Paulo Sérgio Rosseto

Paulo Sérgio Rosseto

n. 1960 BR BR

Porto Seguro/BA. Escritor e Poeta. Livros Publicados: 24Livros no Prelo: 04Biografia completa: psrosseto.webnode.comLivros à venda: clubedeautores.com.brInstagram: @psrosseto

n. 1960-04-11, Guaraçai - SP

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FAXINA

Introspecto queimo todo o lixo que deparo:
O bem do mau, o luxo e amorfo
O sórdido e prolixo da boa intenção
Sob a desculpa da fala, das justificativas
No refluxo prévio da arrebentação

Limpo as gavetas, os arquivos do córtex
Varro o chão da memória, rastelo vértices
Arestas e faces que gramam minhas vontades
As mais sujas e obscuras possíveis
Por meio século sem razão recolhidas

Uso da palavra como ferramenta de mão
Que escava intenções, remexe pensamentos
Remodela a arte transformadora do sentir
Para erguer-se altivo e predisposto
Reforçando colunas e produzir gentilezas

Eis a forma como decompõe-se a cera que me arde
Mínima chama no escuro da morte
Porem transparente e útil como lâmpada e luz
Limpa, livre, solta feito flocos do sal
Que depuram lagrimas de silêncio no porvir da idade

Sigo, por fim, andejo pelos polos de um imã
Que desperto e involuntário reverte meu leque
Provocando por sinais longas tempestades
Cujos ventos internos de sua doma reformam a manhã
Por onde diuturno construo sadias as minhas tardes
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Poemas

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LAMPEJOS

               Paulo Sérgio Rosseto

Os sábios cientistas 
Debruçados em seus próprios cotovelos
Discutem ferrenhos os argumentos de Carl Sagan 
Investigados em mil novecentos e noventa e três
Quando a sonda Galileu na proa de Júpiter
Estampara nas telas intensos brilhos no mar
E ainda hoje os satélites denunciam
Complexos flashes 
Estranhos cirrus
Observados do espaço sidérico

Acreditam ser minúsculos cristais de gelo filiforme
Que flutuam quase horizontalmente
Nas nuvens de grande altitude
Em determinadas latitudes 
No entorno do planeta
E que refletem descontrolados a luz do sol
Conforme explica Marshak
Montado em seu DSCOVR

Mas eu 
Tolo atemporal e inveterado transeunte
Contrariando os desbravadores das obscuras nebulosas 
E instigadores viandantes 
Concluo que tais momentâneos brilhos
Centelhas faíscas cintilações
Provém todos dos lampejos 
Do desejo de beijos 
Dos lábios teus!

@psrosseto

795

SERÁ POSSÍVEL?

Será possível explicar como se faz iludir com beijo
Contar como trair com perverso olhar
Driblar caminhos através de palavras
Sonegar silêncios sem conforto e apreço
Ensinar a ser rude, impuro, a ter álibis
Produzir desculpas insignificantes
Visíveis desmandos que desmantelam
Os mais nobres argumentos formais

Saber precisamente dessa impureza mordaz
Que ultrapassa os vis acintes
Onde pulula o apodrecido comportamento
A qualquer um tornar-se indigno
Profanar os dias com ócio cabal
Vociferar urros em busca da caça
Açoitar o tigre que em si esconde
Amordaçar e nutrir de tédio o ser

Depois converter as dores e lágrimas
Em doces pecados banais
Estigmatizados em assombrosas orgias
Ou na abrupta e sórdida loucura
Traçar o ódio sem rumo feito abutre
Desculpar-se da vida e do receio mesquinho
Degenerado, padecer à sombra do tédio
E por fim não se arrepender jamais?

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SOMOS RIOS

Permita ao rio
Que administre e cuide seu próprio curso.
É sua forma
Madura e clara de ser feliz.
Que se entenda ele
Com suas dobras cheias no sertão ou nas cidades
Com a escassez ou ingestão de seus monstros
Ou a fartura convertida em remoinhos, vertentes
E fortuna.

Observa o leito, as curvas, o caminho
Que as águas traçam advertindo a paisagem.
Águas esbravejantes com as várzeas,
Descompostas com as margens
Determinadas com as pedras que se impõem
Compondo com os braços
Gestos irretocáveis nas quedas ou planos.

