Escritas

Lista de Poemas

Réquiem para um amor

Que não brilhem as palmeiras nas manhãs
e nem cantem sabiás pelos pomares.
E que o ar dissipe tudo que falares,
leve longe as tentativas falsas, vãs,

de fazer-me compreender os teus pesares.
Nossas almas já viveram como irmãs
e tivemos muitas horas campeãs,
mas a vida não tem linhas regulares.

Não soubemos preservar o relevante
e um do outro esquecemos, amiúde...
Se a tristeza é nossa sina doravante,

reconheço que não fiz tudo que pude
pelo amor que cada vez vai mais distante,
por desleixos e por falta de atitude.

Nilza Azzi
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Salto


A centelha que ilumina a cada um de nós

e impulsiona com firmeza a nossa evolução,
encaminha a nossa mente além do eu e, então,
nos ajuda a superar a dor de sermos sós.

É difícil de entender, pois de outra dimensão,
veio a Mônada habitar o ser profano e após
completar a experiência  e desfazer os nós
que vieram do passado – e aqui e agora estão –

poderá tirar proveito do que aconteceu,
(as lições que necessita) até que o apogeu
desta  lida lhe permita alçar-se a grau mais alto.

E da luz que ela concentra, aumenta e perpetua,
faz surgir o entendimento e abraça como sua
a missão de mergulhar no vácuo desse salto.

Nilza Azzi
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Sobre tempestades

Se eu permitisse à chuva que chorava
por sobre a terra a dor do céu ferido
e percebesse haver algum sentido
na solidão – e fosse eu mais brava

e enfrentasse a fera. Se movido
por minha dor, o céu soltasse a trava
e desse a mim aquilo que negava
e descobrisse um mundo colorido...

Se dessa luz, apenas uma gota
um pouco de alegria respingasse,
sobre o tecido desta vida rota,

– que outra impressão poria sobre a face! –
E a chuva choveria mais marota,
até que a dor do céu se abrandasse...

Nilza Azzi
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Retrato

Traz a gravata azul, sobre a camisa branca;
o terno, em tom escuro, é sóbrio e elegante
e pode-se entrever, na paz do seu semblante,
a força singular que o espírito alavanca.

A voz se sobressai e mostra o quanto é franca,
a sua inspiração e o grau de seu talante
voltado para o bem — um dom — e isso garante
discurso natural, que aplausos sempre arranca.

Embora a foto seja a forma irrevelada,
pois sobre o ser real, nos conta pouco ou nada,
detalhes da aparência e os trajes de um senhor,

— uma figura humana, envolta em seu mistério —
compõe em seu conjunto, um quadro sedutor,
retrato varonil, de um coração etéreo.

Nilza Azzi
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Reserva de domínio


O mar é azul e branco, transparente,
na mata, o verde brilha com vigor.
Não há agente externo a se interpor:
− A rude natureza não consente.

A ilha tem segredos a dispor,
a flora é variegada, diferente
daquela que recobre o continente:
−  A fauna ali procria sem temor.

Falésias em embates com as ondas,
as praias de uma areia branca e fina,
conchinhas delicadas e redondas...

Olhar a natureza nos ensina
a perceber em nós perpétuas rondas,
seladas pela mesma cromatina.

Nilza Azzi
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Reminiscência


Pela manhã, os campos são mais belos,
a brisa é fresca e o sol ainda não arde.
O dia cresce, vai fazendo alarde
e sob o céu, a vida tece anelos.

Meio do dia! Justo para a tarde,
lá vai o tempo  − faço meus castelos.
Assisto ao longe rápidos duelos;
não vejo em mim razão de ser covarde.

Boca da noite! Súbito, o poente,
a luz recolhe a sua cor dourada:
− Minha janela já contempla a Lua.

Quiçá amanhã, no leito indiferente,
venha a lembrar do quanto tu me agradas,
−  entanto uma saudade se insinua.

Nilza Azzi
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Charada


Inspirado vou eu ouvir som agoureiro,
se primeiro há em mim a intenção de fruir;
de sorrir pelo céu, esse azul de tinteiro
e me abeiro da paz, brancas nuvens, porvir.

Ao me abrir ao prazer, vejo ao longe um outeiro
e um aceiro contorna um farol a ruir...
Eis me a rir, gargalhar, pois me sinto fagueiro:
sou herdeiro do vento; ele é meu elixir...

A luzir, longe o mar, velas brancas, infladas
e as paradas da espuma a subir pela areia.
E se alteia uma onda, outra logo se quebra

e celebra a visão, alma assim nunca alquebra.
Se requebra esta voz, a balada que anseia,
desenleia este amor das antigas charadas.

Nilza Azzi
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Avença


Habita uma certeza, escancarada, intensa,
anzóis causam rubor –despenca a água – tingem
cascatas e explosão. No lago nada a virgem,
a flor, a pena, a encrenca, até que a mágoa vença

e o cálice repleto, a luz alada, a origem,
destruam de uma vez diques e frágua. Avença...
E o mar mais interior a gruta invada, extensa,
a praia sem calor onde deságua e cingem

em seixos, branca espuma ao derredor, na orla.
Presente ao longe a voz de uma sereia, imanta,
preenche o mar, o céu, de novo espanto. Crasso!

Informe, a ilusão se crê melhor no espaço,
infâmia que penetra e que permeia tanta
descrença de entender esse meu canto: – Borla!

Nilza Azzi
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Seca

A tarde chega ao fim; uma cigarra canta.
O vento leste traz no sopro alguma ajuda,
refresca esse calor, mas quase nada muda,
em relação ao mal estanque na garganta.

Choveu a tarde inteira; a chuva foi miúda.
As folhas derrubou em quantidade –  e tanta! 
Uma sibipiruna inteira está desnuda,
pois vai vestir a cor dourada que ataranta.

Enquanto não vem água, as plantas, por seu lado,
como último recurso e apelo por socorro,
exibem  sem pudor um luxo desvairado:

são flores a explodir o colorido em jorros
–  um meio de angariar olhares e cuidados –
na calma do jardim, por tudo que percorro.

Nilza Azzi

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Sal

Um dia, ela soprou ao meu ouvido
segredos, que guardara com cuidado,
de quem cura um tesouro que é sagrado
e traz em si cantares escondidos.

Parou, por algum tempo, lado a lado,
comigo, mas, depois, ah, que perigo,
largou-me só. Confesso: — Não consigo
livrar-me desse laço bem atado.

Procuro a bela dama em todo canto,
sonhando que me queira um outro tanto
e volte a estar comigo (eu bem queria!).

Porém no meu dizer, viva a poesia,
presença e atração tão natural,
que põe na minha vida o doce e o sal.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!