Lista de Poemas

singular curvatura

estou só
com ideias ideais
só 
incomensuravelmente 
infinitamente 
só 
e entre isto 
que escrevo agora
(num tempo em que já não é o agora),
e aquilo que não ousaria escrever 
(num tempo que nunca existiu)
surge resplandecente
insofismável 
o sentimental axioma
a razão quase pura sem crítica 
surjo 
sujo
de terra nas falanges 
mas sempre só eu
eu e as falanges
e as falanges da terra
eu
eu
eu
vertigem
astro quase físico 
se não fosse eu
que eu seria eu?

(Pedro Rodrigues de Menezes, "singular curvatura")
 

👁️ 111

colapso quântico

a garrafa bebe o poeta
o pão devora o poema
a rosa incendeia o coração 
o que esperar de um mundo violento
quando a própria morte se apaixona pela vida?

(Pedro Rodrigues de Menezes, "colapso quântico)

Poema dedicado ao Herberto 

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café da Elsa

é preciso experimentar os antípodas 
do requinte

aroma almiscarado desses recantos 
que se enchem

de velozes cavalos espumando 
obscena vulgaridade 

como uma garganta 
extraordinariamente profunda 

há no fundo destes fundos a profunda
verdade da vida simples

e frequentando estes lugares 
descubro a dissertação rural

miséria imensa de dentes em falta 
mas de alma em festa

corre o álcool como sanguínea 
fortaleza inabalável 

cruzam-se braços sobre 
protuberâncias montanhosas

sustentam-se pernas sobre 
a nauseabunda abundância da fome

misturo-me pensativo 
sobre a pequenez loucura da grandeza.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "café da Elsa")

nota do poeta: terceira versão do poema acima referido. 27-08-2025

 

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Adília Lopes

Adília e Adílio, ambos Lopes


ato e desato
durante o acto
ou ambos morremos
ou comemos torresmos.

(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes I)


espalmei a parede
no mosquito
sobrou a sombra
vestígio noite
descobri
não é cruel matar
um mosquito
ou uma pessoa
o mosquito não sangra
a pessoa não sangra
escrevi isto em Angra
sem Heroísmo.

(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes II)


a vida
escrevi
isto
na casa
no banho
antes de
tomar
o pequeno
almoço.

(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes III)


ponto final
parágrafo
aguardo
a vírgula
agrado
resguardado
calado
não disse nada
disto
gostaria de ter
de ter dito
qualquer coisa
que nascesse
emergindo
esplêndida
da boca
pra fora.
 
(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes IV)


com papas e bolos
se enganam os tolos
era assim que a mãe
antes da minha mãe
quando éramos pobres
nos dava a medicação
para a dor da mão
não havia nada
para o coração
pensava
pensei
nisto
só os pobres comem
papas
embora não fôssemos
pobres
porque havia ouro
que o meu avô guardava
que tinha no Cu*.

* cobre
 
(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes V)


a minha tia Céu
vivia no céu
snob
fumava com a mão
direita
a mão e ela
espetadas ambas
apontando ao coração
dos outros
e antes de perder a voz
a tia Céu
não o céu – esse não tem
voz
antes de perder o pulmão
deu um trabalhão
enviá-la para o chateaux de Paris
e dos seus restinhos
mortais
ainda agarrada à boquilha
italiana
que pertenceu a uma Duquesa
alemã
a tia Céu permanece lá
ainda viva de tanto morrer
a bordo de uma avioneta Cessna
da neta
explodiu depois
de proibirem cigarros a bordo.

(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes VI)


o teu sangue é old money

(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes VII, poema dedicado a Graça Costa)


tenho saudades da criança
distinga entre pirite de aglomerado
a pirite é o ouro dos tolos
um aglomerado são muitas pessoas
sedimentais sedimentadas de pó
convencem-nos
iludem-nos
que descobrindo a ciência
somos científicos.

(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes VIII)


em criança descobri que as plantas
aquáticas
não foram plantadas
encontrei isto numa garrafa
no meio do mar
sem instruções
sem instrução
e do interior
recolhi a água
reguei as plantas do meu avô
esperei que borboletas aladas
com guelras e brocados
explodissem
e por fim pousassem
numa fina folha fina
morressem
como direi
de falta de ar.

(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes IX)


quem não conhece a minha escrita
não me conhece de todo
quem não me conhece de todo
não conhece a minha escrita.

(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes X)


tragam-me qualquer coisa
um livro
de poesia
um marcador de livros
sem berloques
que não tenha berloques
irlandeses
como o que me trouxe
a Liliana Lourenço
sem lenço
sem penso
fungando
que chatice.

