Lista de Poemas
Escuna
Terza rima, inspirada no curta de animação "Bottle", de Kirsten Lepore
Havia o grande mar entre nós dois,
também havia o amor e seus mistérios;
um mar imenso, vasto e forte, pois...
Havia a diferença de hemisférios
e toda a solidão dessa lacuna;
a dor da ausência e vários medos sérios.
Mas, bem na praia, erguia-se uma duna
e, dela se avistava, no horizonte,
as velas promissoras de uma escuna.
Acima da distância, havia a ponte.
Nilza Azz
👁️ 45
A fita
Puseste bela fita no cabelo,
rosada, contra o negro dos teus cachos...
Depois, tu desdenhaste o meu desvelo:
– Menina, de mim fazes o diacho!
Então foi tudo fita e atropelo,
viraste, de cabeça para baixo,
as pontas dessas fitas. Que novelo!
No meio dessas fitas não relaxo...
E desse olhar maroto que me fita,
entendo que me amarras com teu jeito.
E fazes o que fazes tão direito,
que já não sei se a tira delicada
atrai o meu olhar, ou se é cilada
a fita que te torna mais bonita.
Nilza Azzi
👁️ 259
Da tristeza
Tenho uma dor, antiga como a vida,
se tem um nome, deve ser Tristeza.
Já vim ao mundo, dela acometida,
antes que a minha alma fosse acesa.
Para deixar de estar assim perdida,
na solidão, em meio às incertezas,
fiz contra a deusa súbita investida:
– Tornei-me alegre (estúpida proeza!).
E nesta vida, onde há pouco e tanto,
de uma alegria que persiste breve,
de uma tristeza que nunca prescreve,
a alegria envolve-me à vontade,
mas é tristeza o que da alma evade
e vem amalgamar-se ao meu espanto.
Nilza Azzi
👁️ 168
Marina
Senti como se o céu de azul intenso
conversasse comigo e, confidente,
soubesse dos detalhes do que penso,
do turbilhão que habita minha mente.
À mão, em tal lugar, sequer um lenço,
para salvar os olhos de uma enchente.
Na busca de aplacar o gesto tenso,
simulo o olhar vazio, num ponto ausente.
Nenhuma nuvem mancha o céu e a vida
emerge da paisagem colorida,
que some no horizonte, junto ao mar.
Contudo exista calma no ambiente,
a dor não me abandona e, sutilmente,
em ondas vai doendo devagar...
Nilza Azzi
👁️ 491
Tempestade
O mar bramia em fúria; em todo lado,
o vento levantava a areia fina...
Um ar, perdido em bruma, esbranquiçado,
como se a hora fosse vespertina,
o céu pesado em cinza (que pecado!)
a chuva a fustigar uma ruína.
E veio a tempestade, força viva,
varreu a praia inteira e, foi embora.
Depois o sol ressurge e o dia aviva
as luzes do nascente e faz-se aurora!
Nilza Azzi
👁️ 492
Esperanças
Navega um veleiro, por rumos incertos,
em busca de praias selvagens, tranquilas,
perdidas nas ilhas, bem longe das vilas,
nas águas azuis desses mares desertos,
ausente, o sinal de que tempo encoberto
prometa a beleza do dia toldar.
As aves em bando desenham no ar
sinais sinuosos tão cheios de graça
e conchas e pedras, que a água entrelaça ,
faíscam na areia do fundo do mar.
Sem rota traçada, ao sabor das correntes,
entrega sem medo o caminho a seguir,
e vive o momento, sem qualquer porvir.
Por mares bravios, mais do que transparentes,
já foi seu percurso, ao sol mais ardente,
sem muita esperança de um porto alcançar,
a indiferença das águas sulcar,
até que, cansado de tantos naufrágios,
ousou desdenhar todo e qualquer presságio
e quis saber mais dos encantos do mar.
Assim somos nós! Com os nossos talentos
e, sem descansar, nós seguimos adiante,
entre ondas e vagas da vida inconstante.
Nascidos, já somos expostos ao tempo,
num mundo difícil, assaz violento,
buscamos, sem trégua, a alma aplicar
à vida empenhada no ato de amar...
Quem dera uma ilha de Paz nos aguarde
e ali nos acolha, antes que seja tarde,
o Amor, a galope, na beira do mar!
