Escritas

Lista de Poemas

Viés

olho os teus poemas
com olhos de través
cortando as palavras
num viés bem comprido
num mergulho indefeso
nos jogos de sentido
barco sem leme
entre luas e corujas
e mares e pontes
e o coração que treme

nilza azzi
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Leituras


Procura-me, perdida nos teus olhos,
no momento em que a chama atinge o pico,
e verás que sorrio e não me entendes,
porque tu nada sabes do infinito.

Vem a mim nos jardins e nos pomares,
vê que exulto entretida no trabalho
e os meus ares dirão que estou feliz
— Poderás entrever restos de sonhos.

Se a caminho da praia tu me encontras,
nos olhares perdidos bailam luzes
— sutilezas do mar enchendo os ares —
as verdades de ser fecham-se em conchas.

Ao entrares na casa sombreada,
no silêncio das tardes protegida,
tenho um livro nas mãos, um mundo posto
e não podes decifrar este sorriso.

Procura-me, se chego da viagem
e despejo a bagagem pela cama,
Pois, se volto, a saudade me venceu
— Nada sabes das lendas de quem ama.


Nilza Azzi
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À uma hora


Os passarinhos cantavam
A minha Lília morreu.
(folclore português)


quando o Amor vacila
a dor estende tentáculos
ajeita as suas ventosas
agarra-se ao coração
até que lhe falte alento

ó alma, que vieste à Terra

como amar e não sofrer?

nilza azzi









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love


leva-me a outro universo
limites aos quais nunca fui
longe... longe... longe...

Enlevada por teu chamado
lúbrico e atemporal
levito em sustos
lua... de... mel...

nilza azzi
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Silêncio


Há calma! E se nenhuma ave canta,
e morre na garganta o canto meu,
as folhas não se mexem por espanto.
Perdeu-se a voz do amor e então se grave,

nas bolhas que esse vácuo emudeceu,
a ausência e a condição não desejada
e nada, nada mesmo, eu sei que nada,
da atroz separação trará consolo.

Se o dolo de uma espera sem resposta,
não pode a mim trazer mais nenhum mal,
quisera o bom silêncio da quimera...

Sacode a minha alma em sobressalto
aquela voz que, incauta, inda procuro
no silêncio, tão escuro, de minh’alma.

Nilza Azzi
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amar é doce


na vez do encontro  
meu coração dispara  
e nesse ponto  
descubro o quanto é cara
a tua voz  
e sei o quanto é doce  
estarmos sós  

nilza azzi
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Aqueles dias


Tenho dias  
em que se perdem  
todas as minhas guias  
e apenas desejo  
aquele dia  
fora do tempo  
do calendário maia  

Fere-me a sensação sufocante  
dos dias afundados no tempo  
em que a ampulheta cósmica  
escorre além de banais suposições  

Alguns dias como eu queria  
que fossem bolhas  
sem amanhã  

Nilza Azzi
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Desvios


Espanto a dor
essa poeira de letras
pesadas, sibilantes
dobradas no percurso
da linha, da pauta
que perpasso a custo

Estouram as oclusões
fermentam interseções
e o luto é profundo
e violento o sofrer

Dizem que a tristeza
é passageira
mas e se não for?

Nilza Azzi
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Duvido que você saiba

Duvido que você saiba
me explicar o que aqui fiz.
Se o texto, com seus segredos,
sumiu, diante do nariz,
ou ficou no vão dos dedos.
Quero ver você agora
vir salvar-me dos meus medos!

Duvido que você saiba
o que eu senti agora.
Quando jorra o chafariz,
a lágrima se evapora,
mesmo se nos faz feliz?
Quero ver você agora
escapar por esse triz!

Duvido que você saiba
ler piada sem sorrir.
Se um quarto é inteiro
quando é feito pra dormir,
deter fogo sem aceiro...
Quero ver você agora,
contar tempo sem dinheiro!

Duvido que você saiba
cortar a água com faca,
tirar o leite das pedras,
onde encontrar uma paca,
porque uma nuvem empedra...
Quero ver você agora
achar onde o vento medra!

Duvido que você saiba
que não morre uma amizade,
nem mesmo quando se crê
que tempo mata a saudade
daquilo que não se vê...
Quero ver você agora
entender o que aqui lê!

Duvido que você saiba
viver em ilha deserta
e ainda achar alguém
na hora e medida certa
e não duvidar de ninguém...
Quero ver você agora
trocar tostão por vintém!

Nilza Azzi

 
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Expediente


Espanto
não o mesmo de sempre
ou a dor mais antiga
antes o caminho do sonho
límpida esperança das manhãs
nuvens flocadas e brancas
sem prenúncio de tormenta

Súbito
não porque fosse feliz
muito mais por ser real
a vida escorre
amo sem palavras
de um fervor inconfessável
por trás dos meus ombros
os verbos clamam por vez
no silêncio das doçuras primitivas
a maldade atravessa
aquém dos meus limites
não soubesse o desejado
quisera-te sempre
mas luzes estrangeiras
levaram-te em carruagens

Catacrese
atordoadas e sem jeito
ajeitam-se em filas
palavras nascedouras
a fonte verte o líquido
límpido e correto
nada é inocente
num poema reescrito

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!