Escritas

Lista de Poemas

Mãe

Uma mãe caminha
nas nuvens segue
os filhos acolhe
Estará sozinha?

Estar sozinha? (são instantâneos)
Não há ausência
os filhos acolhe
ela os aninha

A língua trava
o braço acolhe
os filhos abriga
ela os aninha

Mãe, mamãe, mainha!
o som ecoa
à noite os acolhe
o tempo some

Uma mãe sozinha?
ninguém duvide
ninguém designe
ela supera
até o destino!



Fátima Rodrigues, Benfica, Fortaleza, Paraíba, Brasil em 08 de maio de 2022.
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Tua liberdade!

Foi com pura alegria, à luz do dia
Foi com fé e poesia, em oração
Caminhando sozinha, em movimento
Ecoando o lamento, "sem pressão"
Que de mim me fiz confidente, e consciente
auscultando a memória e a imaginaçao
Me vi plena, sem pesos,
e "sem pressão"
Eras tu em liberdade, por que não?
Um amor se revoga? E então? 
Se for peso... há de ir sem omissão
Se voltar... há de ser só com perdão
Esquecer ou lembrar?  Tempos de ser!
Em pasárgada nos veremos
Pode ser?
"Lá a existência é uma aventura".
"Sem pressão!"


Fátima Rodrigues, expedicionarios, João Pessoa, Paraíba  Brasil em 15 de abril de 2022.
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Um sonho de mulher


Se eu soubesse dizer
para além do que se diz
Se eu pudesse criar para além do que se faz
Se eu pudesse amar para além do que sou capaz
inventaria um mundo
em que todas as mulheres seriam respeitadas
Das ladeiras do pelô
às escadas do Cristo Redentor
Nos milhares de metrôs e nos restaurantes retrô
Das calçadas da fama às favelas em chamas
Dos plantios regados a canções às mais doces emoções
Tudo para elas criaria
e num só canto diria 
dos meus afetos mais puros
e da mais sublime admiração
Embalaria seus sonhos
Aliviaria suas dores
Acalantaria seu pranto
e dele faria orações
sem nenhuma religião
que as esteriotipassem
Faria acima de tudo uma ode
que as apaziguassem
em seus sobressaltos e dores.

*Dedico às mulheres do meu convívio famíliar e dos coletivos acadêmicos e  políticos que participo

Fátima Rodrigues
Expedicionários, João Pessoa, Paraíba-, Brasil em 08 de março de 2022.
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Degustação da palavra

A palavra que degusto
com paixão e desapego
sem pressa ou alvoroço
diz muito da minha sina
e do continente que sou
Com os olhos iluminados 
e o coração disparado
palavras me atravessam
e riscam o meu caderno 
com clarões de sons e tons 
De forma lenta e tenaz
planto, lavro e colho versos
numa estrada ao reverso 
onde as palavras se-dão
Nessa oculta digressão 
com metafísica e escuta
traduzo com ou sem rima
as dores que a vida traz
Nos limites do viver
e muito além do horizonte
escrevo ensimesmado
ao modo de D. Quixote
que de moinhos fez arte
até com reis e rainhas
Seguindo esse itinerário
a palavra voa livre
com ou sem identidade
em registros pontuados
ao modo dos trovadores ou
de anônimos repentistas.

Expedicionários , João Pessoa, Paraíba - Brasil em  18 de fevereiro de 2015
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A forma do falso e a forma dita

A forma do falso e a forma dita
Fátima Rodrigues              

                                                                                                                                              ( Para a cantora Elza Soares)
Eu atravesso fronteiras, sem nenhuma permissão,

promovo ocupações, e por assim ser sou clandestina,

crio grafias no chão, nos ares, em mim e nos outros.

Me inscrevo em ações voluntárias

só pelo puro gosto de ultrapassar a forma dita

Quem sabe ler a forma do falso?

A forma que se diz Lei resistirá ao veredicto?

Caminho entre labaredas sem senti-las,

pois me fiz errante, desde as primeiras viagens.

Errar por subversão é algo que me sobra na vida.

Séculos já vivi e ninguém crê

E só quando atravesso os desertos é que retorno revigorada

Abraço as brisas nomeadas como o vento do Aracati, só para me aliviar...

