Escritas

Lista de Poemas

Repique


Quando amanhece pelas bandas de Campinas,

quando o céu limpo da cidade é azul intenso,
quando o perfume do jardim recende a incenso,
é que me esqueço das tristezas vespertinas...

Como se a noite desfizesse o mundo denso,
como tirasse da lembrança as dores finas,
como se o dia solevasse as minhas sinas,
é que me vejo a carecer de um outro senso.

E, nessas contas de um balanço equivocado,
jamais encontro a solução do meu agrado,
pois tenho um saldo negativo que não cubro.

Ao confrontar-me com tristezas e alegrias,
vejo-me sempre com as mãos demais vazias.
– E outro poente engole o dia, exato e rubro.

Nilza Azzi
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Revendo as açucenas

Já não semeio flores nos canteiros
de rosas, ao raiar das madrugadas;
procuro por caminhos verdadeiros
e terras com visão mais elevada.

Se a luta recrudesce nos primeiros;
os últimos verão a derrocada,
a quebra dos esforços verdadeiros
e a honra que perece, como um nada.

Nas palmas e nos lírios... quanta glória
nos campos, em que crescem espontâneos,
e o branco sem pudor dessas camélias.

Descubro que a esperança já está velha
e tenta superar os desenganos;
remonta à decisão, já peremptória.

Nilza Azzi
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Sal da terra


Ora! Deixem que brilhem as estrelas,

a  respingar o espaço de incertezas!
Meus pobres olhos brilham só por vê-las,
porque sou só, sem forças, indefesa.
Se fosse a luz do olhar qualquer farol
e houvesse um porto em mim onde atracasse
um barco e, então, um só raio de sol
pudesse iluminar a minha face,
quem sabe fosse aquilo uma esperança
de ser a solidão coisa banal,
e a lágrima − essa gota que se lança 
a fim de revelar todo seu sal,

em brilhos de cristal a céu aberto −
a luz do olhar de Deus, quiçá mais perto.

Nilza Azzi
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Solidão


A antiga solidão, a que me atenho
e que gosta de mim, sem compaixão,
que enruga a testa e faz franzir o cenho,
eu não a quero junto a mim, oh, não!

Por conhecer os campos donde eu venho,
tira vantagem desta condição
e o meu esforço, lúcido e ferrenho,
não dá em nada, como nunca dão

minhas desculpas, para afugentá-la.
Bem instalada, neste quarto e sala,
meu coração, pequeno e confrangido,

não deixa a mim a escolha de ser só,
porque a presença dela cria um nó
ao preencher meu mundo sem sentido.

Nilza Azzi
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Sobrevida

Percorrer o campo vasto das palavras,
ter surpresas breves, sem sair da linha.
Entender as formas de expressão mais bravas,
perceber sem susto o quanto são daninhas

a indiferença e a força com que cravas,
na matéria instável feita de entrelinhas,
a forte ironia que me torna escrava
deste sofrimento, das tristezas minhas.

Esquecer que o Verbo foi antes da Luz
e temer que amar nos roube a lucidez,
mas tecer a teia além desse horizonte...

Enterrar no limbo aquilo que reduz
e comunicar ao mundo de uma vez:
− Sobrevive a voz (tão bem como era ontem).

Nilza Azzi
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Revelação


O que me dói mais fundo, com certeza,

no mundo da incerteza dos sentidos,
saber que a fome não faz gentileza
e torna a todos mais embrutecidos.

O que machuca a alma como um cravo
e escravo dos sentidos torna o corpo,
saber que incerto do saber que travo,
por certo deixarei o mundo, morto.

O que em vão desespera a má virtude,
um fato mais que certo, é a maldade
que atua devagar, mas tudo invade.

E nunca tenha eu cá convicções,
ao crer que em toda vida há finitude.
Que a cada decisão, decerto, eu mude.

Nilza Azzi
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Compasso

Há um momento em que cabe ao coração
a calma que precede a descoberta,
um tempo entre dormente e meio alerta,
aquele em que se acerta a pulsação...

É fato que a razão grita que não,
pois essa nunca foi a escolha certa!
Mas lá no coração a dor aperta,
não há como escapar à tentação.

Nem sempre entendo bem esse compasso,
vacilo, entre o que devo e o que faço,
não sei meu amanhã no que dará...

Há horas em que a calma regenera,
em outras, a ferida faz-me a fera,
na jaula, a caminhar pra lá e pra cá.

Nilza Azzi

 


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Ribalta

Pobre a alma que vagueia sem roteiro,
sem parceiro para ser seu ombro amigo,
traz consigo a solidão mais descabida
e duvida das trapaças do destino...

Os fantasmas vislumbrados vão velozes;
não há vozes que lhe sejam familiares
e os pesares, que carrega sobre os ombros,
são assombros já sem peso, são deslizes.

Não me avise destas ruas sem saída,
nem tolhida, seja a escolha que professo,
pois o excesso de opressão deixou-me louco!

Faço pouco, mas coloco o ser completo,
no trajeto por cumprir que ainda me falta
e a ribalta exibe um drama triste e nobre.

Nilza Azzi
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Sobre essa...

Caí sobre esta terra, um dia desses,
da abertura que Deus deixou pra mim,
nesse azul, desse céu que não tem fim,
e busquei, desde então, meus interesses.

Este chão que me acolhe fez-me assim,
criatura que a todos entendesse,
mas não sei de outro tipo como esse
que não olha pra baixo – aéreo, enfim.

É que a velha lembrança dos azuis,
a saudade dos tempos em que fui,
para além, desse espaço, na quimera,

poeira de uma estrela – se eu pudera! –
gera em mim essa eterna nostalgia
que não cedo e por nada cederia.

Nilza Azzi

 


 
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Súplica


Deixei pra trás qualquer desejo súbito,
de caminhar na estrada reta e única.
Me desviei, formei um novo hábito,
buscando compreender as leis da física.

Entendo as coisas, examino o ângulo,
deixando longe o meu pensar tão ázimo.
Procuro o equilíbrio desse pêndulo, 
onde possa alcançar o ponto máximo.

O teu olhar ao longe é uma bússola,
e ao ver teu vulto eu penso em nova tática...
O teu sorriso brilha como a pérola,

o som da tua voz parece música.
Do teu falar, eu não tiro uma vírgula
e peço o teu amor, em uma súplica.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!