Escritas

Lista de Poemas

Verso perdoado


Recordo: amanhã não, só depois de amanhã.
A luz que nos invade nem sempre está presente,
Assim como o pobre não sabe, e há muito está doente.

Ídolos, deuses e modelos, tê-los ou não tê-los,
O que não implica que estrela cadente
Atire a inação a um verso de antiga prelecção,
Ou episódios de destruição aos cravos da revolução.

O calor da tarde impele a sair,
A vontade continua a ser de partir,
E será a verde, aberta, janela, 
Os ruídos de fora mais hoje, agora.
Por sua, grande, culpa, dela, janela de esperança.
Sem sensação sem noção esqueço e permaneço
Na interminável demora.
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fora de alcance

Da Gnossienne não me agrada o número,
Húm-mero erguido, empurrado pela latência, 
Enquanto a sonolência se agita na salvação do movimento, 
E se recusa a esquecer os recortes da Torre da Igreja, 
Que mirou num instante do entretanto, 
Por quem os sinos rebatem insolentes? 
Entre um despropósito e um Momento Insólito. 

Como os que se puzellam no caleidoscópio do dia, 
Entre chegada esperada e partida desalentada, 
Esquecida renovação de uma esperança oca, 
Desconvervação,  
Irregulares, vocabulaire atypique,
Um ponto desgeoconsiderado, descida a pique, 
Uma gaga situação, falha de conversa, pura tensão! 

Uma pedra no caminho dos graníticos, tic tac, acabado, 
Empedrado de íntimo desagrado. 
Velha habitude sem fortitude, 
Foge o sujeito da sombra de um predicado, 
Sempre em Cassandra city profetizado, ora confirmado. 

No meio do caminho há pombas em bando, 
Que levantam que descolam, voo consonante, 
Que encaro com impávido espanto, ex ante.

Fora da hora, jocosa Indiferença, poderosa presença, 
Não é bando em desando nem exército de roedores
Que me levarão do langor santeiro, certeiro de si, 
Sombra das flores ao sol, liar do bem te vi.

Eu estou bem aqui e é para ficar, oh, rachar, meus senhores 
Meus langores, meus amores, ò dores que hão de vir,
Ó Portos de onde partir, ideias do advir, um corpo a exaurir
Até que o Enrugado acabado, 
Finado de mim se desfaça, disperse, 
Volte ao lugar donde vim sem mais que um muco, 
E toda a placenta que assim protege, assim atenta. 

Enquanto isso o relógio bate nas horas, ridículo cuco. 
Esse cuco sado-maso é o maior maluco. 
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Um Rei nunca coronado (utopia)


Quem mais vale, se os vivos se os partidos?

Tenho pensado e pesado e matutado, 
Não sou um coitado que se debruça sobre alto passadio
Nem um arredio de franja de reflexão ociosa 
Não é questão caprichosa, é uma opção ponderosa,

Pois nenhum pode ter primazia sem se quebrar a possível utopia
De existirmos nós simultánea e não sucessivamente. 

Escravos da seta do tempo impávido,
Que nos torna presa de um ser-se ávido
Pelo hic et nunc, o carpe diem,
Pois que diferença fará um dia, um dia, 
Se a diferença fores tu meu amor que te espero,
Se a diferença for um dia de limpa energia,
Ou o olhar de esperança de todas as crianças dentro da mesma dança? 

Quebrar a seta desse impávido sujeito
Desse rei nunca coronado, 
Um dia há-de ser destronado,
Conceito ultrapassado dum existir partilhado!

(horizonte do evento, revela o teu momento, desvela a tua corona!)
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Vê-de lá! Rio


Nunca mais chego, nunca vou chegar,
Nunca nunca nunca, 
A espera nunca alcança nada 
Nunca.

Testemunha privada ensimesmada, 
Memória descentrada, descordenada,
Nada nada nada. 
Nunca, 
Nada

Motor alheio que ronrona na tua rua,
Rotação de pistão bi-multi-monocilíndrica
Tua rua, tua, que este nunca verá sua,
Fria alma sempre fria sempre nua, nua,
Capa vazia de transparente portfólio 
Glass house, empty mouse, rato sem tato,
Biblioteca invisitada, vide vide, vê-de lá! 

