Escritas

Lista de Poemas

LAMENTO

Lamento pelos que ainda a aplaudem
Não renegam teus atos e acolhem as sandices que decretas
Que se debruçam e pactuam contigo sobre o visgo que amordaça
Que obrigam que se desfile em fila e marchem cegos
Que se siga sob o perverso e o descalabro
Desalinhados sob as intempéries e o desalento

Não é este o vento nem o cantar da aurora que almejo
Porque não se questiona nem protesta, apenas vão
Acolchoados às divisas que fingem entrever
Ainda que sentem que usurpas, contaminas com escarnio
Mas o que é a troça senão
O fato de tripudiar sobre os sonhos
E a sede de quem apenas pede

Tenho vergonha pelo respeito que perderas
Como feiras desertas ou salas às traças
Sem ideias, lógica, de planos partidos, sem regra
Desapropriada de quaisquer sentidos caprichosos
No passar dos dias, no perder da massa
Onde tudo se esvai, dilui, entorna, desagrega

Quando a ordem entretanto serpentear teu andor
E deparar tua pobre face podre sobre o espelho praticável
Espero que sintas desconfortável, ridícula
O quanto estás nua, sem ética, desumana, solitária
Porque verás as joias que costumavam brilhar, opacas
As insígnias que a reverenciavam, decompostas
E os aventais dobrados ao meio
Desafiando o teu nefasto despudor
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BRINQUEDOTECA

Velhos brinquedos amontoados
Faltando asas rodas braços cordas
Empoeirados sem cores
Mas ainda mantendo pilhas vivas
De prazeres encantoados
Encantados entoados
Cantados catados

Raros e abençoados momentos
Recolhidos pelas mesmas mãos que brincaram
Guardados agora no interior das lembranças
Na brinquedoteca da sala das liturgias
Num quarto de vida
Entre caixas e gavetas do depósito
Em caixotes canecas copos bacias

Brinquedos de pau plástico pedra papel
Arame enferrujado sem cobiça
Alguns milagrosamente inteiros
Não menos brincados mas intactos
Porque nem tudo se quebra ou esvai
Ainda que use abuse conserta-se distrai

Há um indizível cordão que os prende e interpõe
Amarra um ao outro por novelos e nós
Com eles foram construídas estradas cidades famílias
Fazendas casinhas cozinhas estádios circos escolas
Indefinidas certezas de que tudo é possível
Desde ontem até hoje e após
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UM TANTO DE MIM

Estou ensaiando escrever as minhas memórias
Mas lembro-me tão pouco de tudo

Apenas que havia ruas sem calçadas e vastos nacos de areia
Por onde saltava descalço para não empoeirar as ideias

Mangueiras imensas que sombreavam formigueiros
Com galhos repletos de ninhos amplamente habitados

Porteiras às vezes abertas por onde escapavam os temerosos sonhos
Conversas e cumprimentos entre uma barranca e outra do rio

Capins e flores rasteiras, quiçaça, cheirosas goiabas maduras
Guavira, guariroba, ipês, angelim, manjericão

Mãos que acenavam dizendo vem - nunca de adeus
Corais de insetos, aves e animais que se recolhiam por nome

Buscava a forquilha perfeita para um bom estilingue
E pedaços quaisquer de corda ou condão para armar arapucas

Não sentia fome, nem sede, nem esperança de crescer
Apenas a qualquer hora e momento uma irresistível vontade de pecar

As casas eram pequeninas, grande o tamanho dos dias
E os dias eram maiores que o ar que respirava

Não havia rastros, seguia apenas exemplos
Sem guias, cabrestos, rédeas, normas, leis, ordens

Estou tentando explanar minhas lembranças
Mas sinto que as esqueci guardadas por entre folhas no chão

Será imensamente mais fácil perguntar a você
Quem sabe um tanto de mim
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METADE DA ÁGUA DOS MARES

Metade da água dos mares é lágrima fútil
Outro tanto saliva dos escárnios no mundo
Assim vontade e desprezo liquidificam-se
Distraindo as levadas por embates profundos
Lavando as honras em maré fértil

Por isso suspiram avivadas as incertezas
Resguardando em trincheiras os continentes
Apartando as milícias aos milênios
Cumprindo os íntimos sinais da natureza
Reformulando a seu modo tempo e cotidiano

Seres blindados optam chorar sem molhar as areias
Desconhecem a convergência das comoções
Não trazem no pranto essa gênese avara
Nem provocam as marolas e as tempestades
Não vivenciam as delicias das ilusões

Eu loucamente quando choro revolvo oceanos
Com a futilidade dos meus desenganos e paixões
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RESTAURAÇÃO

O altíssimo soberano - aquele que nunca dormiu
Envelheceu desconhecendo o sono
Cochilando apenas recostado à necessidade
De manter-se peremptoriamente acordado
Partiu solidário para longa odisseia
Antes que o caos retomasse o infinito

Assim reimplantou moradas entre quintais
Presas às balaustradas e cercas dos caminhos
Junto aos pomares à beira dos frágeis riachos
Cujas águas inquietas e rasteiras
Voltaram seguir em busca dos sonhos
E das inconstâncias dos oceanos

Vigiou os conceitos das plataformas
Erguidas à procura do destino ideal
Mantendo-se atento aos mínimos gestos
Dos astros no macro espaço entre as esferas
Que circundam e orbitam os planetas
Diante das plateias angelicais

Resguardou o porvir de todos os povos
Recolhendo as possibilidades do desprazer
Eliminando as desventuras da realidade
Convencendo a natureza de que é preciso
Tão quanto necessário e premente
Zelar atento aos ditames dos céus

Soldou os hemisférios circundando os mares
Realinhou as geleiras nas montanhas verbais
Reposicionou novamente todas as espécies nos habitats
Intercalou com noites os claros do sol nascente
Retornando a espera pelo amanhã e depois
O sublime exercício nato da paciência diária

Aí sim ao final da estanque tarefa de restauração
Na manhã do bilionésimo milênio ou algo assim
Contemplando a morada completamente refeita
A missão cumprida e finda a jornada em seu jardim
Descansou por sete dias em sono profundo
Num belo domingo como humano e não deus
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E O NADA EXPLODIU

Incerteza pacata no pulso
Era nada
(E o nada explodiu
Explode
Explodirá)

Explodira

(Ex ou não?)