Nilza Azzi (10/05/2019)
em busca de praias selvagens, tranquilas,
perdidas nas ilhas, bem longe das vilas,
nas águas azuis desses mares desertos,
ausente, o sinal de que tempo encoberto
prometa a beleza do dia toldar.
As aves em bando desenham no ar
sinais sinuosos tão cheios de graça
e conchas e pedras, que a água entrelaça ,
faíscam na areia do fundo do mar.
Sem rota traçada, ao sabor das correntes,
entrega sem medo o caminho a seguir,
e vive o momento, sem qualquer porvir.
Por mares bravios, mais do que transparentes,
já foi seu percurso, ao sol mais ardente,
sem muita esperança de um porto alcançar,
a indiferença das águas sulcar,
até que, cansado de tantos naufrágios,
ousou desdenhar todo e qualquer presságio
e quis saber mais dos encantos do mar.
Assim somos nós! Com os nossos talentos
e, sem descansar, nós seguimos adiante,
entre ondas e vagas da vida inconstante.
Nascidos, já somos expostos ao tempo,
num mundo difícil, assaz violento,
buscamos, sem trégua, a alma aplicar
à vida empenhada no ato de amar...
Quem dera uma ilha de Paz nos aguarde
e ali nos acolha, antes que seja tarde,
o Amor, a galope, na beira do mar!
Nilza Azzi (10/05/2019)
👁️ 37
Infinito
Esse engenho que roda enquanto gira
e, ao girar, faz rodar tudo ao redor,
e carrega no centro o rei maior,
queima sempre e sem fim, a imensa pira.
Esse fogo sustém um pormenor,
é uma força infinita e nunca expira,
entrelaça nas alças de safira,
a existência do grande e do menor.
Entre os sóis que constelam seu trajeto
e as esferas, de suma quididade,
em si mesmo, ei-lo único e completo...
Infinito, do qual nada se evade,
guarda tudo o que há de mais secreto,
vai e vem, detentor que é da Vontade!
Nilza Azzi
👁️ 170
Apagam-se as luzes
Medrava, entre as pedras, a gramínea,
rasteira, mas constante em seu crescer;
bem forte, não importa, curvilínea,
seguisse sua trilha a se estender.
Sabia que no a, havia a alínea;
fugia com horror da alínea b...
Conquanto se notasse consanguínea,
queria a complacência de quem lê!
Por falta de tesoura, extrapolou,
criou belo tapete, o tal gramado,
e tudo se tornou, sem mais, informe.
Ao pé da letra, não se fez um gol,
nem mesmo um escanteio foi marcado.
Alguém trocou a placa e o campo dorme...
Nilza Azzi
👁️ 158
Requerer
Entre infinitas formas de querer,
este querer me escolhe, sem que eu queira,
como se fosse dono do meu ser,
sem pejo, diz que é só uma brincadeira...
Que não me preocupe com sofrer,
nenhum dos sofrimentos vem na esteira,
das mais perfeitas fontes do prazer,
quando o prazer é coisa corriqueira.
Mas como confiar num inimigo,
alguém que já se sabe é fraudulento?
A entrega que me pede não consigo!
Não quero mais a dor, isso eu lamento.
A falta de anuência, em que me estribo,
conduz ao ponto do indeferimento.
Nilza Azzi
👁️ 31
Fantasia
Ouvindo um bolero, lembrei de você,
daquela semana passada na praia.
Dos nossos passeios, na luz que desmaia,
ao bulício das ondas, decerto porque,
da grande janela daquele ateliê,
– tão perto ele estava – que ouvia-se (o mar),
com seu vai e vem, a canção entoar...
De nós abraçados, em frente à janela,
ouvindo um bolero, a canção tão singela,
os olhos nos olhos e o cheiro do mar.
E tal era a força daquele momento,
(os beijos e afagos geravam calor),
tornando possível a ausência supor,
nos corpos unidos, de comedimento.
A música traz essa imagem que eu tento,
no meu coração, com vigor aclarar,
tornar mais real essa tela sem par.
E doce era a dança que nós dois dançamos,
bem perto de nós, os lilases, seus ramos,
naquele terraço na beira do mar.
Nilza Azzi
👁️ 20
Comentários (4)
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petrillipoesia
2020-03-23
Belos sonetos!
sergios
2020-01-23
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
filipemalaia
2019-12-31
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
2019-08-02
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!
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