Tu n'appartiens pas, tu es le perpétuel vide
Tu pars, du nord sud, rotted rotten, Norway 
You, you never really here, nor a day, anyway 
Cais apodrecido, perdu perdu, Vê-de lá! 

Sem fé sans femme, chulé no pé, ué! 
Sozinho, sem vinho, sem tiraninho. 
Sinergia solipsística solipessoal

Sussuro, urro, indécence vide, vide! 
Vejam o vazio, sintam o frio, 
Deitem-se ao rio onde me afoguei outrora,
Sintam o vazio, vejam esse frio, frio,
Sombra, umbra, penumbra sem hora, agora!

Hora da morte, falta de sorte, mentira, ira, ira
Physical, emotional health gone, astray, astray
Rage rage, fallen mage, forgotten sage, willow,
Willow overbent, subjugué / subjuguée 

Ye ye, five point, maple, no syrup, leaf leaf,
Feuilles subjugués, arbres désolés
Personnes vides incapables d'aimer 
Passadas frias, almas vadias, dias, dias
Idos, perdidos, perdidos, caidos no rio frio. 

Gargalhadas gritadas, rio, rio, rio,
A hora de chorar não ficou.
Passou. 

Vê-de lá!
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Sismo no barqueiro

Era a hora da demora era o tempo do desalento pelo roubado momento, e os pelos que cresciam no céu da boca faziam Permanente para ganhar volume enquanto o céu escurecia lá fora.

Todas as pisaduras faziam mutirão e os meus gemidos eram silêncios sincopados, imóveis na tensão da insana dor persistente.

Ao lado da revolta cobertura do leito de abrigo a água engarrafada posava longínqua e inatingível como uma viciada prima dona de milanesas passerelles

A ressaca: existência a preceder a essência em gritos de bem te disse cabrão enquanto um exacerbado secão diz sim é possível estar-se assim fodido e mesmo assim vivo. 

As ondas de desatino corriam soltas no corpo que paga os exageros das águas furtadas, as ondas sísmicas em conjurados terramotos 

Esse sismo de alto escalão só entrava em suspensão na vertente da latrina onde o eu se despejava em veste de bílis amarela e a cobardia se revela em refrões de palavrões.

Nessa tarde nem um movimento era espelho desse tonal desalento, só o imóvel calar de qualquer projecto debaixo do plúmbeo teto da pensão em inação forçada.

Uma erecção incongruente trazia um dadaísmo de pornografia esotérica que queria canalizar o álcool no sistema num ainda maior problema.

Dentro de mim um vadia voz dizia e repetia este vai ser o teu último dia. Reza. Reza animal, heterodoxia do ateísmo sem causa, precoce menopausa. Reza motherfucker.

E eu rezei umas Ave Marias intercaladas de submissos pais nossos, e a cabeça a estourar nem assim parou de se inquietar em pequenas convulsões no espectro do delírio tremens.

Bem, patinar eu vou patinar, mas talvez não ainda hoje, talvez ainda não hoje, malandro.

Matar eu sei matar, atirar eu já atirei, porrada muita dei, então se a roda roda e o retorno é verdadeiro, tenho muito que penar primeiro.

Nem sabia então o que de verdadeiro havia naquela cassandra bêbada e dorida deitada numa cama corrida numa pensão com ilusões de grandeza que se cria Universal, coitada da enxovia dos tempos da outra senhora com a decadência disfarçada de  decência e de bons costumes.

Aquele falsário de si próprio haveria de acabar o dia a que se sucederia infindável panaceia diária daquela dor imaginária mas nem por isso menos dolorida.

Na rotação axial as tonturas da repetição induziam cefaleias que se matavam a tiros de garrafas e gritos de charros aspirados, e assim estruturas neuronais alienadas conduziam a respostas contra os estereótipos dominantes em marés vivas de estranhezas crescentes. A baixa mar era apagada e morta, apenas navegada por amnésias selectivas sempre a seguir esquivas naturezas. 

Nesse tempo os guerreiros de terracota esperavam o momento de serem revelados, torres gémeas altaneiras invocavam o capitalismo sem fronteiras e jovens como esse atolambado haviam olvidado as boas maneiras após tanto repetir as mesmas asneiras. 

