Lista de Poemas
o primeiro silêncio
penso
como gostaria
de ser
uma manhã
atrás de outra
manhã
impávido e sereno
despontando cru
bruto demais
sem me deter
no extraordinário
silêncio dos astros
mapa de escuridão
capaz de guiar a luz
cómica ou cósmica.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "o primeiro silêncio")
isto não é isto
isto
são
palavras
vírgula
afinal
vírgula
são
apenas
vírgula
só um poema
vírgula
um poema só
ponto final
(Pedro Rodrigues de Menezes, "isto é um poema")
tal como Bazárov* talvez eu tenha
o pornográfico e fátuo niilismo
onde o vazio da (in)glória desagua
pueril poderoso estéril e maduro.
*Bazárov, personagem de Pais e Filhos, Ivan Turguénev)
(Pedro Rodrigues de Menezes, "niilismo")
se eu pensar
por alguns segundos
contarei os segundos
que me levaram a pensar
nos segundos
em que me demorei
nos segundos pensamentos.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "seguindo os segundos pensamentos")
paradoxo binário
não quero viver
não quero morrer
mas metade da minha força
é outra metade da minha forca.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "paradoxo binário")
Poema dedicado a Graça Costa
polissemia
quando viver é impreciso
(mas) viver não é preciso
escrever não é impreciso
(mas) escrever é preciso.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "polissemia")
equação impossível
se ao menos a vida se resolvesse
como um problema de cálculo
financeiro, renal ou matemático
e pudesse eu arrancar da algibeira
a manipulação exacta da álgebra
tornar sombra e luz indivisíveis
número inteiro, natural, primo
extrair do quadrado a raiz do problema
fazer do coração triplas tripas isósceles
imitar-me à transcendência real complexa
se
se
se
pudesse eu equacionar tudo isto
numa fracção
de segundos
não teria razão.
(Pedro Rodrigues Menezes, equação impossível)
Herberto Helder
definitivamente Deus
o meu deus Definitivo
Herberto Helder.
(Pedro Rodrigues de Menezes)
matemática quase
tens que entender
no lugar primeiro
se te metem formas
de exangues ângulos
isósceles triângulos
quatro quadros atados
hipotenusas bem rectas
de lado a lados pitágoras
catetos sempre
esquecerás números
inteiramente naturais
primos, tios, rios
sombrios, sozinhos.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "matemática quase")
Poema dedicado a Graça Costa
verme alado
sempre
as galáxias
da infinita luz bruta
que todo eu em bruto
porventura em vão
espero um dia alcançar
apesar da fome
e da solidão
e da força
dos meus braços
tão livres
dos meus lábios
tão mudos
dos meus olhos
tão cerrados
um verme
rastejando nu
de asas
contemplando
para além da terra
e da memória sideral
a dormência do sono
a vibração do sonho.
(Pedro Rodrigues de Menezes, “verme alado”)
orfão
e se o sangue que corre
enviesado e esdrúxulo
por entre as minhas veias
imperceptíveis e silenciosas
não for o mesmo que o teu
é porque a memória
póstuma do pai
tão eloquente e imbecil
precisa e irredutível
acendeu a suspeita
brilhante e nítida
de que a névoa
impulsiva desvelou
a verdade de termos sido
na mentira sangrenta
irmãos.
(Pedro Rodrigues de Menezes, “orfão”)
Poema dedicado a Filipa Isabel Rodrigues de Menezes
mariposa cega
pela terra incandescente
a visão ardendo branca
pela multiplicação de raízes
em voo e luminescência
asas que alcançam
as minhas asas negras
incorpóreas, vítreas
engolidas, trituradas,
crisálida abortada
mariposa cega
sem voo
respiração
sussurro
cessação.
(Pedro Rodrigues de Menezes, “mariposa cega”)
Comentários (6)
Parabéns por continuares sempre a escrever e partilhares a tua obra. Quem escreve nunca está verdadeiramente só. Saibamos agradecer quem por nós passou e permanece deixando o seu legado mais profundo. Um beijo
Lindo bjnhos
Está tudo bem grande poeta bjnhos
Olá Pedro és um orgulho muito sucesso nesta tua etapa bjnhos
Orgulho na escrita do meu querido Primo
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