Escritas

Lista de Poemas

O pingo


O pingo estava perdido.
não sabia por onde andava
aquela letra anoréxica...

Ela era a única junto da qual
a própria existência esférica
fazia sentido.

Nilza Azzi
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Passageira


Notei um esquilo, correndo na mata,
a cauda curvada, num 'esse' preciso.
O olhar muito vivo redondo arrebata.
Nos verdes do bosque, mal via seu piso.

Subiu na nogueira e, uma noz entre as patas,
passou a comer, sem sinal nem aviso...
A vida ao redor, descansava pacata,
os galhos dançavam ao vento indeciso.

Assim a paixão, emoção passageira,
é cena fugaz na paisagem da vida,
um parco alimento das nossas vontades

e marca perene da dor tão primeira.
A força mais forte, no tempo esquecida,
fatal ilusão, que nos mata e se evade.

Nilza Azzi

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Pensamentos de Deus


A inspiração da Mente universal
recolhe e agrega todo ser vivente
e no sono de Brahma, bem e mal
desaparecem,  dentro da semente.

Adormecida, a vida segue igual,
até que o deus, diante da serpente
que engole a cauda, ação fundamental,
reage e expira tudo novamente.

E quando o Verbo determina aos Devas,
que da matéria, a essência mais primeva
deve compor mais uma Ronda, então

o Criador conforma em pensamento
a todos nós, assim nos dando alento,
e nos transporta além da escuridão.

Nilza Azzi
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Temporal


Nuvens grossas cinzentas
poeira no ar e ciscos
o vento levanta

O ar abafado pesa
o céu caminha até mim
mais e mais baixo

Ouço o farfalhar das folhas,
ecos de sons desastrosos 
as aves já se esconderam
chega a escuridão 

O vento aperta o passo
aproxima-se o som dos trovões
procuro um abrigo 
resta-me pouco tempo

Nilza Azzi
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Carência


Jamais tu saberás que sinto amor.
Talvez eu saiba disfarçar a minha insensatez.

Escondo o meu rubor e falo de outro assunto,
ou olho para o céu, enquanto as mãos ajunto.
Anseio por saber, mas calo e não pergunto
o que sentes por mim, desde a primeira vez.

O sonho que vivi, embora foi contigo.
Porém se fui feliz, hoje nem sei se ligo...
Vazio me restou o coração, amigo,
e vivo sem querer, num mundo sem porquês.

Nilza Azzi
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Ponto de fuga


No infinito a convergência
a inocência de um olhar
um mar de céu e de luz
uma única aquarela

Como é bela a emoção
dos matizes sobre a tela
e nos traços dos pincéis
velhos réis por mim reinaram

(contudo, no grão de areia, o Aleph se desdobra)

Nilza Azzi
👁️ 175

Prece


Leva, além da luz que envolve a alma,
passos que deixei atrás de mim;
leva embora a dor que não se acalma,
tudo que há de falso ou de ruim.

Leva a sensação de incompletude
toda incompreensão e crueldade,
leva a solidão, pois amiúde
ela se aproxima e não se evade.

Deixa apenas força, por favor,
o suficiente para ir adiante.
Deixa o sonho vivo, bom Pastor,
abençoa a ovelha vacilante.

Quando o dia finda e anoitece,
leve o vento, a Ti, a minha prece!

Nilza Azzi
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Se


Se, quando eu amei, venceu-me o susto,
foi no teu olhar que eu me perdi,
tal se não vivesse mais aqui,
mas na sombra do teu corpo augusto,
tal se o céu se achasse bem ali,
naquele teu abraço em que me ajusto.

Nilza Azzi
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Id

De onde sairão os pensamentos fortes
que vencerão as mortes além da lousa fria
se as luas derrubadas nas montanhas
não mais terão o encanto
da perene luz vadia?

Dos velhos lobos que uivavam nas campinas
já não ressoam mais as vozes estranhas.

Das formas tamanhas e espectrais
os muitos barcos no cais
restarão apenas sombras inofensivas
e a lembrança enevoada das gradivas
fenecerá com seu último espanto.

Se não chega para tanto, a primavera desistiu talvez...
Entre os absurdos e as auroras existiria um mundo, ou sonhei?

Se não há lei que torne a realidade menos cruel
desisto de esperar, deponho a pena.

Deuses dos desertos visitados
falam dos pecados e fujo em pânico.

Sem céu a clarear-me a nova estrada
a equivocada estrela no horizonte
some sem que aponte campos verdes ou florestas
e as pequenas flores da giestas caem ao chão sem sentido
sem mesmo aspirar-lhes o perfume
qualquer criatura mais sensível.

Debruço-me sobre o precipício das vaidades
e a vertigem atinge onde me alcança.
Perdeu-se uma criança que já não tinha medo
e a experiência de morrer apenas começou...

Nilza Azzi
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Ribalta


Pobre alma que vagueia sem roteiro,
sem parceiro para ser seu ombro amigo,
traz consigo a solidão mais descabida
e duvida das trapaças do destino...

Os fantasmas vislumbrados vão velozes;
não há vozes que lhe sejam familiares
e os pesares, que carrega sobre os ombros,
são assombros já sem peso, são deslizes.

Não me avise destas ruas sem saída,
nem tolhida, seja a escolha que professo,
pois o excesso de opressão deixou-me louco!

Faço pouco, mas coloco o ser completo,
no trajeto por cumprir que ainda me falta
e a ribalta acolhe o público mais nobre.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!