Lista de Poemas
Vocabulário
A tua volta, a lua, o rio frio...
O paraíso em que vivi aéreo
era o Saara, o meu mundo vazio,
a minha aorta, em que corre o mistério.
Não foi ciúme a causa do arrepio,
ou a lembrança daquele impropério.
Velho baú – o meu olhar desvio,
pois um segredo é sempre um caso sério.
À crua luz do Sol, eu descaído,
pela baía a praia vai deserta,
uma embaúba em prata mais além...
Aos que descreem tudo é permitido
perdoo então a indiferença aberta.
− Um caapora me olha com desdém.
Nilza Azzi
O paraíso em que vivi aéreo
era o Saara, o meu mundo vazio,
a minha aorta, em que corre o mistério.
Não foi ciúme a causa do arrepio,
ou a lembrança daquele impropério.
Velho baú – o meu olhar desvio,
pois um segredo é sempre um caso sério.
À crua luz do Sol, eu descaído,
pela baía a praia vai deserta,
uma embaúba em prata mais além...
Aos que descreem tudo é permitido
perdoo então a indiferença aberta.
− Um caapora me olha com desdém.
Nilza Azzi
👁️ 35
Terror augusto
Eu vi a face de um país de horror,
feito de dor e sofrimento atrozes
e do lamento de infinitas vozes;
mundo de fogo e fel – assustador.
Vi na aparência estranha dos algozes,
nos olhos fundos do observador,
todo o castigo duro e destrutor;
restos e espectros trágicos, ferozes.
E foi o mal de ver, feito uma espada,
cortando a minha carne, até que nada,
em mim, não fosse chaga ou louco espanto;
como saber que a vida dói, mas tanto
que o fato de morrer me fosse apenas
um descansar do horror e dessas cenas.
Nilza Azzi
👁️ 121
Vênus exilada
O quanto peque em versos, sem qualquer talento,
tentei fugir de ti poesia malfadada,
seguir outro caminho, andar por outra estrada.
Ah! sim, pensei deixar-te, o sonho que alimento,
a nuvem de meu estro, a linha alinhavada,
o mundo circunflexo, o estrato e o sedimento,
o meu querer pesado, o coração ciumento
e a dor de bem saber a letra da toada...
Da mesma forma eu quis, do amor passar ao largo,
pois tem muito em comum, a saga das paixões,
e paguei um a um os meus pecados tolos.
Já não sei mais dizer se foi por culpa ou dolo
− e saberias tu, se os limites transpões −
que perdi meu amor, o meu vate, o meu bardo!?
Nilza Azzi
👁️ 161
Vacilar
Talvez eu passe pelas ruas que passeias
e nem perceba algum sinal dos passos teus.
Talvez o sangue que me corre pelas veias
já não se altere quando lembro nosso adeus.
Vejo as aranhas a tecerem suas teias;
chega um inseto, distraído, ao coliseu,
e se debate, sem jamais vencer as peias.
― Ai quem me dera escapulir dos laços meus!
Se devo ao Sol que iluminou nosso caminho,
e que passeia solitário pelo céu,
essa ilusão de ter um tempo à minha frente,
é que ele mostra a realidade diferente:
Semeia em mim a crença num amor fiel
― um contrassenso ― uma falácia onde chapinho...
Nilza Azzi
e nem perceba algum sinal dos passos teus.
Talvez o sangue que me corre pelas veias
já não se altere quando lembro nosso adeus.
Vejo as aranhas a tecerem suas teias;
chega um inseto, distraído, ao coliseu,
e se debate, sem jamais vencer as peias.
― Ai quem me dera escapulir dos laços meus!
Se devo ao Sol que iluminou nosso caminho,
e que passeia solitário pelo céu,
essa ilusão de ter um tempo à minha frente,
é que ele mostra a realidade diferente:
Semeia em mim a crença num amor fiel
― um contrassenso ― uma falácia onde chapinho...
Nilza Azzi
👁️ 28
Vapores
A Lua derrubou-se pelas matas
e a vida, ali presente, em rebuliço,
mostrou que as criaturas, mesmo as fracas,
repetem seu papel eterno e, nisso,
em tudo, o fato é novo, embora igual...
As noites já beberam muitas luas,
mil sóis fazem do sonho algo real
– não há verdade eterna, minha ou tua.
