Escritas

Lista de Poemas

PARENTES

A casa nem tão grande
Ficou de repente mensurável
Com as portas dos quartos sem trancas
Onde nas camas já não mais se repousa na sesta
Pois a hora desse descanso
Agora é formal e duradoura.

Eu nem soube que vieram
Mas os vi, vivi e convivi
Ganhei abraços quando estavam
Cantamos, comemos, beberam comigo água e vinho
Antes de partir
Entre risadas e broncas obesas.

Creio que o tempo se alimentara de nós juntos
Justamente quando nos encontramos esvaímos
Certos da eternidade ornada em momentos
Assim próximos da rotina
A um vulto na retina sem cor.

Gosto que arde no peito
Vontade e certeza de rever
Cada rosto e ouvir suas doces vozes
Como se foram previstos pela volta
Advirão, e os terei justos
Colados, íntimos, parentes.
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A CADEIRINHA

Descansando dobrada
Vestida de azul e branco
Abrandada
Guardada no plástico
Imóvel
Estática
Limpa e despreguiçada
Depois de tanta praia
Depois de muita água
Depois de intensa farra
Em meio à distância
Concreta do silêncio
Perguntou-me a cadeirinha
Com sorrisinho cismado
- Ei, cadê meu menininho?
- Ah, está brincando ali
Do outro lado
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A NAVE E O GOZO

Quisera tivéssemos as mesmas taras
As expressões mais raras
Viajantes nas súplicas da libido
Às claras, nada escondido
Nem proibido, nunca involuntário
Unicamente desejoso e conexo
Sempre presente, poroso
Às vezes perplexo, próprio
Em íntima similaridade
Sob estado de contemplação
Amplamente benfazeja

Por esse tom ameno
Cultuaríamos então o apego
A tudo que se apregoa e enseja
- O vinho, a pétala, a névoa
A nave e o gozo
Que nos envolve e espera
Quando se deseja
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FRATERNOS

Sempre trocamos afetos
Olhares
Afagos
Rimos sozinhos dos descaminhos
E apegos
Às mínimas espécies
Cerceadas em nossos passos

Sentamos juntos
Na mesma cadeira da gigante roda
Que nos gira
Revira
Rola mansa ou veloz
No entorno da escada
Absortos e embarcados

- Por vezes cegos
Domamos frigidamente a cerca
E a cena e a estrada
Enamorados e guardiães
Aprendendo as proporções inexatas
Que nos entalam e atrelam
A mente e a garganta

Tão vasto é o deserto
E esse aperto isolado
Ludibria e nos enumera ternos,
Longe ou perto
Cada um a seu modo
Eternos reverenciando
O que nos torna perfeitos
Mais justos
Fraternos
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NÓ DE CORDA

Abraço as vindas cansadas
E os prêmios que me trazes
Quando te acolho nas mãos

Tu és a um só tempo navio e cais
Sou apenas simples amarras
De onde desgarras
E vais seguindo teu rumo
Ou permanece angélica
Cósmica e plácida amanhecer
Para meu peito deslaçar

Quem dera sendo eu nó de corda
Suporte os vaivéns dos teus mares
Das imperfeições acorde
E da realidade mórbida
Apague os traços e os rabiscos
Que os riscos dos teus oceanos
Cometem dentro dos meus planos

Choro tuas idas revoltas
Mas recolho as tuas voltas
Repletas de canção
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SOZINHA

Quando sentamos desconfiados os olhares na sombra dos edifícios
A cidadela parece esconder secreta dentro das suas prosaicas paredes
As sensações e certezas de que tudo se contrai, arquiteta e aquieta

Conseguimos medir no espaço entre o polegar e outro dedo
O tamanho do medo que sentimos
Ao revelarmo-nos desprotegidos

Por certo nos quartos e salas debaixo dos andares e lajes
Há mulheres contidas aquecendo comida
Meninas descalças contando dinheiro
Crianças colando os verbetes das aulas
Enfermos, cômicos, TVs ligadas, computadores acesos, celulares on
Camas desfeitas, janelas com cortinas cansadas, obliquas
Vasos que a descarga não conseguira esvaziar
Marmanjos abnegados bebendo água levemente gelada
Musica tocando entremeada a noticias de que o mundo acabara
E o que sobrara são gestos da sociedade em catarse

