Lista de Poemas
À SOMBRA SOB OS OLHOS DE DEUS
Desentende-se com meu rosto
E a cama e seus lençóis
Giram em torno das borboletas
Estufando de fantasmas
O bojo do travesseiro sem ar
Eu permaneço ali
Como um lago imóvel decantado
Descartando alternativas e possibilidades
De não dormir
Como se a revolta das coisas não fosse comigo
Assim faço todos os dias
Quando o carro não liga
A lâmpada não acende
O fio não conduz, o café não coa
O caminho não chega
A cola não adere
A carne não assa
A chuva não molha
A roupa não seca
Talvez seja eu somente
Um vazio banco de praça
Um meio fio de esquina ou poste desnecessário
Sem nada mais dependurado
Esticado em varal
Quarando à sombra
Sob os olhos de Deus
TRANSITÓRIO
Não deixe que o coração amordace
O que tua palma ressente
O que tua luz desconhece
Daquilo que te anseia e apetece.
Procura pois na mesmice
Entender tua parda rotina
A causa do pus que te inflama
O peixe que retém tua isca
A física dor que te amola
A esmola que a vida te encima
Abrasa e te põe intranquilo.
Serena - no entanto amplie teu lastro
Conhece-te idôneo, viril, resiliente
Apura o que induz ao apupo
Encaixe o obvio ao efêmero
Ao que condiz transitório
Intocável, extremo, transitivo.
Porque da alma o que soçobra
É só o que o remédio não cura
E a obra que se depara
A tudo que se depura
Ao vinho que se degusta
E ao vento que te segura
Da sede que te resguarda
Da vida que te assusta.
DE CORAÇÃO
Sem formas geométricas
Sem margens divisórias...
Três infinitos contidos
Num só sentimento
E em cada filho seu.
Três - sim, não são muitas
Mas capazes de dar vida
A um mundo de sonhos...
Claras aspirações
Como ondas de um mar imenso
Naturalmente represado...
Três infinitos cantos:
Sonhos tempos versos;
Três universais vidas:
Amores trabalhos esperanças...
Três em uma fonte de seres humanos
Capazes de dar
- Mais que uma lágrima -
A vida pela sua existência.
Três - apenas três - Lagoas
VÉSPERAS
Embainhai vossa espada
Pelo dia santificado
Ficarei quieto em casa
Exercitarei o jejum
Rezarei o oficio das doze
Verei dois filmes com os meus
Não irei pedalar nem a caminhada
Tomarei banho morno
Não gastarei risos nem lágrimas
Permanecerei de ouvidos moucos
Aos possíveis rumores da rua
Muito festejei de véspera
E de tudo me resguardara
Descansai pois anjo bom
Nenhum mal me aguarda
Se morrer será unicamente
Na irrestrita medida
Do vasto amor que me espera
UM OSSO EXPOSTO
Existe um poço seco
Onde por vezes escondo algumas manias
Como qualquer outro dia
E ali deposito aventuras e medos
Observações, melancolias, dores e usuras
Perigos e frustrações
Possibilidades, feridas mal curadas
Adagas enferrujadas
Cáries não obturadas
Restos das unhas que roo
Sebo que arranco dos olhos, cravos
E sílabas impronunciáveis
De inúmeras frases truncadas
Sempre retiro a água do meu fosso
Porque não desperto nem afogo
As mágoas das minhas afiadas lâminas
E provavelmente desminto os fantasmas
Remediados que atormentam
A conveniência da alma e do destino
Convertendo o incômodo avanço
De tudo que apreço, aprendo e apregoo
Falível, sou parte desta sociedade
Que devora o presente
Mas não se sente doente
Por ter uma tarja nos olhos
E um osso exposto
BELO
E desvendara os segredos
Do outro lado da sala
Descansa, dorme, flana, voa
Contempla a verde terra que tanto lavrara
Os riachos mansos
As campinas calmas
As amarelas flores do guaraçai
Em cuja ampla sombra tantos anos brincara
Brinda com os anjos, continua as estripulias
As mesmas que alegravam
Nossos sonhos e dias
Aperta as mãos dos Nonos
Puxa a saia da Mariquinha
Foge do Arlindo
Esconde a botina do Lico
Apaga o cigarro de Valério
Beija a face da Tina