Quatrocentas e mais formas de estar fora das normas perduraram até um se querer um sicário proletário de mãos culpadas em sangue derramado seja em Fez ou Alvarez,
E a loucura se instalou imperceptível sempre a aumentar o nível de desarranjo e a imaginar um tocador de banjo em compassos mal tocados na varanda de um trailer lá no Louisiana. Antes da explosão de um laboratório o mandar para lá daquele Gregório revisitado, 
Definitivamente para o outro lado sem passagem, para a outra margem onde não corre aragem entregue por um barqueiro nada nada maneiro com órbitas vazias dentro das noites, dentro dos dias.

Podeis dizer Aleluia?
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Falete Novais, que dais?


Falete novais quem dá não tira mais,
Ao Falete vais que é dizer cocaína sublime,
O melhor que a molécula exprime,
Melhor ao terceiro dia com três botelhas de Walker Black
Foda e muita Skol ou Brahma,
Foda, Foda na cama, almoço e janta na cama. 

Cama na sala, cama na varanda, e assim anda,
Riscos, tecos e lambida na mama
Que com mdma a loucura ama.
Diretora é administração,
Underground informação
Ridícula coação, neuronal ativação. 

Falete preto e amarelo que era o mais belo
Brizola que cheira bem, dá vontade de cagar antes de a cheirar.
Pó empedrado que dá para mastigar
Por na ponta do pau e dar para chupar,
Por na boceta, na boca e então beijar,
Despoleta a loucura no longo gozar,
A boca cheia de porra a derreter as pedras entre o lambe lambe
Perde-se a noção do lugar mas não se desatina.  

Continua-se a dissertar sobre antropologia ou cosmologia,
A assistir ao acústico dos Corrs,
E a cagar para se morres ali,
Como te estás a marimbar aqui. 

Nada muda, continuas tu, macaco nu.

Um mistério de uma vida de mais um dia,
Um andar sem guia em cima dos trens descarrilados,
Os loucos anos passados nunca roubados,
Os anos enrugados, que se fodam.

Não há vidas desperdiçadas
Quem quer o q tenho
Que saiba a que venho
Testemunhar
Transmitir
Se quiserem deixar. 
Se quiserem deixar. 
Vambora sem resposta que a mesa está posta. 

Falete Novais, se existirá um nome, 
Pasmais! 
Que coisa terão pensado seus pais?
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Malte de ódio, oh, so refined


O  meu ódio é refinado como um malte de 21, 
Não sei como cabe que afinal sou apenas um, 
Tenho em gargantua panóplia de memórias, 
Que incluem milhares de histórias originais 
Como tem todos as n pessoas, ladainhas demais. 
Só que as minhas, sim, lembram os pontos focais, 

Todo este “proyecto” donde me reduzem, 
Todo este abjecto ser em que me pintam. 

O meu ódio é maior que a vossa hipocrisia 
O meu ódio é rebuscado como a ourivesaria. 

Só vais cessar, irmão, com os meus órgãos desfeitos, 
Vai acabar no retorno aos organismos que me consumam, 
Pois cemitério, normativo de regras não me encontrará, 
Pilha de despojados não me queimará, aqui ou em Corfu.
Ouçam bem, ou nāo, está melhor que bem, meu bem, Kikazaru!

O meu corpo há-de flutuar putrefacto, vir à tona, 
O meu cadáver será da vida que amo, vida que não tem amo, 
Os meus membros devorados ou simplesmente absorvidos, 
Mas a vocês nunca, nunca eles serão servidos, 

Assim como em vida vos recusei e intimidei,
Assim como em vida preferi os vorazes animais, 

Eu sou o ódio que vós nutris pelos demais 
Sob a capa de engano que vejo à transparência, 
Esse engano que vos aterroriza, pois eu chego como a briza
E vejo através de vós o ódio que trazeis dos avós 
E, polido, embelezado, é a substância de todos esses nós. 

Uma civilizaçāo hedionda, uma máscara implacável, 
Post estruturalismo, neo pragmatismo, postmodernismo.
Eu sou o transversalista do vosso mimetismo, feio, insofismável.

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Falta de Tróia e das suas torres


Falta de Tróia e das suas torres, 
Onde estão as suas fortes mulheres, 
Que ontem sonharam comigo nos braços, 
E acordaram enlaçadas aos filhos e maridos com olhos lassos? 

Onde pairam os pardais que carregam minha alma, 
Quando eu sonho tão perto da eterna calma, 
Os restolhar do seu bando, os seus mil olhos. 

