Lista de Poemas
Momentos
A tarde traz um céu de brilhos brancos,
varando o azul, produto da ilusão...
O frio é seco, a vida segue aos trancos
e as andorinhas rumo ao norte, vão.
Tão simples os sorrisos, quanto francos,
vou devagar, escolho a contramão;
já despenquei ladeiras e barrancos,
mas não me decidi por sim ou não...
Se o coração ainda tem perguntas,
descubro que respostas nascem juntas
e tudo se embaralha no horizonte.
Se o Sol já não se põe atrás de um monte,
em morte lenta, atrás dos prédios arde,
bem no momento exato, e nunca tarde.
Nilza Azzi
👁️ 166
Transformação
Um dia, eu me tornei a água que bebias
e pratiquei ser fonte, a saciar-te, pura;
em torno da nascente, apenas alegrias:
− a festa do querer é bela, enquanto dura.
Um dia, apenas um, eu fui a criatura
que, em mera repressão, negou-te o que sorvias
e, sim, a vida é má, é fato que se apura,
porque a dor preenche a luz e são vadias
as formas do prazer: − amores são volúveis...
Sofro. Não posso mais querer-te sem regresso,
fugiu a minha fé na nossa intimidade,
porém é fato, é certo, a dor intensa invade
meu ser que te deseja, em nível que não meço;
nem sempre são na água, os nossos ais, solúveis.
Nilza Azzi
e pratiquei ser fonte, a saciar-te, pura;
em torno da nascente, apenas alegrias:
− a festa do querer é bela, enquanto dura.
Um dia, apenas um, eu fui a criatura
que, em mera repressão, negou-te o que sorvias
e, sim, a vida é má, é fato que se apura,
porque a dor preenche a luz e são vadias
as formas do prazer: − amores são volúveis...
Sofro. Não posso mais querer-te sem regresso,
fugiu a minha fé na nossa intimidade,
porém é fato, é certo, a dor intensa invade
meu ser que te deseja, em nível que não meço;
nem sempre são na água, os nossos ais, solúveis.
Nilza Azzi
👁️ 29
Tormenta
A chuva cai batida, enquanto o céu desaba,
retalho e mais retalho, em sua cor cinzenta,
porém cada pedaço ainda traz de sobra,
um cinza mais escuro, além do que se aguenta.
Por sobre a terra escorre a chuva que soçobra,
em forma de enxurrada, escura e bem barrenta.
O que mandou ao céu, de volta, a terra cobra
e atrai aos seus lençóis os restos da tormenta.
Depois, tudo sossega e o céu pede uma trégua;
cansados do trabalho, o raio e seu clarão,
relâmpago e trovão descansam da folia,
tudo parece calmo, além, por muitas léguas.
Há uma pausa, um suspense e – de repente, então –
a chuva recomeça a chover, como havia...
Nilza Azzi
👁️ 174
Vaticínio
Se pudesse, nas palavras, derrubar-me,
como o faz a alma sobre um ser humano,
transformá-las qual o Verbo feito carne,
libertá-las do tom áspero e profano,
de tal forma a dar-lhes glória, encanto e charme...
E trouxesse o intenso fogo dos arcanos,
com os anjos nos seus carros a puxar-me,
concebendo um velho anseio soberano;
se tal dom assim tivesse, eu, poetisa,
qual semente espalharia em meu espaço,
no compasso deste mundo que escurece?
Diz meu estro que, a seu ver, nada divisa,
sem receio de abalar-me o ser escasso:
– Tu que és pó ousas sonhar com tal benesse!?
Nilza Azzi
como o faz a alma sobre um ser humano,
transformá-las qual o Verbo feito carne,
libertá-las do tom áspero e profano,
de tal forma a dar-lhes glória, encanto e charme...
E trouxesse o intenso fogo dos arcanos,
com os anjos nos seus carros a puxar-me,
concebendo um velho anseio soberano;
se tal dom assim tivesse, eu, poetisa,
qual semente espalharia em meu espaço,
no compasso deste mundo que escurece?
Diz meu estro que, a seu ver, nada divisa,
sem receio de abalar-me o ser escasso:
– Tu que és pó ousas sonhar com tal benesse!?
Nilza Azzi
👁️ 20
Tristeza de outono
Tarde de Outono! Tristes são os ares
que ainda não choraram minha mágoa,
inchados pela dor que não deságua,
são nuvens por demais irregulares.
Contemplo o horizonte, essa miragem,
percebo o cintilar de algumas luzes.
– Na linha divisória, me seduzes!
As brumas com as luzes interagem.
A vida esvaziou-se nesse enlevo
e jaz numa quietude de si mesma.
A voz desse silêncio que em mim esma
reflete um sentimento tão primevo.
O homem quer o que há de mais escasso
– prefere a flor que nasce no penhasco.
Nilza Azzi
que ainda não choraram minha mágoa,
inchados pela dor que não deságua,
são nuvens por demais irregulares.
Contemplo o horizonte, essa miragem,
percebo o cintilar de algumas luzes.
– Na linha divisória, me seduzes!
As brumas com as luzes interagem.
A vida esvaziou-se nesse enlevo
e jaz numa quietude de si mesma.