Somos rios
De vontades enrustidas ou afloradas.
Deixe que as águas sigam.
O bom espírito não precisa ser tão sério
E sim gigante.

573

NECESSÁRIO

É quando escurece que embarco
E meu barco solto de amarras
Segue sereno na valsa das ondas
Para o meio do imenso mar
Desaparecem os medos
Submergem as angústias
E esse oceano de silêncios
Abraça intenso meu dorso
Onde ninguém há comigo
Onde a água é o único nível
Onde encontro indelével
O incrível sentido de amar
Distante das terras, do continente
Longe dos meus propósitos
Ali deposito minhas preces
Despojo os sentidos e as vestes
Que rasgam, agarram e modelam
A liberdade e o estado de estar

E quando amanheço volto
Retomo o rumo e prossigo
Equilibrando meu vulto
Mais prudente, necessário e digno

534

FINALMENTE

           Paulo Sérgio Rosseto

Dá-me um gole da tua dor
Para que a tornemos discreta
E se possível mais amena
Como se um menor torpor
Daquilo que a alimenta
A ambos significasse

É assim que o amor se completa

Estúpido é quem acredita
Que solidão plena letra por letra 
Serve apenas a insanos
E se cura aos pedaços

Como se não bastasse
Vivemos daquilo que sentimos
E de tal forma nos complementamos
Que mesmo que um de nós
Vá ali fora morrer
Depois finalmente conversamos

@psrosseto

166

INDECISO

De manhã quebro um ovo
Na borda da frigideira

A clara branca se espalha
Como pensamento impreciso Ele me olha com seu olho amarelo
De que o comerei apenas porque preciso

Além da janela
Um pombo discute com outro
A posse de uma migalha de nada

Eu também quero uma migalha de nada
Mas um nada feito do pão com o ovo
Que não discutem quando mordo

Apenas mato a fome
E indeciso esfarelo

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SIGNIFICADOS

          Paulo Sérgio Rosseto

Dizes que passo a vida ruminando palavras

Acaso seria possível 
Comê-las como se faz num dicionário 
Aos cachos pencas porções sem degustá-las?
Estariam elas escritas nos aleatórios gramaticais
Sem significados?

Palavra nenhuma se atrela ao que se diz ou faz

Aliás dormem repaginadas 
Quando a boca está fechada
Ainda que o pensamento as lê 
Ainda que recobradas
Permaneçam isoladas

Sinto o gosto das palavras no querer dizer mais
Principalmente as silenciadas

Eu recito poemas para que reescrevas a tua alma
Sem que saibas de nada
Num gesto de página virada


@psrosseto

23

DIA DE TI

              Paulo Sérgio Roseto

Talvez hoje fosse o dia de ti
De mim
De quem vê que o herói
É somente mais um dos tantos 
Mutilados pelos dentes 
Pelas mentes 
Assolados pelos altos e baixos 
Pelas frentes pontas cantos
Pelo espanto de serem tantos
E não passarem de um desencanto
Qualquer ou qualquer um
Onde o feriado descansa
E mártir e serpente enfeitam praças
Se encontram enquanto tanta gente 
Vira dor de cárie
Vira falta sem guia de quem poderia

Hoje é mais um dia incomum de abrir 
Os olhos do que se fez e ver 
Que não se tira os dentes
De quem já não morde
Como mordeu antes

@psrosseto

19

CORES

           Paulo Sérgio Rosseto

Era preto no começo
Depois veio o branco
E o tudo ficou cinza

Até que gritassem 
Entre escuro e claro
Colori-vos!

E as cores
Passaram a ter
Nome e desnome
E viraram diferentes coisas

Então inventaram a morte
Que permaneceu sem cor
Por ser pressuposta

É por ela que a vida implícita
Descolore-se
E some

@psrosseto

31

O INSTANTE

       Paulo Sérgio Rosseto

Um segundo passa e já era 
Passou 

O agora é um quase 
Engolido pelo depois 

Se o instante é essa linha tênue
Onde nos partimos ao meio 

De um lado então 
Dobra-se o nunca mais 

Do outro estoura 
O ainda não 

Por acaso só existe o fim 
Quando o tempo some em mim

@psrosseto

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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!