(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes XI, poema dedicado a Liliana Lourenço)


quero-te
Adília
completa
mente
foder-te
achadamente
a ti
à tua carapinha
desviando o mundo
da rua que dá
para a Argentina
e o Japão
a ti vão dar todos
os caminhos do mundo
eu sou Colombo
tu és Cristóvão.

(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes, XII)


quero lá saber da inteligência
se a inteligência não for poesia
tudo o que me transforma é agonia.

(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes, XIII)


Adília
procurei-te
à tua morada
até me dei ao trabalho
de fazer consultas nas páginas
amarelecidas pela traça
até procurei na net
da biblioteca nacional
mas hoje só há moradas
de mail
onde estás
Adília
Lopes.

(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes XIV)
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anel de Saturno

a tua vagina naufragada
o interior do mediterrâneo
o mundo pesado e venoso
tudo isto é belo e terrível
porque sonhei que o teu dedo
caberia num anel de Saturno.

Pedro Rodrigues de Menezes, "anel de Saturno")
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a metamorfose do coração


lamento que o coração 
não possa explodir
em catarse vibrante
na alegria encarnada 
do sangue comum
e esteja inanimado
perante a surpresa 
das origens aos termos
e por isso se cinja
à sua mera função
fisiológica e orgânica 
de bomba cardíaca
expansiva metamorfose
que o tempo gelou
transformando
intumescendo
uma pedra sobre
outra pedra.

Pedro Rodrigues de Menezes, “a metamorfose do coração”)
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cabo de gata

o parco roçagar da frondosa giesta
acesa pelo vento como um chicote
acelera em mim a lúcida consciência
de que as árvores, procurando o solo,
regressam ao útero que as gerou
por isso também eu caminho pleno
um homem plano sobre outro plano
uma luz, um astro cego, um abismo
desenhando um círculo com palavras
no misterioso alfabeto da criação
vou enchendo a boca de terra
vou abraçando a morte iminente
porque tudo em mim é imediato
o grito, o eco e o súbito silêncio.

 
(Pedro Rodrigues de Menezes, "cabo de gata")
👁️ 564

monja de salto-agulha

monja de salto-agulha
encontra o teu destino
imola-te na laça poeira
do celeste e laço doce
uno absorvente e único
das infinitas cadências
porque virão galáxias
e cometas invisíveis
velar a mulher densa
untada do encarnado
quente e magmático
resplandecente corpo
onde a mulher morta
dá lugar ao vaticínio
há mil anos escrito
no sangue e no fogo
o universo ressurge
enquanto a deusa nasce
da kundalínica nébula
que os povos adorarão.

 
(Pedro Rodrigues de Menezes, "monja de salto-agulha")
Poema dedicado a Sheila Perestrelo Camoesas

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os peixes voam no céu como pedras

uma flecha que anoitecesse no tempo
lugar, pedaço de terra, erva ou árvore
uma flecha que resistisse implacável
à biologia de uma meia volta de Úrano

sem a subtracção de uma soma
este lugar contém o mesmo
azul celeste sem ser galáctico
poalha invisível sem ser cósmico

é este o lugar onde renascem
os primeiros homens órfãos
do destino sem distinguirem
a mortalidade do seu tempo

densos e altos e firmes poentes
ave, voo pleno ou plano boreal
desvelam frondosos sobre a água
o misticismo das sereias mudas

ninguém as vê plantando os peixes
ninguém as vê caminhando sobre o céu
ninguém as vê contando as pedras
e os peixes voam no céu como pedras.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "os peixes voam no céu como pedras")
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ancestral sibila

ancestral aranha que mascaras
balaustradas, capitólios e olimpos

sigiloso movimento trespassando
o invisível lugar de visível vazio

aroma metálico ou apurado gume
na distracção sonora do sono

afinal, de quantos rituais e cantos
ou milenares hecatombes aladas
se fazem as arestas criminosas
onde jazem brancas e indefesas
as mil e uma esvoaçantes criaturas
que encontraram na sedutora luz
o seu destino ébrio de inocência?

(Pedro Rodrigues de Menezes, "ancestral sibila")
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Comentários (6)

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Carina Alexandra Oliveira
Carina Alexandra Oliveira
2024-09-10

Parabéns por continuares sempre a escrever e partilhares a tua obra. Quem escreve nunca está verdadeiramente só. Saibamos agradecer quem por nós passou e permanece deixando o seu legado mais profundo. Um beijo

Cândida
Cândida
2024-04-14

Lindo bjnhos

Cândida
Cândida
2024-02-10

Está tudo bem grande poeta bjnhos

Cândida
Cândida
2023-11-01

Olá Pedro és um orgulho muito sucesso nesta tua etapa bjnhos

Rosa Lima
Rosa Lima
2023-10-22

Orgulho na escrita do meu querido Primo