Abençoa com eles nossa rotina
E nos conta se o céu é belo
Se o céu é belo
Por quê é belo
SAGA
Três lagoas ardem no ermo da noite de junho
E perambulam no frio das avenidas
Cantam, uivam, bradam, clamam
Inacreditável latejam enfeitadas
Festejam, se juntam e se espalham
E inflam, e orvalham suas relvas
Onde começa a madrugada
Dois rios ali copiosos
Aguardam ansiosos em seus leitos
Que elas meninas
Neles se deitem e aninhem
Sosseguem o desejo em vertentes
E misturem as próprias águas
Lambuzem e beijem as ondas já sem margens
Renovando a vida e seus sais
Cruzando pernas e braços
Unindo as bocas abertas
Sedentas no cio
Copulam sem pausa em sinfonia
E quando o sol vem
Navegadas, retomam suas poças
Delicadamente ensopadas de vida
Cheirando a taboas
Renovadas e cantantes
Aquecidas, refeitas
Rindo das nuvens
Refletindo os raios do dia
Absolutamente intensas e fartas
Por onde capivaras e tuiuiús pastam
Junto ao povo que descuidado as circunda
Construindo no entorno
A própria historia
BELO
E desvendara os segredos
Do outro lado da sala
Descansa, dorme, flana, voa
Contempla a verde terra que tanto arara
Os riachos mansos
As campinas calmas
As amarelas flores do guaraçai
Em cuja ampla sombra tantos anos brincara
Brinda com os anjos, continua as estripulias
As mesmas que alegravam
Nossos sonhos e dias
Aperta as mãos dos Nonos
Puxa a saia da Mariquinha
Foge do Arlindo
Esconde a botina do Lico
Apaga o cigarro de Valério
Beija a face da Tina
Abençoa com eles nossa rotina
E nos conta se o céu é belo
Se o céu é belo
Por quê é belo
EU RIO DA VILA
Despegou-se decidida
Decapitando a Cidade da Vila
O Norte do Centro
Repartindo a pista
Como alguém que resolve
Divorciar-se de si mesma.
Cansara desse leva e traz
Das mazelas que fazem com as beiras
Com o relaxo empestado
Ao meu frágil leito e às carcomidas margens
Danificadas por erosões tenebrosas
Que se roem em covas
Decompondo ideais e cadáveres.
Quem a vê pensa ser apenas
Uma manta de ferro e argila
Soerguida entre dois conceitos.
Não enxerga suas mãos
Resolutas soltarem-se dos laços
Entre as castas, dentre os sustentos
Abrindo as alças em braços
Encolhendo as pernas
Vertiginando o volume das bases
Implorando auxilio em meu socorro.
Tentam reata-la com gosma
Cimento, sarcasmo, aço, suor e pedras
Como quem sutura artérias
Após um escaldante infarto
Devido ao intenso tráfego de
Sódio, fumaça e gordura.
Por debaixo da viva laje
Rio amargo teimando intermitente
Escoando ignóbil tudo o que lava e declina
Lambe barranco e ferve os nervos
Dos seios de uma gente insólita
Que vem e vai sobre o asfalto
Remendado e partido
Sem apiedar-se de minhas águas pardas
Que se deitam fétidas e quase sólidas
Entre limbo, lodo, lixo, fuligem e folhagens
No azedo da beira do mar.
ARMA DE BEM
Usa tua arma de bem para modelar as lutas
Travadas e escondidas nas folhas
Das tuas batalhas ganhas
Em meio à selva entre as feras
Que consomem teus desejos bons
Diariamente quando despertas
Ou adormeces tuas escolhas
Apropriando-te assim dos teus coesos princípios
Terás a nítida certeza
De que não há hipótese nem regra ou piedade
Nem caminho desnecessário de se passar
Que não gere liberdade e gratidão
Muito além de qualquer aspereza e vício
Que o acaso aprisione ou porventura
Se agregue à tua sobriedade
Demora entender desse enlace
Mas essa é a conta suprema
Que engrandece, evidencia e dá ciência
A essa dor que não se chora
A essa face que não se oculta
à mansidão que nunca agride
Nem desumana as tolas buscas
Que sublimam a existência
Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
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