Escritas

Lista de Poemas

a trilha das palavras

se nas reviravoltas me cansei das luas
e se dos girassóis já se perdeu o encanto
é que uma primavera foi embora um dia
e nunca num verão eu soube o que era amar

pintei minha loucura em cor bem transparente
deixei no céu o adeus sem mesmo refletir
nos braços que partiram já não choro mais

se os restos de um poema são de cor brilhante
e a trilha das palavras vem do pensamento
além do imaginário tine a realidade
certeira e mais cruel do que qualquer inferno

mas se numa recusa há sempre uma esperança
repousam vinho e mel nos campos semeados

nilza azzi
👁️ 53

Honey


Carrega o odor das pétalas das rosas,

raro perfume que este vento trouxe.
É tão suave e doce, doce, doce,
quanto o desejo das horas ditosas.

Se um pedaço do céu, decerto fosse
e fosse a cor da íris mais formosa,
ainda assim, daria vez à glosa,
posto que essa doçura pressupôs-se.

Na calma, às vezes, que um amor tempera,
no mais profundo encanto da querença,
tudo acontece em doce plenitude.

Quanto à certeza, tê-la nunca pude,
mas se há doçura tal que me pertença,
tenho-a na luz dourada  das quimeras.

Nilza Azzi
👁️ 140

Eras

Eras entre os amores, preferido,
à noite o raio de luar, e o sol
que dava ao dia o brilho e o sentido,
da primavera, o encanto do arrebol,

e, também, eras música ao ouvido...
Contigo o encanto e a cor da natureza,
o livro aberto que nunca foi lido,
eterna dúvida e pouca certeza,

a clara solidão do meu caminho,
a rota, o desatino do meu rumo
e a frouxa gratuidade das quimeras.

Se o teu melhor segredo eu adivinho,
as dores do abandono enfim assumo,
em face da alegria de outras eras.

Nilza Azzi
👁️ 45

Desvario

Neste céu sem estrelas da cidade,
quando o manto noturno se entristece
e no azul não mais cabe a menor prece,
a tristeza me assombra e mais me invade.

Tudo é como se aqui já não houvesse
um sinal de amplidão, de liberdade,
e nos fosse negado essa benesse,
de espantar uma dor que não se evade.

E sem ter o que olhar, o que colher;
esperanças de mundos infinitos,
perco em minha garganta qualquer grito.

É um peso, um ensaio de morrer,
uma angústia que cala em minha boca,
quando a noite me deixa meio louca.

Nilza Azzi

👁️ 14

Estados da alma


O céu, sempre uma esfera silenciosa;

o azul, uma ilusão que nos encanta;
a voz é uma vontade na garganta;
rainha no jardim, somente e rosa...

As nuvens, brancas nuvens, são a manta
que torna essa impressão mais caprichosa;
a mente acha repouso enquanto goza
de um certo desalento e não se espanta.

Silêncio, pois é sob o céu parado
que a vaga sensação de um bem perdido
procura acomodar-se á vida em terra;

silêncio que faz bem, mas nada encerra
e nos ouvidos sopra esse zumbido
que é som, mas representa um outro estado.

Nilza Azzi
👁️ 173

Em águas rasas


No remanso de um lago, em pleno gozo,

criaturas que nadam sem receio.
Desconhecem a terra, mundo alheio
à existência banal, num mundo aquoso.

Um pescador, bem jovem, chega. Veio
com iscas.  Concentrado e habilidoso,
ao encontrar o sonho em que repouso,
estende a rede e apanha meu enleio.

Despenco a cachoeira (o sonho é alto!).
Resisto numa água transparente.
A luz do sol cintila bem à frente...

Porém o pescador prossegue incauto,
alheio ao sentimento que extravasa,
e é ele o peixe pego em águas rasas.

Nilza Azzi
👁️ 193

Dragão


De novo esta vontade de sumiço
o verso é meu esconderijo antigo
o céu que nos protege não é fixo
camadas de mistérios e perigo.

A velha persistência sabe disso
e  fadas inventaram esse abrigo
tornaram  a palavra compromisso
as letras são os rastros do que digo.

O coração do espaço desfibrila
a reta se desfaz ao fim da fila
de pontos nos buracos do infinito.

O mar nada mais diz enquanto fito
a plácida ilusão do espaço azul
no ninho do dragão achei um ovo...

Nilza Azzi

 
👁️ 189

Dupla-face

Meu coração é uma rocha esburacada:
– em cada nicho, uma ausência que faz falta.
Se algum detalhe importante se ressalta,
são as lembranças de quem, cruzando a estrada,

logo partiu, mas deixou-me a sua marca.
Meu coração é um canteiro em floração
e cada flor, que ali brota, é com razão,
fundamental ao conjunto que ele abarca.

É dupla-face o que eu trago no meu peito:
– um coração pelo avesso e, por direito,
apaixonado, amoroso e, sim, completo.

E nesse estofo as nuances que coleto,
de quem perpassa essas vias, são presentes,
presença ímpar – valores permanentes.


Nilza Azzi
 

 

Nilza Azzi

👁️ 45

Atropelo

Nunca me amou, aquele que dissera
que me amaria sempre. – Foi um sonho!
Visão que traz a luz da primavera,
no entanto passa e deixa um frio medonho.

Mas não existe amor –  e sou sincera! –
de uma ilusão as dúvidas exponho...
Porém a dor, a fibra nos tempera,
para enfrentar truísmos enfadonhos.

E quando vejo um par de namorados
estico a vista, procurando ao certo
outras questões para entreter a mente.

Enquanto a vida segue surdamente,
o coração espia, chega perto,
solta um suspiro e morre asfixiado.

Nilza Azzi

👁️ 27

Desgaste

Perder-te trouxe a dor que ainda me pega,
no meio desta angústia tola e cega.
Foi como aquela tela que se apaga: 
o filme terminou e morre a vaga.

A dor nos faz crescer, alguém alega,
mas choro sempre foi demais  piegas.
O risco, conferido pela adaga,
traduz – aqui  se faz, aqui se paga...

Na testa permanece aquela ruga,
a lágrima escapou, um lenço enxuga, 
murmuro minha prece – quieta – rogo.

O corpo, então, contrito feito viga,
prossigo, cônscia – sei que ninguém liga –
e a fome de viver me assalta logo.

Nilza Azzi
👁️ 15

Comentários (4)

Iniciar sessão para publicar um comentário.
petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!