Lista de Poemas
inutilidade da lágrima
trespassando a carne viva do coração
se são os meus horrendos e gigantes pés
ágeis pincéis que sangram no céu escarlate?
(Pedro Rodrigues de Menezes, "inutilidade da lágrima")
obtusidade no corpo
na sua infinita aritmética
encontrou a geometria da mão
que o elevasse ao quadrado
multiplicador da sua raiz.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "obtusidade no corpo")
crisálida indecifrável
que respirasse
na perpendicularidade
das minhas pálpebras
como uma força
vibrante e extraordinária
a desenhar as novas veias
fartas e cálidas
do dogma
filosofia ou religião
paradoxais
um paradoxo forte
imbatível e irrefutável
que fizesse esvoaçar
a inércia do verão
que é na memória póstuma
dos outros
o solstício
permanentemente sombrio
uma silhueta contendo
os risos verdes
lá atrás
onde os braços descansam
nus
no imponente esquecimento
do mundo.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "crisálida indecifrável")
hediondez maternal
com as suas vaginas derrotadas
e os ventres espiando a cicatriz
que me adormecem os olhos
perante a mão cega e grotesca
somos incapazes de vir ao mundo
sem ensanguentar o mundo inteiro
sem arrancar dormitando ainda
sendo ainda esse sonho por gerar
pedaços vivos da carne e do sonho
criaturas invariantes e futuras
condenações a estourar hediondez.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "hediondez maternal")
as mãos do poeta
terrestre e concreta
observam as mães
as mãos do poeta
cada vez mais fundas
cada vez menos visíveis.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "as mãos do poeta")
aritmética do luto
não tenho memórias
desde que mostraram
a mortalha coerciva
cercando o teu corpo
pai
ouvia dizeres “é a fingir”
eu ria e dizia “é a fingir”
por isso todos acreditaram
que a minha extravagância
era um produto da loucura
pai
como se na aritmética
da vida que continua
e do tempo que passa
coubesse alguma lógica.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "aritmética do luto")
coração à la carte(siano)"
abcissamente desordenado
obliquamente perpendicular
que corações teriam cabido
no elevado absoluto vascular
deste meu esdrúxulo músculo
perante tão rubicundo pedaço
é mesm perante este cubo só
capaz de impedir dedos
apontando
apontados
consigo eu funcionar
infinitamente
inderinido
equacionar
tal equação
totalizar
o produto
a incógnita
sendo xis.
[Pedro Rodrigues de Menezes, "coração à la carte(siano)"]
discursos (Epicteto)
título: discursos
(Epicteto)
subtítulo: ideias estóicas para uma vida melhor
parece um livro de auto-ajuda
parece-me um licor de auto-ajuda
[Pedro Rodrigues de Menezes, "discursos (Epicteto)"]
húngaros
entrar numa pastelaria
e pedir com leviandade
que me embalem húngaros
como se de Húngaros se tratasse
afinal a felicidade e a ironia
talvez sejam irmãs afastadas
e isto chega-me
é suficiente por hoje.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "húngaros")
semântica-quase
falar com gente
estar com gente
que não seja gente
que seja assim
capaz do ponto
sem sinais
sem finais
interrogação
interregno
inconclusão.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "semântica-quase")
Comentários (6)
Parabéns por continuares sempre a escrever e partilhares a tua obra. Quem escreve nunca está verdadeiramente só. Saibamos agradecer quem por nós passou e permanece deixando o seu legado mais profundo. Um beijo
Lindo bjnhos
Está tudo bem grande poeta bjnhos
Olá Pedro és um orgulho muito sucesso nesta tua etapa bjnhos
Orgulho na escrita do meu querido Primo
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