Escritas

Lista de Poemas

LEMBRANÇAS

Lá no silêncio bruto das grotas
Habita a tradução ímpia das certezas
Onde então guardamos as seletas pétalas
Entre as paginas misturadas dos livros amorfos
Escolhidos a esmo nas prateleiras
Da biblioteca de outras épocas

Folhas secas que eram verdes
Verdes sonhos dos amores hoje maduros
Talos ressequidos preservados
Nas íntegras linhas das histórias descritas
Contadas, vividas por todas as sílabas
E frases ali acondicionadas e contidas

O que fez o tempo com as nossas vozes
Por vezes fez das vozes a plataforma
Das cores em que nos modelara a vida
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DEITADO NA REDE

Escolha a causa que lhe fala
Eleja a nuvem que lhe chova
Ouça o sino que melhor badala
Cala o som que lhe perturba
Conclua os rabiscos de Da Vinci
Prossiga com Tarso
Faça gêneros,
Pratica o que dizem os professores
Estuda as anatomias
Siga os rios da mente
Descubra o que melhor lhe abraça
Valoriza o que sua direita desconhece do seu outro lado
Repita inconstantes vezes
Não negue os trocos
Reconheça as trocas
Valoriza a prosa
Rebusca o obvio
Amplia a graça
Reintegra o ido
Necessita quando o ignóbil desaprova

Sacode povo
Antes que a terra treme
E nos cubra de lama,
E nos envolva
Feito edredom sobre a cama
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PASSASSE

Com a mão no cabo do ferro ardente
Elza alisa as camisas entre golas e botões
Realça os vincos das calças, dribla o zíper
Estica a alça azul da blusa junto à lantejoula
Vai e vem ligeira em atos continuados
Plissando as saias, dobrando o blazer
Circundando ombreiras
Armando os punhos
Sobre a macia tábua aquecida
Sob a manta de fumegante bafo
Revendo os amarrotados idos
Depois de quarados nos fios de alumínio e nylon

Elza analisa e dobra ainda cuecas e meias
Lençóis e mantas, calcinhas e toalhas, as fronhas
Por onde à noite repousarão as faces calmas
E serão enxugadas as deliberadas marcas
Que ficarão retidas no feltro macio
Perfumado de amaciante e pedras de anil e ipê
Lavanda floril, jasmim, e outros aromas
Artificiais tão raros, caros e essenciais
Sem cheiro de espuma, sabão, uso e mágoas

Conhece intimamente cada peça
Como se as vestisse
Como se as usasse
Como se nelas grudasse
Como se estas lhe cobrissem o dorso
Como se em seu sexo roçassem
Como se a dona delas fosse
Como se a vida envolta, em torno e dentro delas
Passasse
Passasse
Passasse
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EM TUA COMPANHIA

Quando teu silêncio estanca minha fala
Quando tua calma apara a minha pressa
Quando o teu zelo repara meu descuido
Quando teu perdão ofusca a minha mágoa
Quando a tua água sacia minha sede
Quando o teu colo descansa minha alma
Quando teu olhar revela o que não vejo
Quando os teus braços soerguem meus desejos
Quando tua bênção serena o que esconjuro
Quando teu conselho apregoa o que rejeito
Quando teu solo se assemelha à minha terra
Quando tua paz sacia minha ânsia
Quando teu suspiro estanca meu soluço
Quando teu norte guia o meu rumo
Quando teu prumo enceta minha linha
Quando teu veludo aplaca minha queda
Quando tua reza ameniza meus temores
Quando a tua cena anula o meu ócio
Quando o teu passo abranda minha estrada
Quando tua luz acende a minha sombra

Prostro-me peregrino
Quando redescubro
Quedo à tua divindade
Em tua companhia
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PARA JOAQUIM

Um encanto adorna os seus olhos
Que não entendem
Mas já apreendem e ensinam
A melhor enxergar o mundo

Nas pequeninas mãos
A força do berço
Sustenta a morna tarde
De um dia de maio
Tangendo o rubor
De sua face clarinha

De espírito valente, discreto
Sorriso sereno menino, amado, herói
Envolve toda a vida
Ao seu redor

Declino sem pressa
Bem-vindo, bendito
Amigo a esta terra crua
Aonde nos divertimos
Brincando de crescer
No balanço das manhãs

