Lista de Poemas

o primeiro silêncio

penso
como gostaria 
de ser
uma manhã 
atrás de outra 
manhã 
impávido e sereno 
despontando cru
bruto demais 
sem me deter
no extraordinário 
silêncio dos astros
mapa de escuridão 
capaz de guiar a luz
cómica ou cósmica.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "o primeiro silêncio")

👁️ 188

isto não é isto

isto 
são 
palavras
vírgula 
afinal 
vírgula 
são 
apenas
vírgula 
só um poema
vírgula 
um poema só 
ponto final

(Pedro Rodrigues de Menezes, "isto é um poema")


tal como Bazárov* talvez eu tenha
o pornográfico e fátuo niilismo 
onde o vazio da (in)glória desagua
pueril poderoso estéril e maduro.

*Bazárov, personagem de Pais e Filhos, Ivan Turguénev)

(Pedro Rodrigues de Menezes, "niilismo")


se eu pensar 
por alguns segundos
contarei os segundos
que me levaram a pensar
nos segundos
em que me demorei
nos segundos pensamentos.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "seguindo os segundos pensamentos")

👁️ 125

paradoxo binário

não quero viver
não quero morrer
mas metade da minha força 
é outra metade da minha forca.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "paradoxo binário")

Poema dedicado a Graça Costa
 

👁️ 145

polissemia

quando viver é impreciso 
(mas) viver não é preciso 
escrever não é impreciso
(mas) escrever é preciso.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "polissemia")
 

👁️ 76

equação impossível

se ao menos a vida se resolvesse
como um problema de cálculo 
financeiro, renal ou matemático 
e pudesse eu arrancar da algibeira 
a manipulação exacta da álgebra 
tornar sombra e luz indivisíveis
número inteiro, natural, primo
extrair do quadrado a raiz do problema 
fazer do coração triplas tripas isósceles 
imitar-me à transcendência real complexa
se 
se
se
pudesse eu equacionar tudo isto
numa fracção
de segundos
não teria razão.

(Pedro Rodrigues Menezes, equação impossível)

👁️ 281

Herberto Helder

definitivamente Deus
o meu deus Definitivo
Herberto Helder.

(Pedro Rodrigues de Menezes)

👁️ 267

matemática quase

tens que entender
no lugar primeiro 
se te metem formas
de exangues ângulos
isósceles triângulos 
quatro quadros atados
hipotenusas bem rectas 
de lado a lados pitágoras 
catetos sempre 
esquecerás números 
inteiramente naturais 
primos, tios, rios
sombrios, sozinhos.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "matemática quase")

Poema dedicado a Graça Costa 

👁️ 335

verme alado

as galáxias
sempre
as galáxias
da infinita luz bruta
que todo eu em bruto
porventura em vão
espero um dia alcançar
apesar da fome
e da solidão
e da força
dos meus braços
tão livres
dos meus lábios
tão mudos
dos meus olhos
tão cerrados
um verme 
rastejando nu
de asas
contemplando
para além da terra
e da memória sideral
a dormência do sono
a vibração do sonho.
 

(Pedro Rodrigues de Menezes, “verme alado”)
👁️ 262

orfão

e se o sangue que corre
enviesado e esdrúxulo
por entre as minhas veias
imperceptíveis e silenciosas
não for o mesmo que o teu
é porque a memória
póstuma do pai
tão eloquente e imbecil
precisa e irredutível
acendeu a suspeita
brilhante e nítida
de que a névoa
impulsiva desvelou
a verdade de termos sido
na mentira sangrenta
irmãos.
 
(Pedro Rodrigues de Menezes, “orfão”)
Poema dedicado a Filipa Isabel Rodrigues de Menezes

👁️ 232

mariposa cega

raiz quadrada submersa
pela terra incandescente
a visão ardendo branca
pela multiplicação de raízes
em voo e luminescência
asas que alcançam
as minhas asas negras
incorpóreas, vítreas
engolidas, trituradas,
crisálida abortada
mariposa cega
sem voo
respiração
sussurro
cessação.

(Pedro Rodrigues de Menezes, “mariposa cega”)
👁️ 233

Comentários (6)

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Carina Alexandra Oliveira
Carina Alexandra Oliveira
2024-09-10

Parabéns por continuares sempre a escrever e partilhares a tua obra. Quem escreve nunca está verdadeiramente só. Saibamos agradecer quem por nós passou e permanece deixando o seu legado mais profundo. Um beijo

Cândida
Cândida
2024-04-14

Lindo bjnhos

Cândida
Cândida
2024-02-10

Está tudo bem grande poeta bjnhos

Cândida
Cândida
2023-11-01

Olá Pedro és um orgulho muito sucesso nesta tua etapa bjnhos

Rosa Lima
Rosa Lima
2023-10-22

Orgulho na escrita do meu querido Primo