Escritas

Lista de Poemas

Morreres


Se eu tiver que morrer ao meio-dia,
que o sol se esconda e a chuva seja fria
e que eu vá jazer longe daqui,
no mar azul, que há muito eu escolhi.

E assim meu pó não saiba mais quem é,
se areia, sal, se espuma ou mesmo até
alguma conta, em que participei
da formação da esfera, branca ou grei.

Se eu tiver que morrer à meia-noite,
que o vento encrespe e forte seja o açoite
das ondas, sobre as rochas das falésias...

E as minhas poucas cinzas, ele asperge-as,
o mar revolto, a um céu indiferente,
na cor banal de um último poente...

Nilza Azzi

 
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Maria


Voltando à casa vazia,  
nos ombros a alma torta,  
fatigava-se Maria,  
triste e só, sem esperança...  

Fosse noite ou fosse dia, 
palmilhava a mesma estrada. 
Pobre moça, saberia 
que o mundo é velho e sem fim?

Nilza Azzi



 
 
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O vento e a noite


É noite no deserto, a areia dorme fria,
as sombras do luar escorrem pelas dunas,
a brisa vai soprando os grãos em tal quantia,
que a forma do lugar com nada se coaduna.
 
A abóbada celeste é bela e contraria
a enorme solidão e a sensação diurna
do sol, cuja inclemência e falta de empatia
são mais que uma ameaça e a vida, uma lacuna.
 
E o vento que segreda aos grãos, em tom suave,
respostas que roubou das asas de uma ave,
refresca ainda mais a senda e o viajante
 
nem chega a conceber, no entorno delirante,
o quanto o tal segredo o livra do perigo
e, em triste confusão, conversa, a sós, consigo.

Nilza Azzi
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Garoa


Esse frio desde cedo, desde ontem, 
desde sempre... gela os ossos a doer.
O cinza por sobre o sol,
neblina constante e densa,
a cidade encantada, adormecida,
desabitada de vida aparente.

Névoas correm com o vento,trocam de lugar,
mas não se dispersam, em seu passeio
sobre os contornos difusos de uma ou outra cor,
mas logo retorna o mundo oculto,
que à visão desconforta,
quase desolação.

Adivinha-se em segredo, 
cada vida ali presente, 
resguardada pela névoa.

Gotas delicadas, pequenas
carícias leves, geladas,
descem suavemente do céu.

Nilza Azzi
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Contrassenso


E te contar que eu já te amei
embora o amor tão silencioso
antecedesse em seu começo
ao que o destino a mim dispôs

tornasse fato o meu tormento
visto que amor é contrassenso

... e te contar que um arrepio
ainda vive sobre os poros
da alma inteira em seu vazio

como se fosse indiferente
ao coração o que ele sente.

Nilza Azzi
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Quase



Eras de quase certezas  
espantos e sabores  
e falta de intenção

Eras ombro e colo
festa e arrebatamento  
antes do vazio

Heras pelos muros  
a repetir auroras  
como se quase fossem  

Nilza Azzi
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Reverso


Como ela pode assim ignorar-me,
não perceber do quanto sou capaz
e resistir à força do meu charme?
Essa mulher tem muito orgulho, mas

antes que note, ou que dispare o alarme,
conhecerá a dor, não terá paz.
Mesmo que um dia venha a odiar-me,
irei em frente, sem voltar atrás.

Toda vingança é doce e eu sei disso;
que pouco a pouco ela perca o viço
e, já sem forças, dobre-se a meus pés...

E assim que a vir, vencida e submissa,
serei senhor de todas as delícias,
ao lhe dizer enfim: − Tu nada és!


Nilza Azzi
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Órfã


Hoje o mundo jaz, de um modo tão pequeno,
que eu me vejo só, em meu jardim secreto.
Sei, de pai e mãe, o que é perder o afeto;
sei o que é um adeus – quisera sofrer menos!

Herdo esta ilusão de um ninho mais seleto,
pleno de prazer, tão cálido e sereno,
que não sei viver distante desse reino.
Faço a minha lei; governo por decreto.

Meu casulo, enfim, é o berço em que, dormente,
tenho em minhas mãos o sonho da semente
e meu coração, que desconhece o medo,

segue a procurar a terra prometida.
Ao que chegue a vez, escolho uma saída:
– tens, ó solidão, um gosto amargo e azedo.

Nilza Azzi
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Paz aos homens


Ah, se fosse Natal naquela estrela,
a estrela fria, azul, a mais brilhante,
onde a paz fulgisse sempre adiante,
sem precisar de heróis a defendê-la.

Se a cada novo ano, a cada instante,
já não houvesse  formas de detê-la
e explodisse em inúmeras centelhas,
a luz daquele Amor reconfortante...

Dela eu queria apenas um reflexo,
para espalhar em volta o mais perplexo
dos meus olhares sempre atordoados,

qual fosse um raio em vara de condão
a derramar nos tempos que virão,
a paz aos homens, todos, de bom grado.

Nilza Azzi
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Fracasso


Eu já não tenho um coração comigo:
faz muito tempo que ele foi embora.
No seu lugar, tudo que vejo agora
é uma ausência cheia de perigos.
Houvesse a alma e eu não a teria,
porque perdida estive para tudo
e só herdei este silêncio mudo.
– Sou uma sombra estúpida e vazia
e na ilusão de ser o que não sou
sobra uma vida que não há em mim...
Vida sem rumo, que não chega ao fim,
mas que tampouco se concretizou.

Sem coração, não sei compor um verso,
sem alma, então, o sonho é mais perverso.

Nilza Azzi

 
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!