Viajo e vou ver os mortos que amei nos seus poemas, 
As telas que me envolvem nos seus temas, 
Os amantes falecidos nos tempos perdidos, 
Todos vivos na morte que me espera lá sentada a rir. 

Nado no naufrágio do Indianápolis e grita o meu colega do lado, 
O braço arrancado pelo grande branco de raspão. 
A agua quente mexe com o medo feito ansia de nadar, 
Nadar e afundar, reassomar entre os perdidos até o tempo acabar. 

Sento-me na minha cadeira de rodas no couraçado, 
Os três a posar para a fotografia, o Stalin mais sério, 
E penso nestes mandatos que cumpri, e nos livros que perdi, 
Não sei a razão da guerra, só o palco me diz os discursos que proferi. 

Estive tão perto do polo Sul, a tempestade uiva ao meu redor, 
Penso como vão encontrar a base abandonada, 
E se os nossos fantasmas cantarão no vento gelado, 
No futuro de uma Antártida habitada. 

Falhei o lago Vitória por que lutei por erros diversos.  
As nascentes tão almejadas e os mortos alinhados, 
Não sei se porque o meu coronel não obedece à razão 
Que se desvanece nos assomos desta emoção. 

Olho a dançarina de preto e ouro no pátio sobre a planície do rio, 
Queria roubar a coreografia dos seus decididos passos, 
A noite cai e as borboletas de ouro voam à nossa volta, 
Sinto uma desatinada alegria, não sei se já estou morta. 

Tanta porta onde não bati neste alto do Vidigal, 
Estou na varanda da casa a olhar para o mar que me diz segredos, 
Diz que eu não sou nada além da alegria de o ver, 
E que ter é sempre perder, como o esqueleto da baleia morta, 
Perdeu a direção, morreu nos meus braços deitada na praia. 

Como um Ulisses encalhado na ilha do caminho perdido, 
Uma Eloisa ajoelhada na certeza de um Abelardo já ido. 
Um mendigo invejado pelo poeta só por não ser como ele.

Sou um ao lado de um mundo tangente
Cego face à multiplicidade tão candente
Que me ensurdece e isola em bolhas de sabão. 

Sem direção sem saber dizer que não, Oxalá, 
Deixa lá, aceita e deita sobre os vidros, estilhaços,
Longos lamentos baços por inalcançáveis abraços.








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Mesura imprecisa


Que está no menu de hoje
Além de alguma decisão,
De tomar alguma acção
Evitar as crevasses deste glaciar
Rodar no céu indistinto deste meu instinto?

A lista é curta e concisa
A intenção é precisa e definida,
Face a uma meta comprida,
Agir precisa, rima é brisa ferida,
Pintada sem paleta
O medo da sarjeta.

O medo não sabe o que teme,
Ou se se chama ira que se não retira.

Há uma disciplina prístina nesta rima que me desatina e desanima.
(Ladrem os cães inocentes latidos dos treinadores presentes
E siga eu ignoto e irado, em passo controlado,
Cada pisar obrigado, agradeçido por ainda não ter matado)
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Simplicidade (o que nos segura?)



A simplicidade,
A humildade de aceitar a distância que nos separa
Mora numa casa térrea desprovida de porta
Onde as janela gradeadas não admitem entradas.

Uma casa onde a vida é uma natureza morta pendurada na sala,
E um habitante enclausurado retira um prazer abjeto de viver à pala.

A simplicidade ronda o inatingível jardim
Quando retorna das suas Andanças só para rir,
Sublinhar com seu esgar sarcástico antes de ir,
Que no teto não chove, lá fora, não existe demora,
Na Pintura na sala, que está para além da moldura
De uma existência morta,
De um coisa torta,
De algo que se não com-porta.

Ou sem grade na janela,
Sempre será um esboço
De memórias em alvoroço,
Uma casa triste onde nenhum personagem existe,
Um telhado onde a chuva chove
Em gotas de abstração, imaginada condensação.

Cai chuva no jardim,
Cai chuva longe de mim,
E não há simplicidade em não saber porque aqui vim.
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Comentários (1)

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nilza_azzi
2019-08-17

Contra plágio também é uma maneira de dizer e não dizer. Muito obrigada pelo comentário em meu poema.