Lista de Poemas
Teus olhos
Quero envolver-te em óleos perfumados,
fazer-te ouvir o coro celestial
e revelar sem pejo, os meus pecados,
em liberdade ter o teu aval...
Talvez andar à toa, no jardim
da tua infância, lá, onde brincavas
e resgatar o brilho, a luz enfim,
banhar teus olhos com água de malvas.
Depois chorar por eles o meu pranto
e recolher as lágrimas salgadas.
Bem devagar, cantar um acalanto...
Daquelas gotas, quando enfim geladas,
fazer compressas e cuidar entanto,
de admirá-los, tal como me agrada.
Nilza Azzi
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É um poema!
Nasceu sorrindo e nem lhe dei um tapa!
Logo ele quis engatinhar sem mim...
Se não me cuido, lá vai ele, escapa,
mas, se me deixa cedo, isso é meu fim.
Recém-nascido, gosto de mimá-lo,
em mil cuidados, sempre me desvelo
porque depois que parte, num estalo,
entre nós dois, se rompe qualquer elo.
É meu poema, meu rebento, e é tal
minha alegria quando vem à luz,
como se fosse d’alma a doce voz.
Também parece que é tão natural,
quando o concebo a ideia já reluz,
porém, nos cabe pouco tempo a sós...
Nilza Azzi
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Reflexividade
Quando o ar está limpo e ouço o sino
da igreja do meu bairro, a cada hora,
acredito que o tempo vai-se embora
em busca de algum sonho peregrino,
porém, para evitar um desatino,
o tempo faz pensar que é sempre agora,
enquanto a própria vida ele devora,
a certos intervalos, sibilino...
Contudo, nessa trama, o que me espanta
e faz calar o verbo na garganta
é o peso da ilusão sobre este mundo:
− Premidos pela urgência do presente,
caímos num abismo tão profundo
que a vida chega a ser indiferente.
Nilza Azzi
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Dor
Se a dor que dói em mim, assim doesse,
doída, como um nada, a doer tanto,
talvez doera só pelo interesse
de que, por fim, não doeria o pranto.
Se a tua ausência já doeu bastante
e doerá, por certo, eternamente,
que doa, de uma vez, lacrimejante,
qual doeriam lágrimas da mente.
E quando a tua dor em mim doía,
tal qual doeram todas, vezes mil,
– deixei doerem por compreensão.
Assim vivo o dorido dia-a-dia,
embora já me doam, dor gentil,
as dores que eu bem sei que doerão.
Nilza Azzi
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Reflexos
Dos cantos onde esteve emaranhado,
meu verso se livrou. Isso é passado.
Um pessegueiro solta as flores róseas!
Por entre os galhos, ora abertos, cose-as,
atônita, a formosa borboleta...
Enquanto um tico-tico faz pirueta,
a cada vez que soa um canto triste,
mais luz banha o pomar e o som consiste
nos restos que sobraram, nos ruídos
dos ecos dos lamentos não retidos.
O certo é que me vejo nesse espelho,
com ares de feliz, não me assemelho
a um brilho de cristal. Rastro hialino,
ao longe, sou um vulto pequenino.
Nilza Azzi
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Catarse
Por que me dói o coração, em dor tão forte,
e por que bate em descompasso, à tua voz,
cada vez mais, sem encontrar o que o conforte,
e dói, e dói, dói sem cessar, e dói após
saber que tudo que lhe resta é dor ainda?
Por que me dói o coração, sofre esse corte,
e dói bem mais, sendo essa ausência dor infinda,
e mesmo assim, esse doer pouco lhe importe?
Ora, ele dói por esse amor, tão renitente,
ora, também, por esse amor, pleno e completo.
Dói-me, porque bendiz a festa do presente
e ainda dói por ser rebelde e inquieto...
E nessa dor, sofre de um modo diferente,
em regozijo por amar-te, ó meu dileto.
Nilza Azzi
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Altercação
À beira de uma estrada havia um galo.
Chovia e fazia muito frio...
Palavra provocante, ah, se eu te falo,
jamais terei perdão, pois desconfio
que ao vê-lo em tal perigo, o meu abalo
deveu-se a perceber que ele fugiu.
Palavra fugitiva, ah, se eu te calo,
vazia fica a linha, sem um pio.
O que fazia o galo, ali, curioso?
Fugira, ele, de um velho galinheiro,
cansado de viver, lá, prisioneiro?
Palavra que me atenta só por gozo,
esconde-se num velho dicionário
e torna o meu pensar fragmentário.
Nilza Azzi
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Leque
Na madeira, marcava-se a toada
– era um lírio, seu rosto descoberto –
sobre o palco, passinhos, delicada,
movimentos de areia no deserto...
O quimono da gueixa, iluminada,
sob um feixe de luzes, entreaberto,
é bordado em brocado e, na beirada
do decote, uma pérola, decerto
dá realce a uma pele sem sinais.
E na dança folclórica descerra
várias vezes a arte do pintor:
Sobre o leque fineza de dispor
sutilezas – a síntese da terra –
as nuances das crenças ancestrais.
Nilza Azzi
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Faíscas
Estrelas desse céu, noturno e magnífico,
segredos que guardais, contai-me, por favor!
Acaso vós sabeis por que vos dignifico,
por que vos tenho amor e a vós procuro expor
o sentimento atroz – não pode haver pior –
de alguém que busca a luz, mas segue como um cego,
nas trevas que jamais desfaz ao seu redor?
Espanta-me essa dor, sou fraca, isso eu não nego,
diante do que traz a mim o amor possível;
da dor sem salvação, da busca de um conforto.
Certeza de viver de um modo que deploro,
saudade de um querer; será que um dia tive-o?
Viver esse sem fim (o estado de absorto),
no amor que chega a mim, tal chuva de meteoros.
Nilza Azzi
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Mar revolto
Há um soneto que permeia minha vida,
tal ferida com casquinha que se arranca,
como tranca de uma porta sem saída,
casca morta que cutuco feito santa...
É um poema que mantenho vivo em mim,
nesse tema que alimento com cautela,
pois não quero ver alento no meu fim,
em ferrenho aguilhoar. Eu fujo dela,
dessa insana tentação de poesia.
Que ousadia! Só quer ter o meu querer,
mas não cedo, não vou dar braço a torcer.
Afinal, só lero-lero não resolve!
Quero mesmo o tal um poema livre e solto,
mas navego feito nau num mar revolto...
Nilza Azzi
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Comentários (4)
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petrillipoesia
2020-03-23
Belos sonetos!
sergios
2020-01-23
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
filipemalaia
2019-12-31
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
2019-08-02
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!
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