Escritas

Lista de Poemas

OCULTO

Sorri
Ou gargalhe se preferir
E que teu sorriso tenha qualquer cor ímpar
Aliás que irradie todas elas de forma contumaz
E assim e sempre que pudermos ouvir
Em qualquer distância do mundo
O gostoso zunir nos lábios do teu riso talvez oculto
Nos poremos mudos a te imaginar sorrir

E ainda que mostres detrás da brandura dos olhos alvos
Um olhar disperso ou aflito buscando lógicas
Tua face disfarçando tristezas como fossem vultos
Sorri
Desvestirás a integridade dos nossos lábios
E parva e viandante te fartarás em si

Teu rosto dar-se-á de enlace astuto
E ainda que a voz mascare na remissão do sentir
Revelarás o sentido manso do quanto é puro e nobre
O singelo fato de então sorrir

Sorri


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👁️ 120

MANIAS

Quando menino
Eu roubava os jardins nas primaveras
E distribuía rosas e mais rosas ornando janelas
Olhando feliz as surpresas nos vitrais

Pelos outonos colhia tangerinas
Dos galhos arcados
Sobre os muros dos quintais
E as entregava abertas aos pardais
Que saboreavam cada uma delas

Entre invernos entremeio a temporais
Eu surrupiava as madrugadas dos ventos
E contemplava os silêncios com cantigas singelas
Consolando as invisíveis estrelas
Que me aqueciam em tão ímpares momentos

E quando vinha o verão
Tomava os raiozinhos do sol que das ruas restavam
E iluminava as calçadas de todas elas
Para que as formigas passassem em procissão
Entremeio às roupas estendidas nos varais
E fossem solícitas entre as orquídeas descansar

Hoje me aproprio das palavras
Entre tolices e manias faço versos pra te dar
De qualquer forma passo a vida a poemar



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👁️ 133

LUGAR NENHUM

Aprendi a ir a lugar nenhum
Ainda assim fui rumando sem esboço
Como não fosse um paradoxo
Nem tivesse vindo do paraíso
Ou de alguma espécie de fosso
Presencio pelos cantos como posso

Sou molécula de agua ou sombra
Caminho andarilho trôpego
Sobre o belo e o destroço
E se porventura tropeço
Contorno ou supero
Jamais esmoreço ao entrevero
Ou torno-me robusto
Desmancho ou evaporo

Apenas diante de mim mesmo
Adoeço e apavoro
Porque por mais que me saiba
Mais e mais me desconheço





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👁️ 75

IMPRESCINDÍVEL

A poesia nem sempre acerta
Encontrar bons sentimentos
Entre razões transparentes
Por vezes a poesia é rude sagaz imprópria
E fere por não ser vil nem vilã
Nem conivente com quem a cria

No entanto aviva o espírito da busca
Nessa eterna procura
Faz-se irmã de quem a lê
Refugia-se no âmago da mente
A poesia é a incerteza da arte
E dela fatalmente se cura e apropria

Que dos sonhos nasçam poemas
Palavras que façam sentido aos ouvidos delirantes
Que dos lábios surjam palavras
Poemas imprescindíveis aos corações amantes
Que das faces reluzam escritas
Versos vivos complacentes entre olhares amigos
Que dos risos brotem versos
Escritas feitas do eterno fruto de vívidos instantes

Que a poesia nos dê as certezas da alma
Em detrimento à utopia


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👁️ 130

APÓS A PORTA OPACA

                 Paulo Sérgio Rosseto

Ali após a porta opaca e o escuro
Jorra um rio e na sua beira arde a sarça
E ouve-se um estalar de fogo silente
E o cantarolar da agua que vai resiliente
Banhar quem sabe o que se passa

A quem não sabe desconfia
Que dali soa algum silencioso hino
Imprudente por seguir sem rumo
No pátio arcado sob a abóboda do tempo
O curso do vento ácido e líquido

Quem lado a lado se põe a traspassar o átrio
Pressupõe-se manso porem assaz sábio
Para despojar dos falsos alaridos 
Reconhecer nas sombras a luz do outro lado
Lapidando as mesmas pedras no caminho

É um exercício árduo continuado
De água e fogo limpando nódoa e lodo
Das vestimentas da alma ante o inusitado
Das avarezas do espírito por ser tão frágil
A ponto de entender-se purificado

Aquele que esfoliar as mãos mas descalçar as luvas
Usar de aventais e ostentar as joias
Portar as ferramentas mas não suar a blusa
Deixar que a correnteza apague as chamas
Há de arejar de novo o seu próprio templo!

