Lista de Poemas
TARDES BRANCAS
Octas do céu unem-se às suas nulidades sorrateiras
É como se os espíritos desprendessem da terra
E pairassem nas nuvens gélidas enciumando as estrelas
A tarde - essa efêmera polida de sandálias brancas
Pisa o profundo e deixa rastros nas veias
Profusamente passa de propósito e de encalço
Mas passeia tão leve como se nem adensasse
Peso algum sobre o cansaço do mundo
Apenas sobre nosso tempo e anseios
Suas sandálias brandas imitam tiras de couro
Presas por fivelas plásticas em fios de prata
Claras do ovo em neve da Antártida
Cores despidas das velas acesas
Tao ligeiras são as suas pernas
Tão névoas são as suas penas
Brancas e suaves também as suas meias
Hoje ainda domingo iludimo-nos
Nunca saberemos dos mistérios que a noite prescreve
Nem a quem de nós deixará vivo para as próximas feiras
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MIRAGEM
É a convicção com que costumas
Olhar meu rosto quando olho-te
Vívida vertigem num relance de adereço
Leve qual folha de afeto que fita e voa
Enlace de fugidia bolha ao vento afoito
Nuvem que esvai sem rumo e endereço
Perder-se na paisagem cúmplice à toa
Ver-te é miragem
Achar que me fitas é fábula
Pensar que me enxergas - tolice
Ainda assim me perco sitiado em tua foto
Desenhado em tua imagem
Adormeço
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NÃO SOU PENSADOR
Aliás as vãs coisas que penso não me acham em si
Riem-se de maneira absurda e voraz
Tão assaz e intensas são as suas asneiras
Volúveis ideias simplórios ideais
Certa vez pensei que pudesse deixar o amor
Sentado na soleira da porta vendo o tempo passar
Sem me esquecer de amar
Que pudesse guardar dos perigos das horas
Os clarinhos da lua sem que fossem embora
Que voltariam amanhã para os olhos ainda úmidos
Os sorrisos de cada lágrima que chora
Que as palavras que dissesse
Cerceassem dúvidas por verdade e mentiras
Ora envelheci na oficina dos versos montada no sótão
Do coração tentando produzir poemas como quem retira
Da toalha da mesa e dos amarrotados lençóis
As manchas prensadas da solidão que atordoa
Tudo que penso enfim esvai mas nunca aquieta
Deteriora quando a consciência me acorda
Apenas a teimosia perdura acometida da ilusão
De estar aprendendo a pensar poesia
Com olhares de poeta
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QUANDO PARTIR
De algum jeito separado ao trivial
As vestes ficarão vazias
O lado da cama estarei ausente ao lençol
Um prato não mais virá farto à mesa
Nenhum olhar me será perceptível
Inclusive a sombra desistirá sozinha
Da minha clara fiel companhia
Somarão por certo os pensamentos
À ausência completa de algo que persistirá
Resistir entre o acaso e a certeza
De alguma saudade até qualquer forma
De um verso amorfo de poema
Outra lembrança resiliente disforme
Dirá que nem tudo antes fora efêmero
Enquanto após seja dilema
Quão débil soçobre o poeta
Ainda deverá haver poesia
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REFORMAS
Sob as telhas no alto da cumeeira
Moravam cupins dormiam morcegos namoravam pardais
Os anos acumularam poeira nos fios que cruzavam o forro
E sobre as lâmpadas que já nem acendiam mais
Mas ainda assim iluminaram gerações
Nas paredes e chão para espantar o sombrio
Foram postas novas cores varridas as dores
Pintadas em demãos escondendo o passado
Avivando as conquistas e alegrias que ali existiram
Toda aquela cobertura
Assistiu o tempo passar calado
Que entrara e saiu pelas portas e janelas
Dias e noites a fio
Era uma casa perfeita
Onde donos e tudo o mais que ali fez morada
Espiara o tempo fora de lugar
A casa agora aguarda vazia e renovada
Outras historias colossais como
As que vivera quando abrigava um lar
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ALMAS
Que se desprendem das alças
Caem das arvores por ventos silenciosos
Quando esvoaçam no sono dos anjos
Ao derredor dos sonhos e nos nascem
Portanto ainda que reclamem
Toda morte é a insensatez desfeita
Redesenhando-se em escolhas
Nem sempre aceitas
Algumas suplantam os mármores e decompõem
Outras vicejam raízes satisfeitas
A minha alma tem vidas e delas se vale
Quanto ao corpo
É mínimo detalhe
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TANTO PRECISAM OS SERES
Para sobreviver:
Da piedade dos ventos
Da bondade das chuvas
Da generosidade do tempo
Entre as raízes e as sementes
Na intimidade do ar
Da total complacência das sombras
Do que antecede e o após a fartura
Da postura do sol e indisciplina das luas
Do cio das nuvens
Da gentileza dos rios
Da fertilidade e misericórdia da fome das feras
Do acaso da fauna e da flora no sono da terra
Para o bem viver
Tão pouco careceria o homem
Senão da própria consciência de ser
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O LÁBIO
Espontâneo e manso pela boca da noite
Era tão farto intenso e doce que o lábio que o lia
Achava merecia um cigarro e café
Em meio a fumaça sentindo a poesia
Entremeio aos versos tragando a bebida
Sorvia estrofes como se no amargo sonhasse
Sílabas acesas que no âmago sorria
E antevia em cinzas ardores a lhe arder
Oh poema por que vais atrevido
Num final de dia atordoar os sentidos
Bem sabeis das loucuras das tardes
Que se escondem nos lábios entre a língua e o dizer
Bem sabeis dos verbos pronomes sujeitos
Dos objetos singulares denominando quereres
Bem sabeis dos significados entre o intuito e a malícia
Das delícias e carícias das palavras moças
De quem delas atrevido te apossas por prazer
Certo poema saiu rasteiro arranjado e apressadinho
Insano por estar incompleto e ameno ao ser diverso
Enquanto o poeta declamava seu vinho sem saber
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SEMBLANTE
São tons diferentes de apelos nos olhos
Brilho difuso de luz em cristal transparente
Olhando de perto parece que os lábios tem gosto
Das cores dos ventos de inverno de agosto
Trocando preces e indulgentes lampejos de afetos
Insinuas ocultas vontades ardentes velados arpejos
Iludindo calmamente quem olha o desenho atraente
Da boca nos contornos de giz em leves movimentos
No entorno azul da face há disfarçados sorrisos breves
E tantos barcos varrendo soltos os traços que gostas
Carregados de axiomas de onde nascem precisos desejos
De resto tens na nudez do espelho a nitidez do semblante
E mesmo que a si negues ser infinitamente bela
É instintivo que sentes a exata certeza e noção do perfeito
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ESPELHO
Tem tons diferentes
Apelos nos olhos
Um brilho nos cílios
E luz transparente que gosto
Olhando de perto parece
Que os lábios tem cores e gosto
Dos ventos de inverno de agosto
Trocando preces ausentes
Por indulgentes lampejos
Insinua ocultas vontades
Ardentes arpejos velados
Iludindo calmamente quem olha
O desenho atraente da boca
Em contorno de giz de cera
No entorno azul da face
Há sorrisos disfarçados
E tantos barcos velando soltos
Carregados de axiomas
Onde o desejo nasce
De resto tens na nudez do espelho
A nitidez do semblante
E mesmo que negues estar linda
É instintivo que sentes
A certeza em ser perfeita
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Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
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