Luzes se fazem acesas pelo fim da hora que retarda
Pais retornam de outros países, de novos e velhos mundos
Em estado e maneiras líquidas desarmando-se dos costumes do dia
Carros sepultos no subsolo quietos hibernam
Enquanto despojados os calçados descansam nas soleiras ou cantos
À espera dos donos esquecidos dos passos por onde passaram

Alguém reza , outro esconjura, um trai, tantos sorriem, dormem ou choram
E na varanda, Sozinha delira e se degusta absorta deitada
Enquanto roça os dedos de leve nas pétalas das meias coladas às pernas
Aguardando a calma emergir úmida, sincera, serena, branda, branda, branda
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DEVIA IR CONTIGO

Devia ir contigo à Ilha de Balruos
Aprender como se governa.

Onde as filosofias afloram no ar
E nas brandas espumas das pedras
Que descolam no cais, convivem e enamoram.

Sei que não se parece às Cidades em que vivemos
Nem às Vilas incrustradas nas rochas como em nossa terra.

Há quem mande e respeita
Amplo em liberdade
Farto em sabedoria
Imerso em abundante compromisso com o sacrossanto
Direito do querer e pensar.

Devia ir contigo
Provar o gosto da ética e o sabor dos costumes
Em doses certas, nas porções exatas
Dados em troca da constância e do progresso
Frutos da evolução natural e perseverança das espécies,
Respeito ao bem público
Prazer nos serviços
Profusa crença e fé na palavra do próximo.

Porém minha fome
Ávida, dolorida e áspera
Desconfia de ti desacreditada em mim.
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GRAVITACIONAL

Sou extremamente gravitacional
Giro tonto ao entorno dos meus problemas
E quando não os tenho, os arranjo
Através dos planos sensoriais
Que a minha displicência procria.
Veja como soluciono as angustias
Atrapalhadas e cambaleantes que me perseguem.
Sou barulhento desertor das ideias aflitas
Um flautista sem fôlego pronto para a disritmia
Um sem graça qualquer afeto ao que esconjura.
Juro que me apego a porcelanas trincadas
Conservo parafusos enferrujados e chaves quebradas
Que nada mais abrem nem destrancam nem significam.
O desapego unicamente me quebranta
Nas impropriedades que me representam.
De resto tudo finjo, camuflo, insinuo, esqueço.

Preciso apenas de silêncio
Este sim me envenena, e o óbvio.
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A QUALQUER TEMPO

O espaço, essa flecha insana
Bate feito maço sobre a pele
A carne, o corpo debela
E ela, a alma, incorpora
O que a idade avara afere
Subliminar ao que acontece

Os sabores são seus alicerces
E o que se aterra são apenas as sapatas
Desse edifício aclarado do espirito
Por onde passamos descalços
Relendo versos e os reescrevendo
Entre sorrisos, sonos e gritos

A uns isso tudo é perverso
A outros menos tenso e sem esperas
E são esses os segredos do universo
Vistos de imediato e de perto
Ao longo das esferas e gestos presos
Aos lugares que se atravessa

Aclamados assim somos todos apegos
Desorganizados, absurdamente imortais
Fazendo desse jogo eloquente
O que começa e a qualquer tempo passa
Sem que seu ciclo extinga ou decline ao fim
Pois nem tudo que dilacera morre, apenas cessa
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REAMAR

Às vezes chove fino, sem ventania
Às vezes o mar de repente para, se esconde da onda
Na calma propícia da brisa envolta de sal

É quando sem luzes descerra-se o escuro
Nas largas avenidas dos oceanos da ânsia
E nosso peito parece arrefecer no carvão

Recolhemos os pés, cerramos as mãos
Pintamos a face com o branco da cal
Contamos com os lábios os fios da visão

Sozinha, entre o reverso e a astúcia
Tua pista iluminada guarda meu pouso
E cego mergulho certo de que me aguarda
A façanha inconteste de em ti descer
Para dentro dos teus braços extrair teu vício
Agarrar o teu voo, saciar a minha alma
E pleno de ti, tornar a nascer
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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!