Escritas

Lista de Poemas

partidas

voa bem longe e deixa
a minha alma confusa
abre as asas com vontade
olha a terra das alturas
bebe da aragem fresca
viaja o céu infinito

vai pelo espaço azulado
onde a beleza te acusa
de intrepidez e ousadia
e colhe algumas estrelas
atrás dessas nuvens tolas
para bordar teus lençóis

segue livre e sem escolta
mas lembra de mim e volta

nilza azzi
👁️ 37

Alma devoluta

Não houve dor nenhuma
e, por que não dizer?
Houve sequer saudade...

Antes houvesse
a força da tristeza
e justificativas para a ausência
que enlouquece os dias
e rouba a qualquer céu
a espessa cor azul
e a qualquer noite
o brilho das estrelas.

Nilza Azzi

 
👁️ 45

Terra nova

Eu não suporto ver a terra seca
sem umidade, sem sinal de vida;
poeira inútil dentro da ampulheta,

qual matéria inorgânica e perdida.
Coisa mais linda, quando a terra escura
está molhada e vibra, colorida;

mostra sinais de alguma criatura,
por mínima que seja e uma formiga
ou lagarta passeia, enquanto dura

seu tempo de sair ao sol, ao céu,
em busca de um bocado de alimento,
sem que uma ave a leve ao beleléu...

A secura da terra é-me um tormento
e minh’alma acredita que sem água,
o coração também sofre sedento;

nem mesmo irá chorar, verter a mágoa
e lamentar o mal de estar sozinho,
porque, se há dor, um dia ela deságua.

Mas quando lembro a força do carinho
que posso ter e vejo esse deserto,
onde sem água, triste e só, caminho,

apenas quero, um dia, estar mais perto
da nascente translúcida e sonora,
onde o sonho não seja mais incerto,

mas verdadeiro a cada nova aurora.

Nilza Azzi
👁️ 19

Ao sabor da brisa

Nas manhãs mais puras,
quando o dia ainda não foi corrompido,
murmuro algum segredo ao teu ouvido.

O orvalho ainda se aquece
nas flores das goiabeiras,
que migraram para as ruas de meu bairro.

Teu olhar azul
põe em mim doce moldura;
o céu dá sentido às copas das paineiras.

Nessas manhãs em que parece outono,
e o vento apenas beija folhas verdes,
é que me pergunto, sem querer,
o que é a cor...

Um tijolo grita
de um muro qualquer
— Já não sou mais o barro natural!

Mais perto de mim,
três letras dançam no ar sereno
e pedem abrigo até a primavera.

Há uma pausa breve —
o vento ainda passeia
e vai levando pra bem longe
toda angústia que há em mim.

Enquanto toca, o sino faz tilintar as pedras,
vai dizendo — Acorda! — e ouve
o som dessa harmonia ao teu redor.

Um cachorro late ao longe;
tu me tomas pela mão.

É quando me pergunto sem querer:
— O que é o amor?

Nilza Azzi
👁️ 72

Ainda, um gato amarelo

Suzana pegou seu gato
foi pro fundo do quintal
e pensou: − Não... não faz mal
que o gato seja amarelo.
Seu pelo vale um libelo
mas eu defendo essa cor
que lembra o Sol e o Verão
e a solidão vai embora,
quando em sua companhia
passeio entre os canteiros
a olhar as margaridas.

O gato, sempre sabido,
entendia bem Suzana
e cochichou: − Desencana,
o mundo é mesmo intrigante!

Nilza Azzi
👁️ 33

Visita

Quando, nas madrugadas, o silêncio
da minha sala enche o espaço mudo,
do céu escuro, dos confins extensos,
surgem fantasmas, sombras de veludo,
a evolar-se pelo ar, como os incensos.
A forma transparente envolve tudo
num halo triste; cobre o mundo denso.

Seria a poesia quem visita,
vestida de mistérios, de segredos,
a solidão eterna da alma aflita?
Tão doce, faz brilhar meus olhos quedos,
a sílfide atraente, assim bendita,
que afasta para longe os velhos medos
e traz a inspiração, e eleva, e agita...

