Lista de Poemas
O pingo
O pingo estava perdido.
não sabia por onde andava
aquela letra anoréxica...
Ela era a única junto da qual
a própria existência esférica
fazia sentido.
Nilza Azzi
👁️ 204
Passageira
Notei um esquilo, correndo na mata,
a cauda curvada, num 'esse' preciso.
O olhar muito vivo redondo arrebata.
Nos verdes do bosque, mal via seu piso.
Subiu na nogueira e, uma noz entre as patas,
passou a comer, sem sinal nem aviso...
A vida ao redor, descansava pacata,
os galhos dançavam ao vento indeciso.
Assim a paixão, emoção passageira,
é cena fugaz na paisagem da vida,
um parco alimento das nossas vontades
e marca perene da dor tão primeira.
A força mais forte, no tempo esquecida,
fatal ilusão, que nos mata e se evade.
Nilza Azzi
👁️ 24
Pensamentos de Deus
A inspiração da Mente universal
recolhe e agrega todo ser vivente
e no sono de Brahma, bem e mal
desaparecem, dentro da semente.
Adormecida, a vida segue igual,
até que o deus, diante da serpente
que engole a cauda, ação fundamental,
reage e expira tudo novamente.
E quando o Verbo determina aos Devas,
que da matéria, a essência mais primeva
deve compor mais uma Ronda, então
o Criador conforma em pensamento
a todos nós, assim nos dando alento,
e nos transporta além da escuridão.
Nilza Azzi
👁️ 175
Temporal
Nuvens grossas cinzentas
poeira no ar e ciscos
o vento levanta
O ar abafado pesa
o céu caminha até mim
mais e mais baixo
Ouço o farfalhar das folhas,
ecos de sons desastrosos
as aves já se esconderam
chega a escuridão
O vento aperta o passo
aproxima-se o som dos trovões
procuro um abrigo
resta-me pouco tempo
Nilza Azzi
👁️ 56
Carência
Jamais tu saberás que sinto amor.
Talvez eu saiba disfarçar a minha insensatez.
Escondo o meu rubor e falo de outro assunto,
ou olho para o céu, enquanto as mãos ajunto.
Anseio por saber, mas calo e não pergunto
o que sentes por mim, desde a primeira vez.
O sonho que vivi, embora foi contigo.
Porém se fui feliz, hoje nem sei se ligo...
Vazio me restou o coração, amigo,
e vivo sem querer, num mundo sem porquês.
Nilza Azzi
👁️ 170
Ponto de fuga
No infinito a convergência
a inocência de um olhar
um mar de céu e de luz
uma única aquarela
Como é bela a emoção
dos matizes sobre a tela
e nos traços dos pincéis
velhos réis por mim reinaram
(contudo, no grão de areia, o Aleph se desdobra)
Nilza Azzi
👁️ 175
Prece
Leva, além da luz que envolve a alma,
passos que deixei atrás de mim;
leva embora a dor que não se acalma,
tudo que há de falso ou de ruim.
Leva a sensação de incompletude
toda incompreensão e crueldade,
leva a solidão, pois amiúde
ela se aproxima e não se evade.
Deixa apenas força, por favor,
o suficiente para ir adiante.
Deixa o sonho vivo, bom Pastor,
abençoa a ovelha vacilante.
Quando o dia finda e anoitece,
leve o vento, a Ti, a minha prece!
Nilza Azzi
👁️ 34
Se
Se, quando eu amei, venceu-me o susto,
foi no teu olhar que eu me perdi,
tal se não vivesse mais aqui,
mas na sombra do teu corpo augusto,
tal se o céu se achasse bem ali,
naquele teu abraço em que me ajusto.
Nilza Azzi
👁️ 28
Id
De onde sairão os pensamentos fortes
que vencerão as mortes além da lousa fria
se as luas derrubadas nas montanhas
não mais terão o encanto
da perene luz vadia?
Dos velhos lobos que uivavam nas campinas
já não ressoam mais as vozes estranhas.
Das formas tamanhas e espectrais
os muitos barcos no cais
restarão apenas sombras inofensivas
e a lembrança enevoada das gradivas
fenecerá com seu último espanto.
Se não chega para tanto, a primavera desistiu talvez...
Entre os absurdos e as auroras existiria um mundo, ou sonhei?
Se não há lei que torne a realidade menos cruel
desisto de esperar, deponho a pena.
Deuses dos desertos visitados
falam dos pecados e fujo em pânico.
Sem céu a clarear-me a nova estrada
a equivocada estrela no horizonte
some sem que aponte campos verdes ou florestas
e as pequenas flores da giestas caem ao chão sem sentido
sem mesmo aspirar-lhes o perfume
qualquer criatura mais sensível.
Debruço-me sobre o precipício das vaidades
e a vertigem atinge onde me alcança.
Perdeu-se uma criança que já não tinha medo
e a experiência de morrer apenas começou...
Nilza Azzi
que vencerão as mortes além da lousa fria
se as luas derrubadas nas montanhas
não mais terão o encanto
da perene luz vadia?
Dos velhos lobos que uivavam nas campinas
já não ressoam mais as vozes estranhas.
Das formas tamanhas e espectrais
os muitos barcos no cais
restarão apenas sombras inofensivas
e a lembrança enevoada das gradivas
fenecerá com seu último espanto.
Se não chega para tanto, a primavera desistiu talvez...
Entre os absurdos e as auroras existiria um mundo, ou sonhei?
Se não há lei que torne a realidade menos cruel
desisto de esperar, deponho a pena.
Deuses dos desertos visitados
falam dos pecados e fujo em pânico.
Sem céu a clarear-me a nova estrada
a equivocada estrela no horizonte
some sem que aponte campos verdes ou florestas
e as pequenas flores da giestas caem ao chão sem sentido
sem mesmo aspirar-lhes o perfume
qualquer criatura mais sensível.
Debruço-me sobre o precipício das vaidades
e a vertigem atinge onde me alcança.
Perdeu-se uma criança que já não tinha medo
e a experiência de morrer apenas começou...
Nilza Azzi
👁️ 61
Ribalta
Pobre alma que vagueia sem roteiro,
sem parceiro para ser seu ombro amigo,
traz consigo a solidão mais descabida
e duvida das trapaças do destino...
Os fantasmas vislumbrados vão velozes;
não há vozes que lhe sejam familiares
e os pesares, que carrega sobre os ombros,
são assombros já sem peso, são deslizes.
Não me avise destas ruas sem saída,
nem tolhida, seja a escolha que professo,
pois o excesso de opressão deixou-me louco!
Faço pouco, mas coloco o ser completo,
no trajeto por cumprir que ainda me falta
e a ribalta acolhe o público mais nobre.
Nilza Azzi
👁️ 186
Comentários (4)
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petrillipoesia
2020-03-23
Belos sonetos!
sergios
2020-01-23
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
filipemalaia
2019-12-31
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
2019-08-02
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!
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