Lista de Poemas
Crenças
Diz-se que tudo que é demais enjoa,
então, do amor eu quero ter distância,
de forma que eu me afogue nesta ânsia
e saiba amar, tão leve, qual garoa
que vem do céu e o beija suave e mansa.
Ah, quem me dera fosse sempre boa,
essa emoção, e nunca fosse breve,
como a ilusão que a tudo circunscreve.
E, se a minha alegria dura pouco,
eu, por ser pobre, peço-te uma esmola:
– Vem compreender o sentimento louco
que a alma inteira, pouco a pouco esfola,
e, assim agindo, eu não sinta, tampouco,
a indiferença que me desconsola...
Que no vazio intenso desta hora
caiba um verão que chega e vai embora.
Se, no entanto, o sol nasce para todos,
vou guardar alguns raios com cuidado,
evitar sucumbir aos vis engodos,
e manter esse amor mui bem guardado:
– A pureza de um lírio sobre o lodo,
é a vitória de um ser sobre o seu fado...
E quando um dia, o amor exigir mais,
que apenas eu perceba seus sinais.
E saiba amar, tal qual uma garoa
que cai do céu, mas desce sempre mansa.
Nilza Azzi
então, do amor eu quero ter distância,
de forma que eu me afogue nesta ânsia
e saiba amar, tão leve, qual garoa
que vem do céu e o beija suave e mansa.
Ah, quem me dera fosse sempre boa,
essa emoção, e nunca fosse breve,
como a ilusão que a tudo circunscreve.
E, se a minha alegria dura pouco,
eu, por ser pobre, peço-te uma esmola:
– Vem compreender o sentimento louco
que a alma inteira, pouco a pouco esfola,
e, assim agindo, eu não sinta, tampouco,
a indiferença que me desconsola...
Que no vazio intenso desta hora
caiba um verão que chega e vai embora.
Se, no entanto, o sol nasce para todos,
vou guardar alguns raios com cuidado,
evitar sucumbir aos vis engodos,
e manter esse amor mui bem guardado:
– A pureza de um lírio sobre o lodo,
é a vitória de um ser sobre o seu fado...
E quando um dia, o amor exigir mais,
que apenas eu perceba seus sinais.
E saiba amar, tal qual uma garoa
que cai do céu, mas desce sempre mansa.
Nilza Azzi
👁️ 37
Desapontos
O ponto aponta o espanto do fim
e deixa perguntas suspensas.
Com o ar quente dos meus pulmões,
sussurrei palavras ao teu ouvido.
Quisera convencer-te
de que o amor é quente, como palavras sopradas
saindo de dentro da vida pulsante.
Desde que o mundo era para mim pequeno,
conversava com vidraças embaçadas em dias frios:
talvez já sonhasse contigo...
Porém, de nenhum desses trens expressos
desceste ao meu encontro.
Claro, certa vez houve aquele bilhete prematuro;
papel amarelado que passou do tempo de um contato.
Um dia acreditei que o Vento Norte
era um terrível feiticeiro, capaz de levar embora o meu desejo;
aquele que eu colocara em palavras desenhadas,
mas ele soprou sobre o papel branco
e sujou meu vestido de domingo.
Desde que o mundo foi tão vasto que te levou para longe,
paro no meio da chuva
e na solidão do vidro embaçado do meu carro
digo palavras que não podem alcançar-te.
Nilza Azzi
e deixa perguntas suspensas.
Com o ar quente dos meus pulmões,
sussurrei palavras ao teu ouvido.
Quisera convencer-te
de que o amor é quente, como palavras sopradas
saindo de dentro da vida pulsante.
Desde que o mundo era para mim pequeno,
conversava com vidraças embaçadas em dias frios:
talvez já sonhasse contigo...
Porém, de nenhum desses trens expressos
desceste ao meu encontro.
Claro, certa vez houve aquele bilhete prematuro;
papel amarelado que passou do tempo de um contato.
Um dia acreditei que o Vento Norte
era um terrível feiticeiro, capaz de levar embora o meu desejo;
aquele que eu colocara em palavras desenhadas,
mas ele soprou sobre o papel branco
e sujou meu vestido de domingo.
Desde que o mundo foi tão vasto que te levou para longe,
paro no meio da chuva
e na solidão do vidro embaçado do meu carro
digo palavras que não podem alcançar-te.
Nilza Azzi
👁️ 24
Em espelho
Desenhava teu nome
a bico de pena
letra por letra
(na época do nanquim)
e a caligrafia
tinha contornos precisos
como se o amor
coubesse em definições
Nilza Azzi
👁️ 29
Chuva graúda
Cai chuva grossa, como o desespero,
que rói por dentro e traz desassossego,
como o trovão que nunca vem primeiro,
que manda o raio e nos envolve em medo,
até se ouvir o estrondo verdadeiro.
É temporal que assusta tarde ou cedo;
o vento forte é sempre um exagero
que causa estrago e deixa o mundo quedo.
Quem sabe a mim a chuva, assim, revela,
na fúria estranha e louca igual a ela...
