Escritas

Lista de Poemas

Salicastru


O mar está quieto, a praia curva

sobre si mesma o arco em que se fez.
A onda apenas rola e assim não turva
a limpidez da água... A uma só vez

pousam na espuma garças e gaivotas.
A tarde, que desenha a bruma escura,
carrega desventuras, mas não notas
a força do desejo, ó criatura!

Perseguem teus anseios céu e mata,
sinais dissimulados nas vertentes;
um simples sussurrar inconsequente.

Quem pisa na armadilha, o nó desata
e sofre, quanto mais ali esperneia,
e morre, sem sequer tocar a areia.

Nilza Azzi
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Selo

À tarde, quando o Outono bate à porta
e o vento sopra baixo, agita as folhas,
se vens falar de amor, a mim não tolhas,
nem faças dessa via a rua tort
na qual eu vá seguir sem ter perdão.
Onas vestes mais charmosas, ou nos mantos
que aquecem corpos... Quero a ti, então,
a fonte mais real que traz prazer
à vida interna, ao mundo azul do centro,
às formas tão intensas, quando adentro
a inércia frágil, própria a todo ser.

Mas, caro, não me beije à luz de velas,
Se o nosso amor, de fato, tu não selas...

Nilza Azzi
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Sírios

As minhas palavras são redes 
e pescam as vossas mentiras. 
São malhas, mas jamais as vedes 
porque, à volta, o mar se revira. 

As minhas palavras não ledes 
pois arderam todas na pira, 
― ah, se delas tivésseis sede! ― 
Velho poço embalde transpira 

água pura, vertida aos poucos, 
entre sons sibilantes, roucos, 
no silêncio de uma caverna. 

 Sentinelas dançam, lampírios
deixam rastros, seus brilhos sírios. 
― A verdade quer ser eterna. 

Nilza Azzi
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Critério


A minha mente anda confusa e vaga,

perdeu o siso, o pouco que ainda tinha...
E assim deixou-me a murmurar sozinha,
Linguagem muda  – parece uma praga.

Por ter causado esta tristeza minha,
do pensamento, um fato não se apaga;
indiferente aos rumos desta saga,
meu bem-estar despreza e espezinha.

Já o coração precisa de uma voz,
pois quer contar do seu estado aéreo,
o descompasso, o sobressalto atroz,

mas não consegue agir e ter critério.
Se sofre mais que a mente, e sofre a sós,
é porque sabe que és um caso sério.

Nilza Azzi
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Sobre o salto

A pedra que rolava a cachoeira
e tinha logo abaixo o seu final
sabia que o perigo era real,
mas quis a sua chance derradeira.

Podia aquela queda ser fatal,
quem sabe espatifar-se na ribeira
no lodo sucumbir, ser prisioneira,
decerto esse podia ser seu mal...

Contudo, já cansara do planalto,
de ver tudo do alto, diariamente,
pairar no precipício, em sobressalto.

Sonhava ver futuro no presente
e tinha essa dureza do basalto
que cai, mas não se parte e nada sente.

Nilza Azzi
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Sem outras saídas


Deixei escorrerem as águas passadas
e os velhos moinhos, em torpe abandono,
sustentam as pás, essas mãos desoladas,
na desesperança do gesto que aciono.

Inúteis os grãos, as searas deitadas
caíram ao chão, antes mesmo do Outono...
E os velhos moinhos, beirando as estradas,
são outras moradas, mas nada questiono:

– O tom da paisagem, estranha, irreal;
o ar quixotesco e as pedras caídas,
na base do muro, pintado de cal.

Em tempos de outrora, sem outras saídas,
o meu pensamento sofreu, afinal,
o choque mortal de emoções preteridas.

Nilza Azzi
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Paralaxe hipotética


Adeus soneto! Vai comigo uma saudade.
Eu, de partida, já nem sei o que dizer,
enquanto espero o alvará de liberdade
desta prisão, onde me vi a florescer.

Como um amante que não dura eternamente,
porém nos dá grandes momentos de prazer,
provaste ser um companheiro bem ardente
− nos leva ao êxtase, a loucura de escrever.

As minhas rimas já se vão empobrecendo,
minguam reservas de figuras de sintaxe.
Vocabulário? Esgotei o cabedal!

Sobre medidas, as noções ando perdendo,
pouco me ajuda recorrer à paralaxe...
Guarda em teu eixo, o meu adeus sentimental.

Nilza Azzi
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Passado

Debrucei-me sobre as minhas incertezas,
todas presas por um fio, meio suspensas,
como contas de um colar, as minhas crenças,
a vacilar labaredas mal acesas...

Depois me ergui, enfrentando indiferenças,
sem entender bem o vão das sutilezas...
Guardei num susto as palavras todas presas
e desdenhei de aventuras mais intensas.

Enfim parti à procura de outros ares,
para enfrentar a pressão que a tudo abarca,
além  da  dor, sem sinais particulares...

Atrás de mim, não imprimo qualquer marca,
jamais espero que um dia tu me ampares,
nessa esperança, minh’alma não embarca.

Nilza Azzi
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Ouve-me a voz


És a cor do meu céu, és certeza de luz,

teu olhar me seduz, sobre mim verte a paz,
mas sou contradição, nesse olhar foi que pus
esperança e paixão; esse é o bem que ele traz.

Sobre mim cai um véu, uma esfera que aduz,
esse sonho compus de certezas capaz...
Quero o afeto, pois não, a que bem faço jus,
mas que, sem mais razão, se me escapa, aliás.

Entre o mal e o bem, eis que sofro por ti
e não posso querer que me entendas porque,
se uma dor tão atroz não me deixa, eu aqui

compreendo o poder dessa força cruel.
Então ouve-me a voz, leia o que não se lê,
pois escuro se faz, de ora em diante, o meu céu...

Nilza Azzi

 
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Quem sabe?

“Tão longe, de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento ?" 
(Carlos Gomes /Bittencourt Sampaio)
 
Há momentos em que sou a labareda,
mas há outros de queimar, ser a fogueira;
pensamentos delicados, gota queda,
e tormentos, em que corro em cachoeira.

Há uma instância em que, brisa, eu sopro leve
e uma outra, em que eu chio, em vendaval.
Coração vai na batida em que não deve;
vez em quando, toma um ritmo normal.

Se descanso, como um lago em placidez,
me enfureço com estrondo em mar revolto;
chuva mansa que essa terra satisfez,

tempestade em que o estrago corre solto.
Uma coisa só não muda em mim, é certo:
é a saudade, por não ter você por perto!

Nilza Azzi

 
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!