Escritas

Lista de Poemas

Enciclia


Nas tardes que se perdem, vãs as horas,

enquanto a noite ainda é limite,
o ar carrega as vozes mais sonoras
e o som jamais revela o que admite.

Pessoas são abelhas, um convite,
trazer pra si regalos, o que adoras.
Viver maior prazer, o amor permite
sonhar ainda bem longe tais auroras.

Porém a tarde acaba, a noite avança,
escorre pelas mãos outra esperança,
sabendo que a manhã, a luz estraga,

mostrando a realidade a mesma praga.
No ciclo, uma outra tarde escoa lenta
e crua, a solidão prossegue, aumenta.

Nilza Azzi
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Ouro dos tolos

Notar as ilusões, apenas destrutivas,
e nas feridas dor, sentir, pungente, atroz,
mas não perder a vez, seguir sozinho após
já não ter voz ativa, enquanto apenas vivas...

Fugir do sofrimento e derrotar o algoz;
o lume é traiçoeiro e assim, manter vigília,
na trilha enevoada em que, ao longe, brilha
a nova realidade, além, das almas sós.

E não foi diferente, outrora tu sonhavas...
Se davas ao teu sonho, espaço pra ser forte,
(tolices de quem ama e tem a alma pura)

é força que ele usava, ao socorrer as bravas
batalhas em que a vida, em dívida co’a morte,
deixava um gosto amargo, em uma noite escura.

Nilza Azzi
👁️ 32

O choro do céu

Se eu permitisse à chuva que chorava
por sobre a terra a dor do céu ferido
e percebesse haver algum sentido
na solidão – e fosse eu mais brava

e enfrentasse a fera – se movido
por minha dor, o céu soltasse a trava
e desse a mim aquilo que negava
e descobrisse um mundo colorido,

se dessa luz, apenas uma gota
um pouco de alegria respingasse
sobre o tecido desta vida rota,

que outra impressão poria sobre a face!
O temporal, a fúria, a voz marota
traz mais perigo, quanto mais não passe.

Nilza Azzi
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Selfie

Prossigo a minha estrada, no correr dos dias,
a tudo indiferente, sem tristeza ou festa.
A folha de papel é tudo que me resta,
encher com meus rascunhos as linhas vazias.

Não sei imaginar mais que proeza é esta,
buscar dissolução das formas arredias
e nestes meus rabiscos esquecer das guias
e da sabedoria que o passado atesta.

Seguir sem vãs lembranças, recriar a lida,
erguer a cada passo o pé da caminhada,
pisar a nova estrada sem saber de nada...

Um gesto que desfia a ilusão perdida
e ajusta o contratempo de qualquer percalço
– um modo de escrever inútil, tolo, falso!


Nilza Azzi

 

 

 
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O louco

O louco é a primeira carta do tarô;
também a última e a mais instigante...

Ia pela rua, um pobre homem só,

levava numa vara o saco do destino,
amarrado em trouxa, um saco pequenino,
enfrentando o mundo, louco de dar dó.

Junto ao precipício, com seu violino,
enviava ao vento o mi, o fá e o dó...
Tinha no chapéu, a pena carijó
e mirava o alto, todo o céu divino.

Não sabia o medo, nessa vã loucura,
entregava ao caos, o peso do seu fardo
e se despejava num vazio imenso.

Tinha na lembrança, à guisa de consenso,
vagas  impressões do doce mais amargo,
que jamais provara, em sua desventura...

Nilza Azzi

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Miscelânea

Fora da tampa, o meu amor por ti,  
pois do comum das massas vou distante.  
Teu rastro eu sigo alegre, sempre adiante:  
― A amar assim, jamais eu me atrevi!  

E se eu passasse a régua e, num rompante,  
andasse no caminho que escolhi,  
ao teu redor, seria um colibri,  
num voo atordoado e delirante.  

Beijar-te-ia os pés, a fronte a face,  
em busca da doçura que extravasa,   
até fazer só minha, a tua casa.  

Depois, talvez aos pés de Deus pousasse  
e Lhe fizesse apenas um pedido,  
que amar tivesse um tempo indefinido.  

Nilza Azzi

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Inglória


Essa dor que nos punge a alma, ingente,

e não é dor de amor nem de paixão,
é mais dor de viver, viver e, então,
descobrir dor maior, à nossa frente.
É saber que na busca não há pausa,
mesmo quando o cansaço nos abate
e, se a busca nos leva ao disparate,
é mais intensa a dor que ele nos causa.
Também é despertar com nossos medos,
adormecer nos braços de fantasmas,
em meio à realidade que se plasma
cruel e descobrir isso bem cedo.

É causa sem efeito que nos valha, 
diante do desfecho da batalha.

Nilza Azzi
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Oh, Minas Gerais


Mas que saudade das tardes de Minas,
do céu vermelho, no horizonte aberto,
da capital traçada (tudo perto!)
naquelas ruas de grandes esquinas.

Não sei porque, aqui neste deserto,
abençoado por garoas finas,
quando contemplo as mais verdes campinas,
vem-me à lembrança o teu relevo incerto...

Ondulações de verde aveludado,
ficando azuis, nos longes do céu vário,
ali onde o Sol termina o itinerário

e o que era hoje já virou passado.
Daquele jeito bom de ser mineiro,
sinto saudade e não sou o primeiro.

Nilza Azzi
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Olhares


Não há olhar sem luz,  por ela sempre externo

a forma da visão e de encarar o mundo.
O belo nos seduz, contudo o mais fecundo
contato é emoção; contempla o mais fraterno.

A imagem que reluz, se esvai, dura um segundo;
as mais opacas são lembranças de um inverno.
Se um feixe nos conduz, do raio que governo
pesquiso de antemão e cores não confundo.

Fitar eu sempre quis, com olhos bem brilhantes,
o amor sem nem cuidar que fosse sobranceiro;
apenas ser feliz, sem freios de um roteiro.

Guardei no meu olhar a luz da liberdade;
mortal jamais prediz o que virá adiante.
inútil foi sondar; te foste num instante.

Nilza Azzi

 
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Os olhos de Ester


Se nos olhos de Ester há uma falsa consciência

e se o bardo não pensa as verdades que expressa,
nessa praça mais ampla, as fragrâncias intensas,
já floresce o jasmim, perfumando a travessa.

Se no seio de Ester não se encontra a licença
para seu puro afeto e se a jovem não cessa
de dizer que não quer nada que lhe pertença...
Oh! Que pobre ele é! Oh! Que triste promessa!

Se não cabe a José a esperança, sequer,
de encontrar nesse amor um lampejo que seja
de cumprir seu destino e levá-la á igreja...

Oh! Que pobre ele é! Oh! Que ingrata mulher!
Pois os olhos de Ester não refletem, José,
esse enlevo total. É melhor 'dar no pé'...

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!