Escritas

Lista de Poemas

ANSEIOS

Detrás da porta há uma casa inteira à espera
Como se os cômodos deixassem seus afazeres
E se aninhassem sobre as paredes debaixo das telhas
Para assistirem tua chegada depois de um dia ausente

A sala reconhece os teus passos tão mansos
O quarto aquece tua cama e o travesseiro
Da cozinha louças e talheres sobre a mesa acenam
Entre a fome intensa e o desejo do que vier primeiro

Tu passas entretanto levemente ocupando espaços
Desfazendo das roupas pelas pernas pelos braços
Livrando-se do que já lhe sucumbe ao cansaço

Apenas uma ideia fixa te desnuda o corpo inteiro
Que te abraça a alma perfuma e te acende anseios:
Perder-se em sonhos debaixo do chuveiro



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PELAS PALAVRAS

Falávamos de vinhos
E deu-se a penumbra
Porque advinha e vagarosa na excelsa hora
Veio a língua da noite ao esvair o dia

Falávamos de rótulos e rolhas e amenidades
Da graça das bolhas que dançam nas pirambeiras
Na borda das garrafas que embalam os cachos
Que riem enquanto os olhos tremem e viajam
Como se as mãos segurassem pela base
As finas taças dos cristais curvos que no após silenciam

Assim falamos de vinhos entremeio aos fachos
E de qualquer rua nos vinha o frescor das vinhas
Brilhando silhuetas entre as parreiras e a poesia
Da vivacidade das uvas desde a Cicília à Bahia
Do doce recheio da pele entre a carne e a semente
Do cheiro indecente da chuva que impõe acidez a terra
E me põe bobo e ébrio enquanto tua face acalma e gira

Já não posso com as palavras elas andam o mundo
Nelas a minha alma fala esvoaça flana flutua
Nem sei beber sem brindar-te e à lua


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SONHOS

Não há sonho ao acaso e caso sonhe
Deixe que o sono te arrebanhe de realidades
Enquanto voa teu imaginário
Segue dormindo entre os teus cabelos soltos
No macio travesseiro que te apara a alma
Sobre a fronha branca dos desejos
Instigando as tuas vontades

Sonos e sonhos nada mais são senão acordes
Desta cantata que orquestra teu inconsciente
Ainda que acordada sonhes com o pressuposto
Supostamente estarão em ti todas as formas
Inclusive o que em ti deveras possa estar ausente

Sorria por saber que sonhara
E ao lembrar-se do sonho que te ateve
Ria impetuosa no contentamento
De contar a quem te encontrar sorridente
O quanto prazeroso essa magia fora

Depois na solidão das tuas horas
Reescreve as inquietudes que te farfalham
E se alguma saudade te omite as vertentes
Mesmo que a teimosa realidade te silencie
Acorda e segue altiva sonhando vida afora


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👁️ 83

REENCONTRO (ao pé do OT)

Vestidos dos melhores sorrisos
E adornados por altivos olhares
Viemos e houve abraços

Chegamos trazendo lembranças nos passos
Nas mãos e no silêncio entre as conversas

Às avessas o tempo ali não havia estado
Ele apenas permanecera em desenho
Como perduram os laços
Que se refazem nos reencontros cruzados
Até percebêssemos estávamos prontos
Antes que fôssemos para algum lado

Nossas nuas faces mostravam
Que a brisa mistura os perfumes
Que os lábios unificam sabores
E as razões se perdem de amores
Sem importar-se por onde andamos
Para outros tantos que adviriam
 
Nossas horas passaram afoitas
E ríamos todos enquanto iam
Porque assim a vida é feita


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REPÚBLICA

Quando a minha língua te proclama
Não sou eu quem te anuncia
E sim meu ser que se descreve 
Liberto de costumes 
Farto de ansiedades por te buscar

Disseram-me que fosseis o caminho
Desde então sou peregrino
A minha mão livre escolhe linhas
Escreve por onde deve andar

Ainda que uma palavra maldiga
Toda vez que te pronuncia
Pela soberania da alma e da gente
Clama-te uma certeza

