Lista de Poemas
elipse
aqui nas profundezas em que vivo
a dor me basta e nada mais preciso
os mares são escuros e vazios
e neles já não desembocam rios
a chuva doce sobre a superfície
não mata o sal e crer nisso é sandice
o sol que esquenta a crista destas águas
não chega ao fundo nem derrete as mágoas
a lua que já produziu poesia
é massa morta e sonhos já não cria
se o sonho é a vil matéria da esperança
a vida sem sentido em mim descansa
nilza azzi
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love
leva-me a outro universo
limites aos quais nunca fui
longe... longe... longe...
Enlevada por teu chamado
lúbrico e atemporal
levito em sustos
lua... de... mel...
nilza azzi
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Expediente
Espanto
não o mesmo de sempre
ou a dor mais antiga
antes o caminho do sonho
límpida esperança das manhãs
nuvens flocadas e brancas
sem prenúncio de tormenta
Súbito
não porque fosse feliz
muito mais por ser real
a vida escorre
amo sem palavras
de um fervor inconfessável
por trás dos meus ombros
os verbos clamam por vez
no silêncio das doçuras primitivas
a maldade atravessa
aquém dos meus limites
não soubesse o desejado
quisera-te sempre
mas luzes estrangeiras
levaram-te em carruagens
Catacrese
atordoadas e sem jeito
ajeitam-se em filas
palavras nascedouras
a fonte verte o líquido
límpido e correto
nada é inocente
num poema reescrito
Nilza Azzi
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Pequenas questões
O que será...
o que será poético mesmo sem ter metro
e mesmo ainda que lhe falte rima
a lua, as estrelas, uma flor, o arco-íris
o sentimento que me escreve
o escrever a desvendar as emoções
ou será essa vontade de saber por que existo nesse mundo
um vazio nas entranhas
uma voz
um saber sem palavras repetidas pelas pautas e entrelinhas
a poeira ao sol
cristais de gelo, folhas orvalhadas, manhãs com neblina
a garoa de São Paulo
minhas lágrimas
o chão de um deserto depois da chuva
as nuvens do céu a alterar as formas que eu invento
um sorriso...
O que será dessa estátua de sal em que tornei o meu reflexo
um grito ou uma súplica
uma vontade de fazer valer o proibido
Nilza Azzi
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Reencontro
Um dia, nesta terra em que vivemos
a sina destas vidas separadas,
ao crermos ser possível sofrer menos,
seguimos, percorrendo outras estradas.
E assim, vaguei por todos os extremos,
perdida e sem ter gosto para nada,
mas tu, entre os prazeres mais supremos,
vivias, de uma forma equivocada.
Porém, num sentimento que traduzo,
por ser ao teu redor tudo confuso,
no mar entraste, para não voltar...
E ali, onde flutuam minhas cinzas,
nas horas em que as ondas são ranzinzas,
beijo teus ossos junto ao quebra-mar.
Nilza Azzi
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Sequelas
Num dia, consumiram-se os sorrisos
e a terra não mais viu as primaveras,
as aves não cantaram mais, deveras,
soltavam pios roucos, imprecisos...
E logo após, o céu tornou severas
as cores dos poentes... Indecisos,
nos campos, silenciaram-se os avisos
– a vida remontava às velhas eras.
Era uma cena estranha e sem sentido,
o mundo escuro não sabia a luz,
em nada havia o brilho que seduz.
A dor de um coração desvanecido,
pairava sobre os campos nevoentos,
inertes, silenciosos e sem ventos.
Nilza Azzi
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A penas
Era uma pluma leve como a pena;
era uma pena dura de roer.
Era uma agressão forte que depena,
feita a bico de pena, por prazer.
Era uma linha a dirigir a pena,
era uma pena inútil, sem saber.
Era uma pauta rica, ainda em cena,
a leve pluma, além do mesmo ser.
Era uma pena de ave, morta ao lado,
era o pio do filhote abandonado,
no apelo por alguma intervenção.
Era bem como as coisas todas são:
efêmeras, penosas, passageiras.
– As penas voam leves, sem fronteiras.
Nilza Azzi
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Dimensões
A fina linha azul que envolve a Terra,
nos limites de nossa atmosfera,
diz: — tudo sob o céu, calor encerra —
e, na medida exata, o reverbera.
A água, condensada sobre a serra,
traz chuva e faz florir a primavera.
Despenca a cachoeira, o lago cerra,
a neve envolve o Sul em luz cinérea.
Em torno de Saturno, antelucano,
Titã nos lembra a Terra primordial,
com líquido num ciclo correlato.
Num mundo penso, hostil , nuvem é fato.
Nos polos, muito gelo. — Sobre o vau,
há mares , lagos, rios — de metano.
Nilza Azzi
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Chuvisco
Tome-se o cinza claro
e faça-se dele um céu bem alto
escondendo atrás das nuvens
a alegria do azul.
Depois sopre-se um vento
medianamente fraco
para soltar algumas gotas
que passem rapidamente
Nilza Azzi
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Questões sem razão
Quem diz que a mim pertence a linha do destino
e as formas que traçou na estrada do meu ser?
Quem diz se a vida é minha ou se virá a ser;
não sei do meu viver, com ele eu nunca atino.
E a falta que me faz o amor... Sem jamais ter,
de além do meu jardim, a luz que descortino?
Se nunca mais floresce o sonho genuíno
da súbita paixão que o corpo faz ferver,
o que buscar além da solidão eterna?
Nem mesmo sei qual seja a fé que me governa...
Nilza Azzi
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Comentários (4)
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petrillipoesia
2020-03-23
Belos sonetos!
sergios
2020-01-23
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
filipemalaia
2019-12-31
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
2019-08-02
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!
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