Escritas

Lista de Poemas

Poema enrolado

E fica assim o dito por não dito
e o que acredito não mais tenha crédito
e o que se crê não seja pelo mérito,
pois quem merece já nasceu bendito
e não precisa, então de um analgésico,
para conter um coração aflito,
porque o amor é tudo que permito,
na condição de ser de fato inédito,
de compreender os ritmos do rito
e não viver apenas no pretérito,
ter um presente refinado e ético,
mostrar que o mundo é um lugar bonito
      e sem perder e sem ganhar também,
      eu tenho dito, em terra de ninguém...

                               Nilza Azzi
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Primícias

Jamais deixei de amar Adão, perfeito,
o homem ideal, puro e sincero;
o doce companheiro, o que mais quero,
de quem posso cuidar do melhor jeito.

Aquele que em meus braços sempre estreito,
enquanto deslizamos num bolero,
e os mimos são maiores do que espero;
enfim, o meu parceiro, por direito.

É ele que me deixa satisfeita,
preenche a minha vida com afeto,
entrega-se da forma mais singela.

À noite, em minha cama, ele se deita
e sabe amar de um modo bem direto;
um modo que o recato não revela.

Nilza Azzi

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Passagem

No descampado extenso e verdejante,
uma donzela segue rumo à fonte.
Vai a buscar a água que sacia,
um passo imemorial, usado antes.
Vem, no sentido oposto, um viajante,
embaralhando as linhas do destino
e, no transverso cruza os passos dela,
sobre a relva marcada do caminho.
Trás os vergéis anônimos,  os montes,
sobra do outro lado um oceano.
Dele, num dia antigo, a vida veio:
a Providência a fez tão colorida!

Passagem, já sem as marcas do começo:
– O céu, esse mar virado pelo avesso!

Nilza Azzi
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Partenogênese


Se dividisse ao meio o dom que te alimenta,

multiplicado assim, por divisão aos pares,
serias sabedor das artes do gameta;
farias destes céus espaços populares.

Se grávida da voz, a estrela se arrebenta
e traz o mundo à luz, ferida em mil esgares,
a cria então vingou da sedução sedenta:
— E tu não sujarás o chão onde pisares ...

Derrete-se o metal no caldeirão de Hades
e, dele, o que se faz é obra de Vulcano,
o criador do raio, estrondo sobre-humano.

Na conta de tirar, alteram-se as vontades,
e o gozo mais cruel, no sonho ele se frustra:
— O filho da uma deusa, a revelar-se um lustra.

Nilza Azzi

 
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Ponto de vista

Não há fazer algum, nem nada que se possa,
por mais que haja vontade, esforço e grande alento,
fazer para agarrar, com nossas mãos, o vento
(não pode o vento ser alguma coisa nossa).

Vai livre em seu caminho e, sem qualquer intento,
cabe às aves, ao céu, ao mar que forma a poça,
que logo irá sumir nos grãos da areia grossa,
ou cabe ao descampado inerte e sonolento.

É aquele que, ao deserto, as formas sempre alteia...
Se o que aparece além, lutando contra a areia
parece, ao nosso ver, apenas um camelo,

um outro pode olhar, mas não consegue vê-lo,
portanto, afirmará: – O que vi logo adiante,
podia até jurar que fosse um elefante!

Nilza Azzi
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Pacto

Eu te amei, num vazio inexistente,
amei a folha em branco, que encontrei.
Amei como uma puta ao seu cliente,
sem medo de ferir nenhuma lei.

E sei que procurei ser eficiente,
nas formas desse amar. Eu me apliquei!
E, sob aquele foco e aquela lente,
nos palcos do meu leito, foste rei.

Ah! Vozes desta parca lucidez,
o confronto titânico das eras
reduz a nada, a escolha que se fez.

Despojos pelo campo das quimeras
indicam que se foram de uma vez,
as pautas, que a seu tempo, eram sinceras.

Nilza Azzi

 

Nilza Azzi

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Tudo é festa!

Fiz um corte moderno no cabelo,
pintei as minhas unhas de vermelho;
descolei novo jeans, com muito zelo,
– mas foi da vendedora, o bom conselho.

No meu  look, ninguém mete o bedelho,
a não ser que lhe doa o cotovelo;
não me imputem loucura ou destrambelho,
pois a data merece esse desvelo...

A ouvir  'We are young', o som bem alto,
lá fui eu, meu 'arango' pelo asfalto,
bem feliz, a curtir o novo lance,

os óculos de sol, os bem da hora.
Hoje é dia de rock, então, agora,
escolho um 'funk' e canto 'Alors on danse'!

Nilza Azzi
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Primavera


Então é primavera e eu nem sei
o inverno todo, onde se escondeu,
nem onde foi parar o anseio meu
– nova estação na vida e nova lei.

No mundo, a natureza  é um himeneu,
por todo lado o amor impera e, rei,
comanda mais belezas que sonhei
– nova estação que a alma recebeu!

Só sei que choveu cedo e lavou tudo,
levou embora aquele frio agudo;
deixou doce frescor, suavidade...

O inverno ficará só na saudade
do chocolate quente e da lareira.
Bem-vinda, enfim, a bela jardineira!

Nilza Azzi

 

 

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João e Maria revisitado

Passou por mim num sopro, quase nada,
foi parar bem longe da visão.
Guardava em si a cor da madrugada
e o cheiro bom das chuvas de verão...

Um dia ressurgiu na minha estrada,
já decidido a ter meu coração,
e me deixou surpresa e atordoada,
assim, fui  incapaz de dizer não.

Ele era o mundo e todo seu mistério,
senhor de um reino vasto e circular,
onde encontrei nobreza e conteúdo.

Nem sempre era pra ser levado a sério.
Era-me necessário, como o ar...
– Ele era o meu poema sobretudo.

Nilza Azzi
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Janela para o poente

Pela janela aberta, vai o pensamento,
olhando a paisagem, mas não se detém
na árvore, na flor, no pássaro, em ninguém,
em busca do meu sonho, aquele que acalento...
E nessa mesma tela há força, estou ciente,
pois ela põe no ar a visão de um portal.
Ao longe iluminado, o brilho é sempre igual,
no ar avermelhado dessa tarde ardente.
Se dentro do ambiente, instala-se a penumbra,
lá fora ainda há luz, em brilhos de quermesse.
Difusos os contornos, já não se vislumbra
nenhuma ave no céu.  O escuro, lento, desce...

E o fio da minguante, em prata risca o céu,
enquanto o sol se vai e a alma fica, ao léu.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!