Escritas

Lista de Poemas

A espera

“Esperando parada, pregada, na pedra do porto...”
(Chico Buarque)

Não era pedra, nem porto, e sim um portão,
onde eu a via, ao fim da tarde, às quatro e meia!
Se o coração de quem espera muito anseia,
dizem que ao dela coube amar a solidão.

Mas se o desejo traz no bojo um sonho vão,
ali parada tinha um ar que já permeia
quem alegria só conhece em face alheia
e tem no mundo a mais tristonha condição.

A luz dançante ao longe esquálida esmaece:
– Se em desespero eterno envia aos céus a prece,
é seu segredo e, assim, jamais eu saberia.

Guardo, porém, comigo a imagem vespertina:
–  Será que a noite encobre as dores desse dia,
enquanto as moiras vão votar-lhe a mesma sina?


Nilza Azzi  
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A dança do amor

“As long as I'm with you, our hearts
will make the music our souls will dance to… “
(E. H.)

Na esfera azul além dos cantos da galáxia,
estamos todos nós, em pontos diferentes,
ora ao norte, ora ao sul, pequenos, meros entes,
em busca de aprender a usar a nossa audácia.

Assim, desde o começo, os vários dons presentes 
que incitam a enfrentar a dúvida opiácea,
a desvendar a lei com garra e pertinácia,
também nos fazem crer que amor é um acidente.

Mas pode ser que seja, o amor, algo além disso,
que nutre e faz crescer a alma e lhe dá viço;
a força colossal, que existe além de nós...

A nítida expressão e a verdadeira voz,
o sonho e a melodia, a sugerir a dança 
que ao fim irá juntar o bem que lhe afiança.

Nilza Azzi
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Degredo


Vejo a Lua surgir no céu mais cedo;
Vênus segue de perto o seu trajeto...
– Dos amores que amei, um predileto,
foi o teu.  A verdade a ti concedo!

Uma estrela cintila em seu degredo,
mas aos astros não faço o menor veto;
seja o arco do céu oblongo ou reto,
cabe à alma, a repulsa ao corpo ledo.

Esse lar tão distante, além,  sidéreo,
guarda longe de mim toda ventura
e conserva a incerteza do mistério.

Na abismal nebulosa, a cor escura...
Cupido escolhe o dardo e, pois, desfere-o.
– Tenho o chão sob os pés – a dor perdura!

Nilza Azzi
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Ausência


De ti não me restou palavra alguma,
história, ou mesmo ação benevolente;
não guardo tua imagem no presente.
Nenhuma frase expressa coaduna

a forma sem contexto, irreverente,
da fala a desfazer-se, qual espuma
− quem vive de mentiras se acostuma,
ao ponto, em que até a verdade mente.

E vivo num deserto ardente, seco,
com noites em que cai além de zero
o grau da solidão, justo no beco;

o ponto do discurso mais austero,
o falso adjetivo, o verbo peco,
o som que já não ouço e ainda quero.

Nilza Azzi

 

Nilza Azzi
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Luzes vacilantes


Estava o Sol atrás das nuvens escondido,
enquanto a noite além dos montes ia embora...
Iria o dia enfim surgir a qualquer hora,
trazendo a luz e o afã das aves – o alarido!

Estava a Lua, após a noite, mais senhora
dos céus azuis, porque de mim só tem ouvido
o suspirar que vem de um sonho colorido,
em que reverberou a tua voz sonora.

O espaço que mantém a Lua e o Sol distantes
– o mesmo em que a voar, a mente te procura –
conserva-me à mercê do que não sonhei antes...

E sobra então o dom, amada criatura,
de conhecer tão bem as luzes vacilantes,
as variações gentis – do amor, a voz mais pura.

Nilza Azzi

 
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Cogito


Veio a Lua ao meu quintal,
enquanto o Sol foi dormir...
Viu meus sonhos no varal
e, de mim, pôs-se a sorrir:

― O que fazem, pendurados,
os teus sonhos ao sereno?
―Quero tê-los orvalhados,
todos livres de veneno.

― Que venenos podem ter,
os sonhos de um sonhador?
― A ilusão que faz sofrer
e pode matar o amor!

Nilza Azzi
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Carnaval


Há duas direções no meu caminho
–  em pleno carnaval tudo é excesso –
porém , diante do mundo, não confesso
o quanto este folguedo me é daninho.

Em meio à multidão, em seu recesso,
cansado, o coração bate sozinho
e nada, nesse intenso burburinho,
afasta a confusão na qual tropeço.

Por que é tão dorido ver-me assim,
perdida nesse brilho tão escasso?
Talvez porque o salão olha pra mim,

mas quando olho no espelho, me desfaço,
se deste lado enxergo um arlequim,
do outro –  a gargalhar –  vejo o palhaço.

Nilza Azzi
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Quem foi?


Sobre o leito, os lençóis imaculados,
brancos, pétalas do mais claro linho,
pontas dobradas em ambos os lados;
clara, uma previsão de desalinho.

Salvos da mácula, eu os quis, caiados,
e semeei de flores teu caminho...
Na cabeceira, óleos para agrados,
sinais de meu fervor, escolho e alinho.

Amanheceu, depois de outra manhã,
na alcova resta uma brancura vã,
um branco intenso, estranho ao ambiente.

Resta o tecido, amontoado, à beira
do contraste entre o ébano e a madeira,
e vejo ao teu redor, alvor somente. 

Nilza Azzi
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Visita


Quando, nas madrugadas, o silêncio
da minha sala enche o espaço mudo,
do céu escuro, dos confins extensos,
surgem fantasmas, sombras de veludo,
a evolar-se pelo ar, como os incensos.

A forma transparente envolve tudo
num halo triste; cobre o mundo denso.

Seria a poesia quem visita,
vestida de mistérios, de segredos,
a solidão eterna da alma aflita?

Tão doce, faz brilhar meus olhos quedos,
a sílfide atraente, assim bendita,
que afasta para longe os velhos medos
e traz a inspiração, e eleva, e agita...

Temente de que o dia a leve embora,
fecho as janelas, logo apago a luz,
cerro meus olhos, repudio a aurora,
pois a visão da deusa me seduz.

Busco a palavra, pois ela me escora;
à  sua bênção quero fazer jus
e escrevo versos, como o faço agora.

Nilza Azzi
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Dores de amor


Por medo desse amor, senti-me ao desamparo
e duvidei de mim, das bênçãos e das graças.
Olhei ao meu redor; com mostras tão esparsas,
soprei ao coração: – O amor nunca foi claro!

Nos tempos de paixão, há pares pelas praças
e, em noites de luar, em meio ao brilho raro,
insetos a voar, aos sonhos meus, comparo:
– Anseiam pela luz que, as asas, despedaça...

Existem mais confins, nos campos, vastos, ermos,
do espaço de aflição de quem se fez cativo,
do que na solidão do leito dos enfermos.

Quem ama sabe disso: – o amor, fogo abrasivo,
anula a nossa força; impõe os próprios termos
e traz, sem livre escolha, a dor sem lenitivo.

Nilza Azzi

 
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!