Lista de Poemas
SOMOS RIOS
Permita ao rio
Que administre e cuide seu próprio curso.
É sua forma
Madura e clara de ser feliz.
Que se entenda ele
Com suas dobras cheias no sertão ou nas cidades
Com a escassez ou ingestão de seus monstros
Ou a fartura convertida em remoinhos, vertentes
E fortuna.
Observa o leito, as curvas, o caminho
Que as águas traçam advertindo a paisagem.
Águas esbravejantes com as várzeas,
Descompostas com as margens
Determinadas com as pedras que se impõem
Compondo com os braços
Gestos irretocáveis nas quedas ou planos.
Somos rios
De vontades enrustidas ou afloradas.
Deixe que as águas sigam.
O bom espírito não precisa ser tão sério
E sim gigante.
DESCAMINHOS
Por uma noite inteira
Nenhuma estrela brilhou
Um acordo interestelar
Determinou o escuro absoluto
Naquele dia em que minha mãe morreu
Também a memória de meu pai
Perdeu-se quase que incongruente
Restando-lhe unicamente as básicas
Funções vitais do acordar, sorrir,
Alimentar-se, tocar viola, cantarolar
Mas sem consciência alguma em saber ou lembrar-se
Do dia em que minha mãe morreu
Conferindo os registros não há outros fatos
Naquele exato momento
Nem houve chuva diferente, nem vento absurdo
E as marés não exageraram
Apenas um meteoro absurdamente gigante
Raspou as beiras da casa
Separando convincente
Os caminhos dos meus pais
TANTOS ANOS SE FORAM
Então abrigamos na mala marrom de alças de osso
Algumas calças e camisas, meias, seis cuecas
Um rosário de contas azuis, documentos
Retratos, sabonetes gessy e duas pastas kollinos.
A blusa de frio foi cobrindo o peito
E escondendo os bolsos
Repletos de lágrimas e sorrisos de quem ficara.
Os vagões da EFFNOB arrastaram até o Luís de Lasagna
Imensas saudades de Três Lagoas.
Noutro dia o mesmo trem despejou no São Vicente
A mesma mala marrom abalroada de esperanças
O coração escorregando apaixonado
Um breviário de Salmos e ritmos gregorianos
E um container de fé incontida.
Aspirante desejoso, prestativo, aplicado
Éramos assim convertidos
Enquanto em mim roçavam as areias de Três Lagoas.
E nas águas do Araguaia, dedicados clérigos
Ensinaram a aprender servir sem mesura
Mesmo banhado pelas águas das Três Lagoas.
Tantos anos se foram.
Histórias, pontes, fontes, lugares,
Chuvas, invernos, verões...
Mestres e irmãos exemplares perpetuam.
- Venero a vida Salesiana.
PRÉDICA DO APRENDIZ
Que a fé se fortaleça e convença os votos
Que prevaleça a esperança e alimente os sonhos
Que a entrega seja plena e a fraternidade se farte
Que o silêncio domine a língua e os atos
Que a oração sobreponha-se a todas as vontades
Que os exemplos complementem os ritos e mantras
Que a transparência da alma se encontre
Que a busca não deplore as próprias conquistas
Que as vitórias resultem da humildade
Que o regime não regule as rotinas
Que os exercícios excitem as experiências
Que os segredos não denigram a caridade
Que se refaça a insistência em persistir
Que exista a verdade conduzindo o espírito
Que reflitam os gestos em profunda alegria
Que os passos sejam certos e aos caminhos atentos
Que as palavras construam sólidos templos
Que os efetivos laços jamais se rompam
Que os braços dados elevem a honra
Que as mãos impostas realizem milagres
Que sempre o perdão conserte os destroços
Que se respeite a justiça e o mérito da ordem
Para que tudo valha por estar justo e perfeito
LAVRADOR
Implanto na terra boa letras nuas
E dos sulcos úmidos da fértil roça
Surgem sílabas que o tempo, o sol e o orvalho
Transformam em árvores-palavras que viram versos
De onde colho doces poemas e poesias.
Sou lavrador de ideias e pensamentos
Astronauta, médico, romeiro, afiador
Das laminas que remexem as emoções,
Ânsias, paixões e os sonhos de quem me lê.
Cultivo estrofes como se faz amizade
Remexo as glebas com minhas saudades
Aro os solos no aguardo dos brotos
Das cantigas, lamúrias, lamentos e canções.
A fortuna que tudo isso me traz
Resulta dos abraços que a tua alma me dá
Dos risos quando tua face se encanta
Dos silêncios que teu vulto transborda
Dos teus gritos que me restam calar.