Temente de que o dia a leve embora,
fecho as janelas, logo apago a luz,
cerro meus olhos, repudio a aurora,
pois a visão da deusa me seduz.
Busco as palavras, pois ela me escora;
à  sua bênção quero fazer jus
e escrevo versos, como o faço agora.

Nilza Azzi
👁️ 20

Frieza

Na poesia das madrugadas me ofereces,
sem sol, palavras emboloradas.
Qualquer vida real, inatingível,escapa.

Onde vive o pastor dos dias verdes,
roupas no varal, vento fresco,
juventude das flores, frutos sumarentos?

Trago-te em raios de luar, luzes néon,
bosques nevoentos, corações partidos,
laços desfeitos... e solidão, perfídia.

Montanhas sumiram no ventre do planeta,
solo, plano horizonte sempre além... além.

O lago, em que banhas o corpo excelso,
é fonte que concede perfeição. Hesito
ante a fragrância estonteante ao teu redor, ante
desdobramentos espelhados nessas águas míticas.

Quero beber da fecundidade sempre pródiga;
voltas a mim o frio do teu olhar indiferente.

Nilza Azzi
👁️ 31

As vozes da floresta

Já no princípio soprava a brisa; o vento
beijava os brotos mais tenros na floresta
e o sussurro da folhagem, calmo, lento,
perpassava o meu caminho, em meio desta
profusão de odores, sons, que experimento.
A flora abriga a poesia e manifesta,
sem voz alguma, a beleza mais perfeita:
– A luz da tarde é uma noiva que se enfeita

No calor, enquanto as folhas guardam sumos,
o cheiro evapora e sobe. Nessa altura,
com meu cão adiante, novos sons reúno;
comprovo o sabor de uma fruta madura.
O ar parado, pesado e mais soturno
reforça por fim o vazio... Quem procura
saber quanto é dura essa trilha tão negra?
O chão mais crestado não segue uma regra.

Vem o outono. Tudo estala em luz cinérea;
galhos quebram, quando secos, sem função,
e no chão compõem a cama de matéria,
num ruído quase nulo, em razão
do processo que penetra a terra e fere-a,
preparando-a para as neves que virão.
Onde piso, já não deixo mais pegadas:
– folhas caem – a conversa está eivada.

Quando a neve pesa firme sobre as copas,
sobre os galhos, cria um tempo amortecido
e seguindo, inda uma vez, a mesma rota,
o silêncio é poesia sem ruído.
Folha a folha, o choro dela se desloca;
no meu imo, dor escura consolido.
Vários ciclos tem a senda e, afinal,
na floresta vivem juntos bem e mal.

Nilza Azzi
#sextina real
👁️ 64

Espiral

Quando tudo me parece sem graça
giro em círculos de tédio transitório
mas nunca volto ao ponto de partida
vou sempre mais longe alargando as distâncias
e o centro, o eixo, sobra apenas
como breve referência.

A vida vai subindo em graus
em curvas ascendentes
a morte vai descendo na contracorrente
nada se toca nesses caminhos
que embora próximos são tão contrários.

Quando tudo me parece sem sentido
não há poesia que me satisfaça
não acho graça nessa nobre arte
as palavras são cruéis, duras e secas
o gosto da verdade é amargo e...
não existe poesia ao sul da minha mente.

Nilza Azzi
👁️ 29

Chuva de beijos

Se eu fosse beijar teu rosto,
tal chuva (uma alegoria!),
te olharia e, isto posto,
por onde eu começaria?
Pela testa, lá no alto,
pela raiz dos cabelos;
não chegaria de assalto,
deslizaria em desvelos...

Sentiria a tua pele
e desfaria a tensão;
seguiria o que me impele,
como chuva de verão.
Lavaria os olhos teus
das tristezas e seria,
como o fim de algum adeus,
arco-íris e alegria...

E qual gota se eterniza
cristalina e vacilante,
beleza clara e precisa
suspensa no breve instante,
banharia o rosto inteiro
com meus beijos, feito pingos
espalhados nos outeiros
− a poesia dos domingos!

Da pontinha do nariz,
olharia o precipício
da tua boca que diz:
-Vem! Te ofereço o início;
a porta da minha alma
e, do meu corpo, o caminho.
− Vem! E me beija com calma,
traze o sonho que adivinho!

Nilza Azzi
👁️ 56

Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!