A voz desse silêncio que em mim esma
reflete um sentimento tão primevo.
O homem quer o que há de mais escasso
– prefere a flor que nasce no penhasco.
Nilza Azzi
👁️ 31
Vestígios
Um verso eu rabisquei na areia do deserto,
sabendo de antemão que o vento levaria,
palavra por palavra, além da areia fria,
até que não restasse a minha voz por perto.
No verso eu descrevi o quanto eu te queria
e como acreditei que amar pode dar certo.
A marca que deixei foi sob um céu aberto
e o mundo em que vivi vibrava em harmonia.
Porém como esperava, o vento ali soprou,
rasteiro, e foi levando a areia e, em cada grão,
desfez-se a minha voz, fugiu-me a força, então.
Quem sabe a brisa entregue, à areia que espalhou,
uns traços deste verso, e não de outro qualquer;
vestígios sem função do amor de uma mulher.
Nilza Azzi
👁️ 162
Versos brancos
A cal, o giz, o alvaiade, o gesso,
instâncias da matéria a fazer arte;
o branco que dispõe a sua parte,
por todos eles tenho muito apreço.
A cal higieniza e ao céu comparte,
revira nuvens brancas pelo avesso;
o gesso, modelado, enquanto espesso,
acaba por deixar belo arremate.
Pintar com alvaiade é muito prático:
o velho ganha ares de impecável;
em congas é eficaz e pragmático...
Porém, o giz faz tudo memorável,
bastão predestinado a uso didático,
riscava sobre o quadro um bem estável.
Nilza Azzi
instâncias da matéria a fazer arte;
o branco que dispõe a sua parte,
por todos eles tenho muito apreço.
A cal higieniza e ao céu comparte,
revira nuvens brancas pelo avesso;
o gesso, modelado, enquanto espesso,
acaba por deixar belo arremate.
Pintar com alvaiade é muito prático:
o velho ganha ares de impecável;
em congas é eficaz e pragmático...
Porém, o giz faz tudo memorável,
bastão predestinado a uso didático,
riscava sobre o quadro um bem estável.
Nilza Azzi
👁️ 27
Um pouco de sal
A caminhar tão lentamente (era a lesma),
espécie antiga, fadada à extinção,
deixava um rastro, um filete de si mesma,
sem vislumbrar mais premência... Tudo é vão!
Na insipidez de seu mundo sempre escuro,
no silêncio do buraco onde vivia,
naquele corpo indefeso e mal seguro,
sempre apartada, a fugir da luz do dia,
foi se arrastando... Porém, sem que esperasse,
no seu caminho encontrou uma barreira.
Tal molusco por não ter nenhuma face,
não tem noção da tragédia que se abeira:
sem perceber a razão, em si deságua;
some no sal, vira simples poça d’água...
Nilza Azzi
👁️ 159
Transição
Um anjo, uma mulher, bateu à minha porta,
com flores nos cabelos e uma forma alada.
Quisera que ficasse (o tempo não importa)
e uma tarde qualquer, me desse a mão e nada
pudesse coibir que a trilha, embora torta,
surgisse à frente firme, em luz clara e dourada.
Na sua companhia, o amor sempre conforta
e a tepidez do abraço anula a madrugada.
Mas nunca coube a mim, ditar-lhe: “- Agora escolha!”
Apenas quis fruir do canto, um certo gozo,
enquanto perdurou, a ligação fatal.
Não posso reclamar, pois nunca me fez mal,
porém partiu, deixou-me em círculo vicioso,
em volta da Poesia: − a pétala e uma folha.
Nilza Azzi
👁️ 173
Forrageira
Na raiz da tua ausência habita a desventura,
um espaço sucedâneo, em que a dor perfilha.
Faz-se abismo sem limite, estende-se armadilha,
negro charco onde desliza, além da terra escura.
Se nos campos do passado, andei por essa trilha,
reconheço, intermitente, a linha mais escura.
Não sabendo onde andar, busquei tua ternura,
mas, soberbo, me deixaste – a forrageira ervilha.
Com a falta que me faz a palma de um abraço,
eu preencho a composteira e grande esforço faço,
pra viver sem esse amor, ao qual me dei inteira.
É verdade que a colheita enfeita qualquer feira,
mas, daquela sementeira, herdei meu embaraço
e do pobre coração, as fibras despedaço.
Nilza Azzi
um espaço sucedâneo, em que a dor perfilha.
Faz-se abismo sem limite, estende-se armadilha,
negro charco onde desliza, além da terra escura.
Se nos campos do passado, andei por essa trilha,
reconheço, intermitente, a linha mais escura.
Não sabendo onde andar, busquei tua ternura,
mas, soberbo, me deixaste – a forrageira ervilha.
Com a falta que me faz a palma de um abraço,
eu preencho a composteira e grande esforço faço,
pra viver sem esse amor, ao qual me dei inteira.
É verdade que a colheita enfeita qualquer feira,
mas, daquela sementeira, herdei meu embaraço
e do pobre coração, as fibras despedaço.
Nilza Azzi
👁️ 36
Comentários (4)
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petrillipoesia
2020-03-23
Belos sonetos!
sergios
2020-01-23
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
filipemalaia
2019-12-31
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
2019-08-02
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!
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