O SOPRO NA FLAUTA
Na cadência levamos as tarefas da vida
O fato de amar a decência nos atos
O riso, alegrias, o choro, sonolência
E tudo o mais precioso e preciso
Para ornar os temas dos falsos dias
Escolhemos assim os caminhos
O sopro na flauta, a música, melodia
Que encanta, encaminha, convence, implica
Ou envelhece a derme, descarna ocasiões
Estagna a atmosfera que fere e acalenta
Sambamos na prece, faltamos no ar
Ritmamos certos no piso e na mágoa
Seguimos a pauta apolítica, complexa
Compressas atadas, lerdas, sem pressa
O esqueleto não mais suporta ir longe
Onde se vai, de onde vir, como existir
Sem achar os termos de ser parecidos
A paredes plantadas, caiadas, refletivas
Repletas de historias, intolerantes parcerias
Reconhecidas todas as notas, remexidas viradas
Nas cenas burlescas dos raros momentos
Em que comungamos religiosidade e suingue
Permitindo o aporte das áreas revolvidas
Nunca mais somos todos tão santos
Quanto absurdamente animais
FAZ TEMPO
Sempre haverá prudência
Onde a determinação persistir
Pois produzimos espaços tão sequenciais
Incapazes de passarmos despercebidos da vida
Contar os segundos jamais irá retomar
Ainda que retardemos os passos e as horas
Conviver com o refluxo das auroras no ventre protuberante
O griso leve ou intenso nos pelos rareados
O estresse que masca as gengivas violadas
O desalinho das vértebras desbastadas
A pele, os poros e os sujos porões das artérias
As retinas que desapegam das imagens
A fala que se deixa deflorar por
Tudo que não se pode mais ouvir
Refizeram-se por si só
Não faz tempo, nem muito tempo por sinal
Que acampamos no retardar dos dias
Agora é o entremeio entre o ontem e o porvir
Caminhando mesmo a módicos e lerdos passos
Repletos de sabedoria, ainda que confundidos
Entre a subserviência e o servir
Das lições que pelas trilhas empreendemos
Retomadas da infância reavivada e
Entremeada de vorazes utopias
SER PÁSSARO
Preciso fugir
Subir, voar
Descobrir novos sons
Empinar as plumas
Arrepiar as penas
Olhar de longe
Apreciar, desafiar limites
Ser pássaro
Sumir
Encontrar pistas
Treinar os olhos
Decidir distâncias
Emparelhar
E ao mesmo tempo estar só
Num espaço único
Imensurável!
Degustar azuis
Vislumbrar as cores
Desaparecer
Reencontrar o apropriado
Recolher histórias
Religar os raios
Reconhecer perímetros
E distanciar
A necessidade do desnecessário.
Nesse jejum
Remoldar a terra
Caminhar desapegado
Desandar
Reafinando o pio
Desafinando o canto
Traduzindo
O eterno perfil do universo
Moldado no interno desejo
De existir.
Ah, incontrolável sonho
De reformular!
NOSSOS PÃES
Na Irlanda a Ilha de Man
Mantém-se sob a égide da Coroa do Reino Unido
Apesar de que as fotos desgastadas nas traças do tempo
Perderam parte do brilho e colorido;
- Os rios continuam caudalosos na amarela Barsa
Edição 1969;
A estante já não é a mesma.
Devorávamos todos aqueles volumes
E a sede de ler ia além das nossas forças.
Puxávamos os barbantes, latas velhas redondas pelas ruas
Enquanto na outra mão suja de poeira
Meio metro de pão envolto por minúsculo papel vinho
Do Armazém Central,
Passeava nas calçadas
Atiçando a fome pelas belas viagens nos volumes da rica
Enciclopédia da casa vizinha.
Mas juntos
Fazíamos daqueles espaços nossos passos
Alargando nossa torpe geografia.
Nos sertões de Selvíria onde o medo era desaprender
As taperas eram magistrais castelos
Os quintais colossais pomares e jardins
Incólumes partições sociais onde nós civis e soldados
Soltávamos as asas nas cores dos vitrais.
Nos casávamos na modesta e acanhada capela,
Nas monumentais torres da Catedral.
Entre mares da Irlanda na Ilha de Man
Feito de poças de água doce
E enxurrada
Enlameávamos os olhos
De profunda algazarra, cultura e alegria
Os nossos pães.
POR MEIAS PALAVRAS
Minto somente quando
A mente trava
E a verdade teimosa
Dilui-se na correnteza opaca
E vaidosa esperteza
Da minha hipocrisia.
Por vezes minto ainda
Quando desapercebo
Que o estado itinerante que tolera a mentira
Cochila a memória
E as informações descabidas
Distendem meu estado reticente, e falham.
Repudio, avilto, e não tenho por hábito
Nem prática mentir.
Mas repentina e aparentemente
Recordo ágeis e inverídicas falas
Que depõe às cegas certos momentos meus.
É quando de acordo acordo
Rebuscando todas as verdades desditas
Por meias palavras.
Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
Português
English
Español