Escritas

Lista de Poemas

Perfil da manhã

Varou pela porta a luz da manhã,
correu pelo chão, beijou as cortinas,
destacou a cor do velho divã,
fez brilhar os grãos da poeira fina.

Lá fora o jardim no muro termina,
o orvalho ainda cobre a grama e uma vã
promessa de paz anima as esquinas...
Um gato amarelo atrai uma fã.

O dia se anima e ganha outro impulso,
o Sol lá no céu é só um astro avulso
e reina senhor dos seres que anima.

A vida no chão, a matéria-prima,
desfruta a energia e torna-se ativa:
– Confina no acaso e na tentativa.

Nilza Azzi
👁️ 52

Ninhos

Migrante, ao alçar voo e ir embora,
− nem sempre enfrenta inverno tenebroso −
pode a ave, achar água e repouso
e cantar todo o dia, desde a aurora.

— Na terra das palmeiras, quanto gozo —
a água das nascentes, quando aflora,
é pura e vai descendo, sem demora,
a mata mostra um verde estrepitoso.

Há ninhos que recebem todo ano
os bandos que retornam da jornada
e enfrentam o bulício quotidiano,

à força da energia acumulada.
A quietude é o que impera no altiplano,
mas há mais alimento na baixada.

Nilza Azzi
👁️ 17

João e Maria revisitado

Passou por mim num sopro, quase nada,
foi parar bem longe da visão.
Guardava em si a cor da madrugada
e o cheiro bom das chuvas de verão...

Um dia ressurgiu na minha estrada,
já decidido a ter meu coração,
e me deixou surpresa e atordoada,
assim, fui  incapaz de dizer não.

Ele era o mundo e todo seu mistério,
senhor de um reino vasto e circular,
onde encontrei nobreza e conteúdo.

Nem sempre era pra ser levado a sério.
Era-me necessário, como o ar...
– Ele era o meu poema sobretudo.

Nilza Azzi
👁️ 33

O singular plural

Despencam águas claras das vertentes.
É ilusão o que nos move, é sonho?
Espanto abominável, mal medonho,
destinos controversos, diferentes...

O céu exibe o cinza, o tom tristonho,
e nunca são os fatos permanentes.
Presságios! Neles não creem os crentes,
mas fé em tal descrença jamais ponho.

Não há em fonte alguma a clara voz
do som que atravessou o temporal.
O lago deixará a calma após

a fúria de algum vento ocasional.
O alívio da verdade cabe a nós
no encontro singular, talvez plural.

Nilza Azzi

 
👁️ 79

Quietude

O céu guardou as luzes cintilantes,
o mar, as suas conchas sob a areia.
A mata viu o Sol como era antes,
no início deste mundo que clareia.

A Terra reduziu alguns instantes
seu giro e a rotação que voluteia
não traz alterações mirabolantes.
A Lua ainda nos mostra a face cheia.

A jovem, quando encontra o namorado,
espera que ele seja delicado
e entenda os seus desejos mais secretos.

As flores, portadoras de sementes,
atraem os insetos sencientes
– meus olhos permanecem mais quietos.

Nilza Azzi
👁️ 18

Migração

Nos leitos em que se deita minha canoa,
nas águas pouco profundas, deveras calmas,
navegam alienadas diversas almas:
–  A vida nessas paragens já não é boa.

Nas linhas que desenharam a minha palma,
no curso desse remanso tudo destoa
e o canto repete em ecos a mesma loa:
– À margem do sentimento, a dor se espalma.

Nos sonhos, onde flutuam desejos tristes
e a capa da realidade não vê futuro,
estranho, por meus sentidos, tudo que existe.

À falta de algo mais belo, intenso e puro
a sombra, parada ao lado, a tudo assiste:
– Resvalo no meu murmúrio e a esconjuro.

Nilza Azzi
👁️ 28

O eterno tema

Era você num raio de luar,
no brilho vacilante de uma estrela...
Era você, mas não podia vê-la
na inútil transparência navegar.

Como a centelha a mergulhar no mar,
sim, era ele e o medo de perdê-la
na substância da neblina e pela
insensatez de quem não sabe amar.

A impermanência de uma nuvem torta,
desfeita pelo vento, desconforta
o olhar que não entende essa paisagem.

As lentes mal focadas não reagem
ao mundo da ilusão e dos mistérios,
à fonte dos desejos deletérios.

Nilza Azzi
 
👁️ 43

O eterno tema

Era você num raio de luar,
no brilho vacilante de uma estrela;
era você, mas não podia vê-la
na inútil transparência navegar.

Como a centelha a mergulhar no mar,
sim, era ele e o medo de perdê-la
na substância da neblina e pela
insensatez de quem não sabe amar.

A impermanência de uma nuvem torta,
desfeita pelo vento, desconforta
o olhar que não entende essa paisagem.

As lentes mal focadas não reagem
ao mundo da ilusão e dos mistérios,
à fonte dos desejos deletérios.

Nilza Azzi
👁️ 4

Migalhas poéticas

Sou um cisco da luz, fragmento ou migalha,
uma lágrima anã do negro firmamento;
sou poeira, quiçá, que o forte vento espalha,
nos confins desse azul, não me julgo a contento.

Não sou nem mesmo a chuva, a martelar na calha,
e menos sou o mar, poder e movimento:
– da rocha faz areia e sem cessar trabalha –
na praia breve bolha, ali mal me sustento.

Num plano que é imenso, a ponto de infinito,
sou fóton sem ter par, vagando pelo espaço.
Habito, tão pequena, os vastos universos,

sem entender porque o mundo é tão bonito.
Se não tenho grandeza em nada do que faço,
o meu querer espalho, em migalhas de versos.

Nilza Azzi
👁️ 32

Os pastores

Ia o velho pastor por uma estrada,
no rumo sem razão do seu caminho.
Esquecera da ovelha desgarrada:
− O rebanho, um detalhe comezinho.

E pelos vales, pelos montes, nada
podia desviá-lo...  Ele, sozinho,
olhava a vastidão desamparada,
sem chances de voltar ao velho ninho.

No rumo oposto vinha uma pastora,
de uma simplicidade sedutora,
um toque de poesia ao seu redor...

Se cada qual a própria cruz levava,
a força que os sustinha, embora brava,
não fez de sua vida algo melhor.

Nilza Azzi
👁️ 41

Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!