Nilza Azzi
que rói por dentro e traz desassossego,
como o trovão que nunca vem primeiro,
que manda o raio e nos envolve em medo,
até se ouvir o estrondo verdadeiro.
É temporal que assusta tarde ou cedo;
o vento forte é sempre um exagero
que causa estrago e deixa o mundo quedo.
Quem sabe a mim a chuva, assim, revela,
na fúria estranha e louca igual a ela...
Nilza Azzi
👁️ 30
Há...
Há um céu azul, além do azul
nos lúbricos caminhos da ventura
algures, nas alturas do eu perdido
do espanto e do não-ser...
Há zunidos estranhos e sem sentido
nos bosques quietos, recônditos
onde liberdade não é uma palavra
e nada pode ser chamado de loucura
lá, onde o amado planta sonhos
que florescerão no tempo certo
Há um mar profundo, além do mar
no desatino das viagens cegas
ao largo dos pesados continentes
em pacíficas e ensolaradas ilhas
de pureza e de segredos...
Há falésias afagadas pelas ondas
e murmúrios desse mar
nas entranhas dos rochedos
onde o que se guarda é poesia
na mais pura das misturas
Há um precipício, um largo precipício
na ebulição do desespero criador
e nesse centro tudo brilha e tudo morre
Nilza Azzi
👁️ 34
flash
na verdade
a violência das águas
produz energia
se corressem mansas
seria apenas o escuro
nilza azzi
👁️ 40
Conversa com a Lua
Eu converso com a Lua,
perdida a vagar no céu.
Ela procura uma rua
e ilumina, rompe o véu
da neblina, fina ainda,
e deixa passar seus raios.
Essa visagem é linda!
Faço os primeiros ensaios
de um dueto ao luar;
a lua e eu a dançar.
A luz suave acompanha
os passos da minha dança
e a cena à frente ganha
nuances de semelhança
com um quadro surreal.
Ó Lua, só tu e eu
sabemos o que é vagar,
nessa noite sem igual.
Ó Lua, a noite escondeu
o que estive a procurar.
Nilza Azzi
👁️ 49
Ela escrevia assim
Tenho as palavras à mão,
mas não sei lidar com elas...
Sem meu estro, sou apenas
extravagante impressão.
Num espaço sem fronteiras,
abeira-me a solidão.
Nestes versos me desfaço;
deixo manchas no papel,
mas meu céu é sempre baço.
Sim, disfarço nas medidas,
em loucuras, contrassenso;
repenso tudo outra vez.
Vou queimando as letras todas,
em cortinas de fumaça
e ultrapassa-me a vontade
de essa verdade esconder.
Toda terra tem seu sol;
toda lua, a poesia,
mas meu dia, sem farol,
é maldade sem sentido.
Corto o verbo; não olvido...
Ah! Teimosa poesia
vai e fala mal de mim:
– Ela escrevia assim... vazia...
(inocente desse amor)
gastou-se, sem me esquecer.
Nilza Azzi
mas não sei lidar com elas...
Sem meu estro, sou apenas
extravagante impressão.
Num espaço sem fronteiras,
abeira-me a solidão.
Nestes versos me desfaço;
deixo manchas no papel,
mas meu céu é sempre baço.
Sim, disfarço nas medidas,
em loucuras, contrassenso;
repenso tudo outra vez.
Vou queimando as letras todas,
em cortinas de fumaça
e ultrapassa-me a vontade
de essa verdade esconder.
Toda terra tem seu sol;
toda lua, a poesia,
mas meu dia, sem farol,
é maldade sem sentido.
Corto o verbo; não olvido...
Ah! Teimosa poesia
vai e fala mal de mim:
– Ela escrevia assim... vazia...
(inocente desse amor)
gastou-se, sem me esquecer.
Nilza Azzi
👁️ 74
Viés
olho os teus poemas
com olhos de través
cortando as palavras
num viés bem comprido
num mergulho indefeso
nos jogos de sentido
barco sem leme
entre luas e corujas
e mares e pontes
e o coração que treme
Nilza Azzi
com olhos de través
cortando as palavras
num viés bem comprido
num mergulho indefeso
nos jogos de sentido
barco sem leme
entre luas e corujas
e mares e pontes
e o coração que treme
Nilza Azzi
👁️ 118
Voltas
Quanto mais, quanto menos te vejo,
mais percebo a doçura que falta
no meu dia, na noite, no ensejo
desse olhar cuja ausência ressalta.
Quanto enlevo nos ais dos cortejos,
e outros mais nas conquistas em alta.
Quanto amor eu não cri benfazejo
e por menos larguei sobre a pauta.
Se esta rua dirige-se ao cais,
a medida dos passos que avanço
não permite chegar ao seu fim.
Há tristezas que vivem em mim,
sem a trégua de um mero descanso,
sem um ponto de fuga, jamais.
Nilza Azzi
👁️ 167
Comentários (4)
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petrillipoesia
2020-03-23
Belos sonetos!
sergios
2020-01-23
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
filipemalaia
2019-12-31
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
2019-08-02
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!
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