E as brisas que são anônimas?

Para além da cena, adoro o anonimato!

porque ele me permite ser a forma perfeita.

Quando me mostro, a nudez me torna estranha a mim em razão do outro.

Persigo caminhar na escuridão, no deserto, e até mesmo no lamaçal que marca as tempestades,

após esses eventos vislumbro uma herança pura, recomeço de alma lavada.

O novo ali ressurge das vagas, sem nada a dar, mas com orgulho de ser.

É preciso recomeçar com a pureza de quem nada têm, nada herdou e nada é,

porque é do nada que viemos, e é para o anonimato que retornaremos

Ser natureza é o nosso destino, assim creio.
"Com Deus me deito
com Deus me levanto"
 Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil 26 de janeiro de 2022
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Semeaduras da vida

Amigo e amiga são raízes
e amparo em nossa vida
Chegam devagarinho 
ou apressados
e juntam as suas bagagens
às nossas utopias 
Viajam conosco por mares e lugares 
Semeiam em nós os seus sonhos
como os ventos nas longas madrugadas
Na dor não se ausentam nem especulam
Nos acolhem em doce escuta
e ressoam em nós melodias astutas
Seus afetos nos atravessam e acalmam como a brisa nas noites assombradas
Mas se a vida os encurralam
esperam que amenizemos  o fel dessa amargura
No território da bonança colhemos os seus favos de mel
como dádiva nas semeaduras.
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Retalhos de um estrangeiro

Retalhos de um estrangeiro 

Retalhos da vida, de dores e de alegrias é o que  sou
Se gargalhei e rodopiei numa avenida
segurando o standarte
foi porque encarnei o teu ser de tal forma que me perdi de mim
Via os teus morros sangrando, ruas festivas, e as mães em puro lamento!
Dias longos desfilavam frente aos meus olhos cansados 
Noites insones se refletiam em opacidade nas poças d'água e nas ruas de chão batido 
Almas exasperadas com as perdas juvenis explodiam em canções e em oraçoes  ao meu redor
Em certos dias, o meu rosto cobria-se de serpentinas em vôo livre pelas arquibancadas afora
Me via num bailar sem fim e num gracejar insano.
Uma alegria pura como a de mulheres livremente prenhes me cobriam as vestes
Me envergonhava das dores dos pavões, dos avestruzes, dos exilados, e do martírio dos meus parentes e vizinhos violentados em seus habitats
Em instantes me via acompanhado naquela encenação carnavalesca onde a dor veste-se de euforia
Depois ficava a sós e nu a me indagar:
- Como recompor o palco da vida?
E que vida meu Deus!
Oh! Cidade amada!
Me leva em tua alma, em tuas madrugadas e em teus dias ensolarados
Repete comigo as orações dos meus 
Orações em retalhos que nunca as apreendi por ser apenas estrangeiro 
Apenas isso: estrangeiro de mim e exilado dos outros.
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Travessia

Crescer
Seguras com afeto as minhas mãos
mas o teu olhar só vislumbra 
o longínquo horizonte
Te revelas a cada instante 
em dobras infindas
ora marejadas, ora ressecadas
Teus matizes me incandeiam
Me encolho como faz o mar 
antes que chegue o furacão 
Eis que nos escutamos 
no frenesi da vida
- Quem és ?
- Quem sou?
Me instigas a voar para dentro
a varar as profundezas
a penetrar em noites escuras
e a cultivar canteiros em manhãs claras
Te sigo por vielas incontornáveis 
em urbes mutiladas
O breu não te emudece
Em mim calas o choro
o pesar
a virulência da dor
Ao escutá-lo
as tuas angústias ressoam em mim
em uníssono!
Somos andarilhos 
nessa caminhada
onde a dor do retorno a nós
não tem limites
Somos um amálgama ao inverso
ao reverso
no infinito de nós mesmos
Nesse universo em verso
somos a multidão a penetrar as visceras do mundo
a cavalgar o nada
à beira do abismo
Somos a incompletude a sangrar
até que as luzes do teu ser 
acendam em ti o que és
Anseio por teu crescer
só para que tenhas
aconchegada em ti
a tua própria liberdade
Enquanto vicejas
guardo uma certeza
És um grande homem!


Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil em 30 de novembro de 2021-  na dor pela ausência que me aparta da minha filha e do meu filho, e dos demais "meus", nessa vida diaspórica.
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O ser da palavra

Se está entre
é interstício 
No presente  
é herança e patrimônio 
A sua falta                      
desafia o silêncio
Ao se adequar
encanta-se no ato 
Nos confrontos
é coragem assimilada
Em seus rodeios
se desvela em metáforas
Se endurece
é rocha cristalizada 
Quando contida
é água aprisionada 
E se liberta
é torrente apaziguada
Quando cala
é explosão represada
Se desafia
é duelo em linguagem 

Ser e renascer é o desafio da palavra.
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A Terceira Via “à direita”


A Terceira Via sentada em berço esplêndido, combina submissão e alienação à direita de todas as situações;

A Terceira Via ignora as veias abertas e sangrentas do Brasil na pandemia;

A Terceira Via ignora até mesmo cenas que no carnaval promovem os cortes-reais, quando vidas negras são negligenciadas nas alturas de modernos edifícios, expressão e ápice do racismo estrutural;

A Terceira Via esconde de si as mulheres e nega-lhes a política, deixando ao seu encargo o sangue escorrendo por suas virilhas, enquanto o presidente veta a lei e vocifera: segurem suas veias, estômagos e ventres!

A Terceira Via ignora os inocentes ardendo em febre e fome,  enquanto esses famélicos esperam os céus dos evangélicos e concordam com os católicos negacionistas;

A Terceira Via desconhece as famílias unidas nos cruzamentos urbanos, com suas placas encardidas, a nos lembrarem da crua miséria humana;

A Terceira Via é o leite e o pão de cada dia entregues em fartas cotas ao agro pop no Congresso Nacional, e se “à direita” em todas as estações e dias do ano;

A Terceira Via agrega bilionários arrumadinhos que sonham em colonizar Marte, para não ouvir os ecos dos tiros das favelas, e às escondidas higienizam suas mãos sujas de sangue;

A Terceira Via tenta roubar a cena da luta dos trabalhadores contra a mentira, golpes de consciência desfechados por diferentes linguagens nas Ditaduras: ecos do Auto do Frade, o Frei Caneca, executado nos teatros das salas de aula, narrativas como Os Sertões sobre a destruição de Canudos casa a casa, e filmes como Mariguella, enredo de um militante executado em via urbana;

A Terceira Via esmaga - sob o jugo do capataz da vez no Congresso Nacional -, a memória da Guerra dos Bárbaros, enquanto avança em territórios indígenas com toda a sua boiada;

A Terceira Via oculta, com suas potentes mídias, as mãos solidárias das periferias posicionadas em defesa dos que tombaram em prol da Reforma Agrária, e de Mariele Franco, executada no Brasil, e em Paris homenageada;

A Terceira Via legítima a Necropolítica fascista de todos os dias, mantida pelas milícias-militantes-militares do Estado;

Sentados na precária invenção da Terceira Via os ricos dizem-se sem liberdade para respirar ar puro, e reclamam da opressão em seus carros blindados, helicópteros, heliportos, enquanto gravitam assombrados com as hélices giratórias dos seus pesadelos em noites insones;

Estão os ricos acuados pelas imagens de famílias pobres e confinadas em sua horrível miséria, por idosos- fantasmas e suas famílias piedosas, todos a clamarem por justiça em depoimentos na CPI da Covid 19;

Os ricos do Brasil engasgados com a própria comida - que regurgita em suas estreitas gargantas, em seus estômagos azedos, nas suas bocas sedentas de moedas-, são espectros harmonizados por cirurgias sem-fim, e navegam em busca do desfiladeiro da Terceira Via, sua grande esperança de redenção, Via que os manterão no mesmo lugar, no conforto do seus bankers, ressecados e retesados pelos marca-passos dos dólares, e dos paraísos monetários, confinados e alimentados pelos grilhões insanos da miséria humana.

Será mesmo essa a nossa via?
Fàtima Rodrigues,
João Pessoa, 15 de novembro de 2021
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