@psrosseto
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👁️ 91

REFLEXO

Tenho na moldura algumas possibilidades chulas
Outras avulsas óbvias de não terem acontecido
E algumas vazias que jamais puderam ter sido

Creio ter nascido de algum descuido destes
Pois me enxergo na paisagem que atenta
Vem sendo repetida no vidro de um mesmo espelho
Que apesar de frágil não se torna velha
Mesmo sendo mínima ainda está intensa
Densa em face ao que se encontra lícita
Possível por assim ser cíclica ainda que arrebente
Perpetuará teu riso de menina

Sei que em face ao tempo tudo é passageiro
Que o incrível surge sempre do repente
Por isso amo o nulo e o reflexo das coisas tolas
Em se mantendo livre o pensamento aberto
Talvez seja o segredo de uma imagem boa

Pouco importa se tudo acaba e morre
Quero um gole do teu beijo cor de uva crua
Ao molhar meus lábios no teu vinho puro
Terei sempre em mim teu olhar perplexo
Da certeza de que tua beleza perpetua


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👁️ 83

FIM

O dedo pressiona o pulso
Apalpa aonde a veia pulsa
Conta por batida multiplicada
Cada pancada que ausculta

Se pusesse força ouviria apupos
Estilhaços entupindo artérias
Fosse delicada sentiria os sussurros
Do sangue entremeio alvéolos
Discutindo brônquios
Consumindo as células
Irremediavelmente bêbadas
Largadas ao relento na areia

Bem entende da linguagem que circunda
Ligando os tímpanos ao estetoscópio
Fraseando arranjos alveolares
Nos trastes de uma viola enrustida
Rendendo-se a melodia do tempo gasta
De tanto afinar as cordas da vida

O dedo ainda sente impulso
Apalpa aonde a veia pulsa
Atento à batida replica
Cada pancada que perscruta

A cura assemelha-se a um circo
Cuja pele que recobre o corpo
É lona lisa úmida ao sereno
Prendendo artista e arte ante a pena
Pelos olhos do espetáculo rústico
Entre a dor e um delírio mútuo

O medo abandona o pulso
Já não apalpa a veia não pulsa
Não há batida nem mais nada
A vida enfim fora expulsa




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👁️ 95

AOS INTENSOS AMORES

Tenho mantido alguns intensos amores:
Às árias das flores e vinhos
Aos textos soberbos que sombreiam a alma e seus valores
Entre o sangue e os laços parentes
Por momentos da calma incontinente
Até mesmo pelas faltas da gente

Manter amores é arte que se espraia infinitamente
Pelos corredores donde o espírito encanta
Pelas singelezas em que a saudade se esconde
Disfarçada a espreita achando a felicidade de ser

Alguns amores nos pregam sustos e vão embora
Consomem até derreter os arredores das horas
E se fazem de tão íntima grandeza
Belos caminhos aos nossos perenes olhares
Atentos olhos que reluzem
A fartura que espuma e escancara nos seres

Sei que mereço manter esses avessos amores
Por isso vos amo às vezes




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👁️ 117

DESABRIGO

Eu desabrigo exposto ao frio
Os poros a carne os ossos
Fumo os afazeres secos escaldantes
Insuflo a umidade elegante dos ventos

Quisera dormir sem sono
Almoçar sem fome
Deixar de banho
Urinar contra a vontade
Fingir que descanso
Gozar sem alarde
Desregrar a rotina estafante
Desvencilhar dos costumes

De repente não quero nem mais ter nome
E sumir com as necessidades e sentimentos
Estirar às vísceras as apimentadas aventuras
 
Eu ando a esmo reeditando as loucuras



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👁️ 102

MESMICE

Novamente a lua dá seu ar da graça
Laranja aveludada no horizonte
Por mim eu desinventava as demais fases
Deixava esta em que surge imensa
Transtornada em poema todos os dias

Apesar da resiliência gosto muito da mesmice
Sempre vi no meu quintal os mesmos passarinhos
Ciscando como bem conhecessem a rotina
De que o entorno do tempo envelhece
No contorno e às voltas dos caminhos

O que nos alenta ou atormenta
A vida inventa entre as certezas do dilema
Vou sozinho dançar a valsa da noite
Com o melhor dos companheiros
Como sábio bailarino da melhor das companhias

Com alguns leves traços
Eu consigo desenhar você e até posso descrever a lua
Mas não faço inverso
Pois afeto é algo como casca polpa e semente
Pura cumplicidade para que algo novo
Brote e de novo se reinvente sozinho

Amor e lua são propriedades de outrem
Também minha e sua
De hoje ontem ou de ninguém feito um verso


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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!