Nas névoas pretensiosas do futuro,
nos ares deslizantes do passado,
o canto do planeta é claro-escuro;
o encanto de seu par, privilegiado.
No brilho desses raios sempre etéreos,
o bosque guarda cheiros e mistérios.
Nilza Azzi
e a vida, ali presente, em rebuliço,
mostrou que as criaturas, mesmo as fracas,
repetem seu papel eterno e, nisso,
em tudo, o fato é novo, embora igual...
As noites já beberam muitas luas,
mil sóis fazem do sonho algo real
– não há verdade eterna, minha ou tua.
Nas névoas pretensiosas do futuro,
nos ares deslizantes do passado,
o canto do planeta é claro-escuro;
o encanto de seu par, privilegiado.
No brilho desses raios sempre etéreos,
o bosque guarda cheiros e mistérios.
Nilza Azzi
👁️ 26
Turbulência
Já me encontrei perdida em meio à turba.
Mal me trouxe de volta até meu canto,
já me perdi em vã tristeza e, tanto,
sem superar a dor que me perturba,
e não me vi, senão com grande espanto,
sorver da paz. Basta que o tempo urda,
na solidão de uma esperança surda,
um mal de amor: - Dizer, eu não sei quanto!
Não sei contar sobre a descida ao poço,
mas ao puxar a corda e ver a draga
faltou vontade de beber tal água.
A grande sede, bem contida, trago-a,
enquanto aguardo e a sorte não me afaga,
não mais me perco em meio a um alvoroço.
Nilza Azzi
👁️ 189
Taças
A taça em que borbulha um claro vinho – e leve –
aquele em que bebeste as seivas de um afeto,
transpira em névoa branca, o excesso, mas não deve
perder de sua essência, o olor de que é repleto.
Passou aquele instante, a febre intensa e breve
e em luta contra tudo, estranho a tal projeto,
juntaste amor e dor nas páginas que escreves,
fingindo indiferença, o escudo predileto.
A taça que versou o vinho sobre a blusa,
que umedeceu o colo e pôs a desmaiar,
a jovem que cruzou o teu olhar, confusa,
conserva por inteiro as curvas de teu sonho,
retém no seu cristal um brilho de luar,
reflete na memória um souvenir risonho.
Nilza Azzi
👁️ 150
Última visão
Éramos dois, num dia tão distante;
um mundo em flor, as ruas do mercado!
Quem vai saber por que não fui adiante,
pois me perdi – caminho equivocado.
Éramos dois, na busca de um instante
em que um triunfo fosse declarado,
mas a vontade não é o que garante
chegarmos sempre ao mesmo resultado.
Longe daqui, montanhas do Marrocos
serão teu lar, cobrindo o horizonte,
um pôr-do-sol, a cena ali defronte?
Não sei prever se vou morrer na praia;
– órfã da luz e sem amor, sufoco –
o mar traz ondas brancas, num só bloco.
Nilza Azzi
👁️ 135
Versos de um domingo
O rio desce tranquilo da montanha;
com calma, escorre as águas cristalinas,
mas quando chove muito ele se assanha
e invade, além das margens, as campinas.
E a força da torrente é tal, tamanha
a callha da enxurrada, que termina
por revolver o saibro; a água ganha
a cor barrenta e arrasta a areia fina.
À beira de um remanso, vendo a cena,
o olhar perdido, a alma, então serena,
transmite para o corpo um sobressalto.
Relembra de beber da água mais pura,
do tempo em que o amor era ventura,
de quando o coração fremia, incauto.
Nilza Azzi
👁️ 128
Feitiço
Eu tenho as mãos geladas, olhos baços,
sem ti, o mundo, inerte, perde o viço
e a vida se desfaz num tom mortiço;
sem ti, tudo me escapa, faltam laços...
Os dias vão e vêm e nem por isso
serão os meus desejos mais escassos,
nas horas que me escapam aos pedaços,
sem graça, pois me falta o teu feitiço.
A noite chega cheia de arrepios,
mas sonho que divido a minha cama
contigo, que teu corpo por mim clama,
porém meu leito assoma em seus vazios
e sem o teu calor não tenho nada:
— A noite é uma esperança esfarrapada.
Nilza Azzi
👁️ 139
Comentários (4)
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petrillipoesia
2020-03-23
Belos sonetos!
sergios
2020-01-23
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
filipemalaia
2019-12-31
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
2019-08-02
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!
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