Do nada veio o tudo
O tudo veio do nada

Nada veio nada

Onde está o nada?

- Não está mais porque já há tudo
Porém tudo tudo tudo é NADA -

(Apenas)
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UM VENTO HOMEM

O vento é redoma impune escondida
A mente é quem cria sua própria vida
Tem ar alimento dos pés o do vento
Nem homem nem nada
É tudo um evento

É
Foi assim
Rodando rodando
Que a vida começou

É
Foi assim
Parando parando
Que a vida se acabou

É
Bem assim
Morrendo morrendo
Que tudo iniciou
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PRÓLOGO

Aquele pedaço de lua
Contou-me uma história tão bonita
Mas tão bonita
Que as estrelas que estavam
A luzir ao seu redor
Choraram...

E suas lágrimas lavaram
Meu coração
De sonhador
Transformando minha fantasia
Em verdades escondidas
Nos quartos das fases
Do meu eu
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CONTRAGOSTO

Quebra-pedra
Quebra a pedra pra nascer
Nascer no mundo
O mundo é de pedra
Quebra o mundo, quebra-pedra
Com as pedras que jogamos no mundo

No jardim de pedra
Há uma estátua de pedra
Que enfeita a frente da casa de pedra
Onde nasceu o Doto
Onde morou o Doto
E não morreu ali
Mas cuidou do jardim de rosas
E tinha alma de pedra
Por isso hoje ele é tudo pedra
E se eu fosse um quebra-pedras
Quebraria o Doto de pedra
E também o jardim e a casa
Pra mostrar que um quebra-pedras
Pode mais que os antigos pobres
Que bateram à porta do coração de pedra
Do Doto de carne queu hoje é todo pedra
E pó
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PROVÉRBIOS

Mercador de sentimentos e provérbios
Rebusco palavras aos quilos
Desde as formosas às peregrinas
Das pequeninas às mais intensas
Refinadas, densas, sublimes, enciumadas
Palavras ditas impensadas, que pesam
Quantas vezes necessário

- Subliminares, divinas, necessárias
Insossas, complexas, inclusive mal ditas
Trucidadas pelas intenções
Espetadas em frases desconexas, gaguejadas
Impronunciáveis, malfadadas, semitônicas
Moduladas em versos empíricos
Recolhidas dentre as mais pudicas sílabas
Recheando frases oclusas, pareadas
Em todos os dialetos e idiomas

Compro-as enciclopediadas ao atacado
Em arquivos e livros empilhados feito containers
Com acentos ou débeis recontos desprovidos motivacionais
Onde não se assenta nem se acentua mas significam pelo fim
Destas que os cancioneiros compõem os seus temas
E as amas sussurram às crias sob o silêncio do sono

Palavras incandescentes, próximas ou distantes
Das que resultam das experiências dos pensamentos singulares
Pluralizadas, grafadas em papéis doentes, ou banhadas a ouro
Incautas, redistribuídas por fictícias pautas, pausadas
Confidenciais, manuscritas, acondicionadas em compêndios
Históricas, atenuadas, presentes, absorvidas na leitura
E as animalescas vomitadas pela hermética da ira

Também as sinônimas e as justas à razão
Que repreendem e até mesmo humilham
Que perambulam entre a escória e o fedor
Alvejadas, cansadas por não terem sido tão ditas
Propaladas, preparadas para o ludibrio
Impressas, impregnadas da razão cautelar
Compiladas em extensas teses expressando o obvio
Ou díspares monossilábicos que insinuam guerra e barbárie

As catalogadas pelos sábios, doutos pensadores e nos tribunais
Rebuscadas na intrínseca genialidade na verve dos oradores nos sublimes púlpitos
Vistas nos conceitos e preceitos das bulas morfológicas dos senados
Desapercebidas e desapropriadas nas ocultas entrelinhas contratuais
Sistêmicas, conjeturais, carnavalescas, infectadas de adjuntos
Preconceituosas, carnais, comichadas, úmidas, secas, engolidas
Aficionadas por antagonismos, sem rumo e rimas
Bem aventuradas, apocalípticas, consonantes, adverbiais

Não somente as negocio sem sentimentos
Mas oferto-as labiais, transigentes e lapidadas
Não as capto ou sirvo como molécula e matéria
Elas sim inocentes me tomam rasteiras
Espumam entre a saliva, a língua, diafragma e dentes
E se fazem prediletas nas infinitas orações
Presentes deste universo racional que tudo fala
Ainda que emudecidas calem os horizontes
Desde sempre, amanhã e ontem semeadas

Sim sou mercador de sentimentos
Por onde intransponível a insensatez escorre
Negociador nato de provérbios e nesgas palavras
Enquanto se respira e ora pelo cálice, o acaso e o agora
Porque ornarão o espelho da indizível lápide
Do dorso um dia frágil que a seu tempo morre

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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!