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A LOUCURA

Acostumada à agulha, ela mesma nem mesmo mais nota
A costumeira gincana cingindo a tela clara à onda escura
Com a linha bandida que segue rota ao fim do dia
Alinhavando as barras da tarde junto à costa impura

Vai usar sempre, em festas e bailes esse seu traje longo
Enamorada verá a bela túnica e a calça nova em cores vivas
Com pinças de sino ou apertada estética estritamente à moda
Acendendo as decências que ocultamos com as nossas dádivas

Plástica sombra que derrete os brutos e intumesce os lábios
Que desejam beijos e ardem as brasas das nossas brisas
Deu-nos certezas de asas leves que flanam as luas
Enluaradas, pudicas, enevoadas, aveludadas, concisas

Convém supor assim que essa deusa má e de face torta
Endoidece o mundo, sacode o tempo, e jamais se encerra
Com seus segredos malditos, amalucados, apodrecidos
Fazendo farra e ceifando avara por toda a terra

Na lógica amarga, quem não a vive, entretanto e não a salva
Dos próprios elos nos fartos erros dessa ventura
Viver é certo, mas que importa se estamos presos ainda que
Acorrentados, vivificando as diabruras de uma loucura

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EGO

Percebi em minha rua
Garfo colher faca
E concha do mar pedindo asilo.
Noé foi dormir.
A arca estava com goteiras.
O boi ignorando os bichos
Bebia água em pé.
No quintal as rosas afogavam.
A pomba da paz absorta
Acessava o Uol e via Tv
Buscando notícias sobre o
Princípio consequências
E o possível fim do dilúvio.

Foi quando em tempo
Virei a mesa abandonei o barco
E resolvi mudar de mundo.

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LAMPEJOS

               Paulo Sérgio Rosseto

Os sábios cientistas 
Debruçados em seus próprios cotovelos
Discutem ferrenhos os argumentos de Carl Sagan 
Investigados em mil novecentos e noventa e três
Quando a sonda Galileu na proa de Júpiter
Estampara nas telas intensos brilhos no mar
E ainda hoje os satélites denunciam
Complexos flashes 
Estranhos cirrus
Observados do espaço sidérico

Acreditam ser minúsculos cristais de gelo filiforme
Que flutuam quase horizontalmente
Nas nuvens de grande altitude
Em determinadas latitudes 
No entorno do planeta
E que refletem descontrolados a luz do sol
Conforme explica Marshak
Montado em seu DSCOVR

Mas eu 
Tolo atemporal e inveterado transeunte
Contrariando os desbravadores das obscuras nebulosas 
E instigadores viandantes 
Concluo que tais momentâneos brilhos
Centelhas faíscas cintilações
Provém todos dos lampejos 
Do desejo de beijos 
Dos lábios teus!

@psrosseto

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NECESSÁRIO

É quando escurece que embarco
E meu barco solto de amarras
Segue sereno na valsa das ondas
Para o meio do imenso mar
Desaparecem os medos
Submergem as angústias
E esse oceano de silêncios
Abraça intenso meu dorso
Onde ninguém há comigo
Onde a água é o único nível
Onde encontro indelével
O incrível sentido de amar
Distante das terras, do continente
Longe dos meus propósitos
Ali deposito minhas preces
Despojo os sentidos e as vestes
Que rasgam, agarram e modelam
A liberdade e o estado de estar

E quando amanheço volto
Retomo o rumo e prossigo
Equilibrando meu vulto
Mais prudente, necessário e digno

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SERÁ POSSÍVEL?

Será possível explicar como se faz iludir com beijo
Contar como trair com perverso olhar
Driblar caminhos através de palavras
Sonegar silêncios sem conforto e apreço
Ensinar a ser rude, impuro, a ter álibis
Produzir desculpas insignificantes
Visíveis desmandos que desmantelam
Os mais nobres argumentos formais

Saber precisamente dessa impureza mordaz
Que ultrapassa os vis acintes
Onde pulula o apodrecido comportamento
A qualquer um tornar-se indigno
Profanar os dias com ócio cabal
Vociferar urros em busca da caça
Açoitar o tigre que em si esconde
Amordaçar e nutrir de tédio o ser

Depois converter as dores e lágrimas
Em doces pecados banais
Estigmatizados em assombrosas orgias
Ou na abrupta e sórdida loucura
Traçar o ódio sem rumo feito abutre
Desculpar-se da vida e do receio mesquinho
Degenerado, padecer à sombra do tédio
E por fim não se arrepender jamais?

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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!