vodu

Pedro Rodrigues de Menezes
Pedro Rodrigues de Menezes
1 min min de leitura
por entre os dedos da terra
sem pressa
sem deter
discorre sem forma 
e incolor
o deus terrível
profundo
silêncio cálido 
que inebria e incapacita
que engole 
sem mastigar 
os ásperos calos
deformando 
as minhas trémulas e gélidas formas
encerrando os olhos 
com o capim 
e as pedras 
e as folhas tardias
do longo inverno
na caverna aberta deste crânio quartzítico 
incandescente luz que me atravessa
imobilizado pelas asas abismais
ouço e vejo o temporal 
contra a gruta do meu próprio templo
eu sou o templo e a sua ruína
os seus antepassados futuros
isto é o princípio do meu renascimento
e por isso estou estendido nesta catarse
envolvido pelo frondoso sudário da floresta
aguardo a tácita palidez da minha própria morte
talvez eu próprio seja este terrível deus
porque ouço a voz da lua e o corpo do sol
invocando em extintas línguas os meus nomes.

(Pedro Rodrigues de Menezes, “vodu”)
337 Visualizações
Partilhar

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.