Escritas

Lista de Poemas

Galáctica


Meu namorado colhe estrelas, tece os ramos

que me oferece, azuis clarinhos, cintilantes...
Dispõe tapetes só de flores onde estamos,
onde sorvemos luz e amor, a cada instante.
Sua presença traz ao mundo a cor dourada,
faz coração vibrar num sentimento puro.
Se junto dele vou além, sou mais amada,
ele é presente, ele é passado, ele é futuro.
Meu namorado põe a luz no meu olhar
e o mundo faz girar veloz à minha volta.
Com devoção conduz minh’alma a apreciar
a imensidão... Tal qual um raio, ela se solta

dessa prisão e, sem temer mais coisa alguma,
desfruta o sonho e mil venturas, uma a uma.

Nilza Azzi

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Engano

Quisera desse amor colher os frutos,
porém o meu passado me condena
a ter esta existência tão pequena,
destino dos bastardos e corruptos.

Se há dor, a desejei bem mais amena
e os medos, menos fortes, menos brutos!
Da paz, só desconheço os atributos;
ao longe, um só sorriso não me acena...

Vegeto nesse mundo sem ter vez...
A sombra que me segue é tão feroz
(desejos, sentimentos abstratos).

A vida me enganou, jamais desfez
seu  truque, pois carrego o meu algoz
−  A culpa da inocência dos meus atos!

Nilza Azzi
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fragmentos


há um pedaço de céu
numa palavra tua
um mel que escorre
em sensação estranha

a minha alma recolhida
nua como a madrugada
veste véus de sonho e névoa
tem desmaios de lua nova

há uns ticos de tristeza
na lembrança do que dizes
algumas gotas úmidas
que não choro por querer

nilza azzi
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Luto

Luto porque não sei fazer outra coisa,
e porque trago no meu peito, luto.

Luto porque a palavra aprisionada
devolve a minha poesia ao luto.

Luto, estendendo a minha luta ao mundo,
ao mesmo mundo que me deixa em luto.

Luto que já se estende por uma eternidade,
e mesmo sem saber porque, eu luto.

Nilza Azzi
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Solução de continuidade

Caiu no chão, espatifou de vez,
fez-se em mil cacos, nada sobrou dela;
foram-se as flores da blusa amarela,
foi-se o colar de contas, sem porquês.

Nem mesmo houve um óleo-sobre-tela
que eternizasse a face dessa Inês...
Qualquer olhar, senhor de lucidez,
perceberia que morta ela era.

E, uma vez morta, Inês, mais nada havia
da tal boneca que ela fora um dia
e, como tal, brinquedo e nada mais.

Um acidente... tudo se desfaz...
e a vida segue como sempre foi
− primeiro o carro e depois os bois.

Nilza Azzi
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Desvio

Oh, amor entre os amores
quem me dera não pensasse
não tivesse à frente as dores,
esperanças ou vontades,
tristezas, longas saudades...
Quem me dera, nessas tardes
meio longas, meio frias
não sentisse solidão,
nem tivesse as mãos vazias,
em gestos vagos ao ar,
quem me dera não chorar.

Oh, amor entre essas flores
coloridas pelos campos,
à noite esses pirilampos,
no dia o calor do sol
não encontro distração.
Quem me dera, doce amor
doce encanto, minha luz,
não sentisse a solidão
nem sentisse tua ausência,
em meu olhar vago ao longe,
nos vazios do lugar.

Nilza Azzi
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Entre nós

Eramos dois, a sós, naquele quarto,
apenas tu e eu e uma certeza:
– a  sensação de um tempo em que já fartos,
as cartas, espalhamos sobre a mesa.

Na mesa eram valores que reparto,
com expressão banal, sem sutileza,
as águas derramadas nesse parto,
a  dor dessa tortura ainda acesa.

Se tu eras o filho que eu não tive,
a estrada a desbocar em um declive,
a guerra, desbancando a minha paz,

já eu, enquanto exemplo da desdita,
sentia em mim a culpa infinita
de até não conseguir amar-te mais.

Nilza Azzi

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Flor-de-são-joão


A flor-de-são-joão, brilho laranja,

floresce neste inverno em plenitude;
a cor inflama o campo e ainda esbanja
perfume que suaviza o entorno rude.

Espalha-se o cipó como uma franja,
nas copas, colorindo as altitudes,
ou é pelas encostas que se arranja,
surgindo na paisagem, amiúde.

Atrai muitos insetos – as abelhas
adentram as corolas mais vermelhas
zunindo a sinfonia, tantas asas...

As flores reunidas lembram brasas:
– aquelas que rebrilham na fogueira
e o vento faz corar a noite inteira.

Nilza Azzi
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Flores da época


O manacá-da-serra enlouqueceu,

liquida tudo, vai trocar o estoque;
libera a floração num jubileu
e deixa a serra linda, sem retoque.

E tantas outras surgem a reboque;
no verde deste outono, a cor venceu
e a luz que reverbera tem teu toque,
nas cores da ilusão, ó meu Romeu.

O custo é uma pechincha, é quase nada
o entorno da paisagem adornada
atrai a atenção. A tarde desce...

Ponteia a quaresmeira o verde escuro,
a serra do Japi é quase um muro
e escrevo num papel a minha prece.

Nilza Azzi
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Canto escuro

Perene aquela dor, e aparecia,
conforme uma tristeza, colorida
das cores desbotadas desta vida,
sem graça, sem prazer, sem alegria.
A trégua nunca vem e nos traz paz,
porém se tudo passa, a dor também
e, mesmo, nesta terra de ninguém,
nenhuma das escusas satisfaz.
O medo mais guardado tinha forma
das noites sem luar. Era tremendo!
E, desde os velhos tempos, vinha sendo
o vácuo poderoso que transtorna.

          Inútil esconder, negar seu nome,
         — a praga nos devasta e nos consome.

Nilza Azzi

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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!