem distâncias
o velho e a vela
o povo e o polvo
o braço e o baço
ver é beijar no Porto
mãos cruas que vêem
ensimesmada nudez
pobre infinda miséria
o céu aberto em ferida
sombra terror tremor
logo serei o que existo.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "logo serei o que existo")

👁️ 337

quod absurdum

tudo me pesa
numa lentidão 
intrépida
subtil
súbita 
cadência 
tudo me arde
numa lassidão 
crânio 
memória
orvalho
planta
palavra silêncio 
quod absurdum

(Pedro Rodrigues de Menezes, "quod absurdum")
👁️ 365

baobá

procuro nos outonais trâmites do teu corpo
o insofismável vestígio das tuas raízes
salgueiro que jaz e se curva obliquamente
eterna a bênção, terrível o fim do tempo
deserto, areia, sol, miragem, saudade
serás sempre o antes e o depois de nós
e nós seremos tão pouco e tão poucos
depois de ti secarão todas as welwitschias
África não renascerá da força dos tambores
mil homens sangrarão entre solenes rituais
as grávidas abortarão com sede de terra
e o céu encher-se-á de conchas e espinhas
e virão os deuses deste mundo e do outro
velar a desgraça efémera da sabedoria
ninguém saberá mais falar, escrever ou viver.

(Pedro Rodrigues de Menezes, “baobá”)
Poema dedicado a Catarina Pereira do Nascimento

👁️ 302

vodu

por entre os dedos da terra
sem pressa
sem deter
discorre sem forma 
e incolor
o deus terrível
profundo
silêncio cálido 
que inebria e incapacita
que engole 
sem mastigar 
os ásperos calos
deformando 
as minhas trémulas e gélidas formas
encerrando os olhos 
com o capim 
e as pedras 
e as folhas tardias
do longo inverno
na caverna aberta deste crânio quartzítico 
incandescente luz que me atravessa
imobilizado pelas asas abismais
ouço e vejo o temporal 
contra a gruta do meu próprio templo
eu sou o templo e a sua ruína
os seus antepassados futuros
isto é o princípio do meu renascimento
e por isso estou estendido nesta catarse
envolvido pelo frondoso sudário da floresta
aguardo a tácita palidez da minha própria morte
talvez eu próprio seja este terrível deus
porque ouço a voz da lua e o corpo do sol
invocando em extintas línguas os meus nomes.

(Pedro Rodrigues de Menezes, “vodu”)
👁️ 306

na violenta ausência de ti

a luz que te foge
dentro do corpo
é uma lâmina doce
na amargura do tempo
indelével, cristalizado
o universo inteiro
contido no fogo
das saudades
da loucura
faltam-me as tuas mãos
e os teus olhos infindáveis
na cegueira pura das galáxias
com que sempre me abraças
esposa, irmã, amiga
tudo o que vem depois de ti
é um chicote ardiloso
sobre o meu corpo escuro
antes abraçado
agora esquecido
na violenta ausência de ti.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "na violenta ausência de ti")
Poema dedicado a Sheila Perestrelo Camoesas

👁️ 300

infestação

multiplicam-se sombras
ténue pestilência
sigilo absoluto
infestam mudas
o chão
a parede
o tecto
e a alma
à luz da noite
brotam
impetuosas
precipitando a diáspora
do corpo humano.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "infestação")
👁️ 446

aldeia dos cães

no silêncio metamórfico das rochas
irrompendo do solo como um trovão
o tímido ladrar canino da alcateia
constitui o único vestígio humano
abandono absoluto no tempo presente.

homens íngremes de outrora ergueram
na imponente altura dos mistérios
cruzes dispersas como faróis acesos
liturgia imóvel dos mil cataventos
apontando ao destino o seu caminho.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "aldeia dos cães")
👁️ 468

Comentários (6)

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Carina Alexandra Oliveira
Carina Alexandra Oliveira
2024-09-10

Parabéns por continuares sempre a escrever e partilhares a tua obra. Quem escreve nunca está verdadeiramente só. Saibamos agradecer quem por nós passou e permanece deixando o seu legado mais profundo. Um beijo

Cândida
Cândida
2024-04-14

Lindo bjnhos

Cândida
Cândida
2024-02-10

Está tudo bem grande poeta bjnhos

Cândida
Cândida
2023-11-01

Olá Pedro és um orgulho muito sucesso nesta tua etapa bjnhos

Rosa Lima
Rosa Lima
2023-10-22

Orgulho na escrita do meu querido Primo