Em cada estrada e por toda esquina
Onde existir posta a tua mesa
Há de haver nosso lugar



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👁️ 114

GAL ENLUARADA

Por ela enamorando a cidade
Aguardava-a de garrafa aberta 
Descalça na calçada da rua
Surgir na janela da esquina 

Trazia perfumes de nuvens
Entre as melodias do vento
Voraz cheiro de maresia
Enquanto a maré insensata
Travessa revolta inconstante
Vazava e a seu tempo subia

Davam-me nós de tempestade
Destes que suplicam por colo
Onde os raios fugidios
Estrondam e se jogam ao solo
Feito birrenta menina 
Trinando por pura arredia

E após os agueiros rebeldes
Em horas incertas das noites
Sedutora acesa ela vinha
Revestida de penumbra e sorte
Banhar-se inteira em meu vinho
Enquanto a cidade dormia

E de novo ao encher minha taça 
Sua voz será sempre um abrigo 
Tombando de ansiedade e graça
Enluarada se deita comigo


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👁️ 113

FÁBULA

Ardido do sol
O menino pergunta a seu mestre
A razão dessa alva espuma
Retrair-se quieta e serena
Sem dizer para a próxima vaga
Cuja onda virá zombeteira
Que ao lamber o lábio da orla
Sentirá na garganta e na língua 
Um mesmo gosto de sal

O poeta então pede ao moço
Que não ouça as firulas do mar
Quando atira em ondas revoltas
Suas sobras sobre a areia indefesa

O mar também é mera presa
Das correntes que os ventos lhe movem
Da lua que suplicia as marés
Na ilusão de crescer e vazar

Sobe pois tua escada aguardada
Deixa aquietarem-se as tuas águas
Segue e quando se ver lá do alto
Talvez poderás compreender
Que espumas ondas e vagas
Nada são senão as arestas do tempo
Empreendendo razões para amar



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ESSE OUTRO CANTO

Os berros do poder vão silenciando
Zunindo mais abaixo enquanto o soluço passa
As línguas desinflamando no lamber dos dentes
Os lábios contem escapar os hálitos imprudentes

Os módulos mastigando números involuntariamente
Ainda remoem e respingam e babam na grama verde
Porquanto quem dormia espreguiça e desamarra
As vozes ficam amenas no passar das horas

Talvez rearmem e uma ou outra rês desgarre
Mas a aurora traz de volta o perfume da democracia
Quem sabe a nação se torne mais país um dia 

É preciso matar a fome e saciar a sede
Por isso é que esse outro canto renovando entoa 
Aquilo que o sonho de um novo tempo pede



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TEU PERFUME

Teu perfume te faz redoma
Baila em teu entorno delicadamente
Sai à tua frente volátil enunciando teus passos

Perde-se intenso pelos rastros
Reflui onde flutuam os pássaros
Caminha ao que teu pensar esvai
Brinda secreto aveludando as cores
Decifra-te a quem te ver passar

Teu perfume te põe perfeita
Ele se deita e faz de cama teu altar
Descola-se do teu colo em suavidades tantas
Íntimas cheirosas faces quando espalha pétalas
Pela pele entre o pelo e o poro a te arrepiar

Teu perfume aporta-se sem tomar formas
Em rimas soltas porém nada santas
E o tempo louco roubando-te os cheiros 
Guarda-te em tão frágeis frascos feito poemas 
Tua poesia farta a me perfumar
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TRANSPARENTE

Ela veste branco o encanto
Num dia comum de primavera
Quando vão ao mar todos os barcos

Ela veste branco gelo em neve
Enquanto deixa que a espuma enlace
Na bainha de suas vestes e alinhave

Ela veste branco o contorno magenta
Porque sabe que a alva nuvem
Inveja de brandura a sua vestimenta

Sequer um dia não houvera
Em que branco ela vestisse um pigmento
Sem turvar de claro o transparente

Ela sabe dos ardores da agulha
Que cose o manto de seu vestido branco
E de onde o fio da fina linha lhe advém

Só eu não sei do que me experimenta
Revoar seus brancos é despir meus panos
Como não houvesse mais cores nem ninguém



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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!