Escritas

Lista de Poemas

Crenças

Diz-se que tudo que é demais enjoa,
então, do amor eu quero ter distância,
de forma que eu me afogue nesta ânsia
e saiba amar, tão leve, qual garoa
que vem do céu e o beija suave e mansa.
Ah, quem me dera fosse sempre boa,
essa emoção, e nunca fosse breve,
como a ilusão que a tudo circunscreve.

E, se a minha alegria dura pouco,
eu, por ser pobre, peço-te uma esmola:
– Vem compreender o sentimento louco
que a alma inteira, pouco a pouco esfola,
e, assim agindo, eu não sinta, tampouco,
a indiferença que me desconsola...
Que  no vazio intenso desta hora
caiba um verão que chega e vai embora.

Se, no entanto, o sol nasce para todos,
vou guardar alguns raios com cuidado,
evitar sucumbir aos vis engodos,
e manter esse amor mui bem guardado:
–  A pureza de um lírio sobre o lodo,
é a vitória de um ser sobre o seu fado...
E quando um dia, o amor exigir mais,
que apenas eu perceba seus sinais.

E saiba amar, tal qual uma garoa
que cai do céu, mas desce sempre mansa.

Nilza Azzi

 
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Desapontos

O ponto aponta o espanto do fim
e deixa perguntas suspensas.
Com o ar quente dos meus pulmões,
sussurrei palavras ao teu ouvido.
Quisera convencer-te
de que o amor é quente, como palavras sopradas
saindo de dentro da vida pulsante.
Desde que o mundo era para mim pequeno,
conversava com vidraças embaçadas em dias frios:
talvez já sonhasse contigo...
Porém, de nenhum desses trens expressos
desceste ao meu encontro.
Claro, certa vez houve aquele bilhete prematuro;
papel amarelado que passou do tempo de um contato.
Um dia acreditei que o Vento Norte
era um terrível feiticeiro, capaz de levar embora o meu desejo;
aquele que eu colocara em palavras desenhadas,
mas ele soprou sobre o papel branco
e sujou meu vestido de domingo.
Desde que o mundo foi tão vasto que te levou para longe,
paro no meio da chuva
e na solidão do vidro embaçado do meu carro
digo palavras que não podem alcançar-te.

Nilza Azzi
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Em espelho


Desenhava teu nome
a bico de pena
letra por letra
(na época do nanquim)
e a caligrafia
tinha contornos precisos
como se o amor
coubesse em definições

Nilza Azzi

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Chuva graúda

Cai chuva grossa, como o desespero,
que rói por dentro e traz desassossego,
como o trovão que nunca vem primeiro,
que manda o raio e nos envolve em medo,
até se ouvir o estrondo verdadeiro.
É temporal que assusta tarde ou cedo;
o vento forte é sempre um exagero
que causa estrago e deixa o mundo quedo.
Quem sabe a mim a chuva, assim, revela,
na fúria estranha e louca igual a ela...

Nilza Azzi

 
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Há...


Há um céu azul, além do azul
nos lúbricos caminhos da ventura
algures, nas alturas do eu perdido
do espanto e do não-ser...
Há zunidos estranhos e sem sentido
nos bosques quietos, recônditos
onde liberdade não é uma palavra
e nada pode ser chamado de loucura
lá, onde o amado planta sonhos
que florescerão no tempo certo

Há um mar profundo, além do mar
no desatino das viagens cegas
ao largo dos pesados continentes
em pacíficas e ensolaradas ilhas
de pureza e de segredos...
Há falésias afagadas pelas ondas
e murmúrios desse mar
nas entranhas dos rochedos
onde o que se guarda é poesia
na mais pura das misturas

Há um precipício, um largo precipício
na ebulição do desespero criador
e nesse centro tudo brilha e tudo morre

Nilza Azzi
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flash


na verdade

a violência das águas
produz energia

se corressem mansas
seria apenas o escuro

nilza azzi
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Conversa com a Lua


Eu converso com a Lua,

perdida a vagar no céu.
Ela procura uma rua 
e ilumina, rompe o véu
da neblina, fina ainda,
e deixa passar seus raios.
Essa visagem é linda!
Faço os primeiros ensaios
de um dueto ao luar;
a lua e eu a dançar.

A luz suave acompanha
os passos da minha dança
e a cena à frente ganha
nuances de semelhança
com um quadro surreal.
Ó Lua, só tu e eu
sabemos o que é vagar,
nessa noite sem igual.
Ó Lua, a noite escondeu
o que estive a procurar.

Nilza Azzi 
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Ela escrevia assim

Tenho as palavras à mão, 
mas não sei lidar com elas...
Sem meu estro, sou apenas 
extravagante impressão.
Num espaço sem fronteiras, 
abeira-me a solidão.
Nestes versos me desfaço; 
deixo manchas no papel,
mas meu céu é sempre baço. 
Sim, disfarço nas medidas,
em loucuras, contrassenso; 
repenso tudo outra vez.
Vou queimando as letras todas, 
em cortinas de fumaça
e ultrapassa-me a vontade 
de essa verdade esconder.
Toda terra tem seu sol; 
toda lua, a poesia,
mas meu dia, sem farol, 
é maldade sem sentido.
Corto o verbo; não olvido... 
Ah! Teimosa poesia
vai e fala mal de mim: 
– Ela escrevia assim... vazia...
(inocente desse amor) 
gastou-se, sem me esquecer.

Nilza Azzi
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Viés

olho os teus poemas
com olhos de través
cortando as palavras
num viés bem comprido
num mergulho indefeso
nos jogos de sentido
barco sem leme
entre luas e corujas
e mares e pontes
e o coração que treme

Nilza Azzi
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Voltas


Quanto mais, quanto menos te vejo,
mais percebo a doçura que falta
no meu dia, na noite, no ensejo
desse olhar cuja ausência ressalta.

Quanto enlevo nos ais dos cortejos,
e outros mais nas conquistas em alta.
Quanto amor eu não cri benfazejo
e por menos larguei sobre a pauta.

Se esta rua dirige-se ao cais,
a medida dos passos que avanço
não permite chegar ao seu fim.

Há tristezas que vivem em mim,
sem a trégua de um mero descanso,
sem um ponto de fuga, jamais.

Nilza Azzi

 
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!