Escritas

Lista de Poemas

A Terceira Via



 


A Terceira Via “à direita” 

A Terceira Via sentada em berço esplêndido, combina submissão e alienação, sentada à direita de todas as situações;

A Terceira Via ignora as veias abertas e sangrentas do Brasil na pandemia;

A Terceira Via ignora até mesmo cenas que no carnaval promovem os cortes-reais, quando vidas negras são negligenciadas nas alturas de modernos edifícios, expressão e ápice do racismo estrutural;

A Terceira Via esconde de si as mulheres e nega-lhes a política, deixando ao seu encargo o sangue escorrendo por suas virilhas, enquanto o presidente veta a lei e vocifera: segurem suas veias, estômagos e ventres!

A Terceira Via ignora os inocentes ardendo em febre e fome, no inferno de suas vidas, enquanto esses famélicos esperam os céus dos evangélicos e concordam com os católicos negacionistas;

A Terceira Via desconhece as famílias unidas nos cruzamentos urbanos com suas placas encardidas, a nos lembrarem da crua miséria humana;

A Terceira Via é o leite e o pão de cada dia entregues em fartas cotas ao agro pop no Congresso Nacional, que se “à direita” em todas as estações e dias do ano;

A Terceira Via agrega bilionários arrumadinhos que sonham em habitar Marte, para não ouvir os ecos dos tiros das favelas, e às escondidas higienizam suas mãos sujas de sangue;

A Terceira Via tenta roubar a cena da luta dos trabalhadores contra a mentira, golpes de consciência desfechados por diferentes linguagens nas Ditaduras: ecos do Auto do Frade, o Frei Caneca, nos teatros das salas de aula, narrativas como Os Sertões sobre a destruição de Canudos casa a casa, e filmes como Mariguella, enredo de um militante executado em via urbana;

A Terceira Via esmaga - sob o jugo do capataz da vez no Congresso Nacional -, a memória da Guerra dos Bárbaros, enquanto avança em territórios indígenas com toda a sua boiada;

A Terceira Via oculta, com suas potentes mídias, as mãos solidárias das periferias posicionadas em defesa dos que tombaram em prol da Reforma Agrária, e de Mariele Franco, executada no Brasil, e em Paris homenageada;

A Terceira Via legítima a Necropolítica fascista de todos os dias, mantida pelas milícias-militantes-militares do Estado;

Sentados na precária invenção da Terceira Via os ricos dizem-se sem liberdade para respirar ar puro, e reclamam da opressão em seus carros blindados, helicópteros, heliportos, enquanto mantém-se assombrados com as hélices giratórias dos seus pesadelos em noites insones;

Estão os ricos acuados pelas imagens de famílias pobres e confinadas em sua horrível miséria, por idosos- fantasmas e suas famílias piedosas, todos a clamarem por justiça em depoimentos na CPI da Covid -19;

Os ricos do Brasil engasgados com a própria comida - que regurgita em suas estreitas gargantas, em seus estômagos azedos, nas suas bocas sedentas de moedas-, espectros harmonizados por cirurgias sem-fim, navegam em busca do desfiladeiro da Terceira Via, sua grande esperança de redenção, Via que os manterão no mesmo lugar, no conforto do seus bankers, ressecados e retesados pelos marca-passos dos dólares, e dos paraísos monetários, confinados e alimentados pelos grilhões insanos da miséria humana.

Será mesmo essa a nossa via?
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A Força do Silêncio


No principio fez-se doído o silêncio 
Que em latência manteve-se à retaguarda
Tu fostes sombra
Sempre tão presente
E imersa em mim
Jamais te ausentastes
E eu fiquei então aprisionada
Envolta estive em lágrimas vicejantes 
Que inocentes
Me lavavam a alma!
Vi o silêncio 
A ocupar-me inteira
Num movimento além do tempo-espaço
Foi quando o luto 
em sua plenitude
Abriu-se em luz na escura madrugada
Ao aplacar em mim a dor profunda 
E o desencanto que me ocupava
A luz candente me guiou serena 
A transpor fronteiras antes impensáveis 
Ergui-me em meio à cascata de lágrimas
Que estagnada mostrou-me as veredas
Da misteriosa cartografia humana
Que para além da sua vã cegueira  
Nada enxerga além da própria sombra! 

Revivido e pleno se fez o entendimento 
Que em vigilia
Nasceu pacificado
Em douta e cabal
descoberta do humano 

João pessoa, 24 de outubro de 2021.
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Te amo

As vezes eu quero dizer mas não consigo
E penso... as palavras são tantas!
Por que não expressam?
É que as sensações são múltiplas e me atravessam
Descrevê-las demanda sentidos que a grafia não dá conta
Fico oculta 
Caminhar é diferente 
O sentido se faz em cada músculo e no ar que respiro
Chorar me torna inteira
e o silêncio em mim promove encontros
Te amo são apenas duas palavras
Mas o amor se anuncia num turbilhão
Suores, secreções, sensações que atravessam corpos em êxtase 
Impossível dizer tudo
Melhor é sentir.
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Travessias do ser

Atravessei ruas, becos e vielas
não via e nem era avistada
Senti as madrugadas geladas
e o silêncio a contornar-me
Um rio caudaloso se fez em mim
de margem à margem 
Se fez pleno
Sem barqueiro
Só um imenso e angustiante vazio
me invadia
e eu procurava o calor de um abraço
Encandeada
atravessei desertos e pântanos
e nem na multidão me encontrei
Sobram desertos 
nesse amalgama
que é a minha vida
Mas em meu ser
a graphia é generosa
E os mapas ?
Desnudam a terra 
conforme a vista alcança 
Não desnudam a mim
onde o aço e o vazio se alternam
numa valsa insana
Ser é incongruente, Sei!
e nem isso me faz temer
Na lua crescente me ergo incólume
A vida requer coragem.
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Travessias do ser

Atravessei ruas, becos e vielas
não via e nem era avistada
Senti as madrugadas geladas
e o silêncio a contornar-me
Um rio caudaloso fez-se em mim
de margem à margem 
Se fez pleno
sem barqueiro
Só um imenso e angustiante vazio
me invadia
e eu procurava o calor de um abraço
Encandeada
atravessei desertos e pântanos
e nem na multidão me encontrei
Sobram desertos 
nesse amalgama
que é a minha vida
Mas em meu ser
a graphia é generosa
E os mapas ?
Desnudam a terra 
conforme a vista alcança 
Não desnudam a mim
onde o aço e o vazio se alternam
numa valsa insana
Ser é incongruente, Sei!
e nem isso me faz temer
Na lua crescente me ergo incólume
A vida requer coragem.
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Transgressões


Eu me embaraço com as minhas emoções
É que elas não são duradouras como eu gostaria
E por ti fico inquieta a justificar-me
Sou fiel até onde posso
Até onde chega uma outra emoção e me leva na correnteza
Poderia ter heterônimos, pseudônimos, mas de que adiantaria se tudo transparece?
Há em minhas profundezas uma montanha de sentimentos que me divide, me distancia e me ajunta
Nesse lugar sou cativa de um pensar tão frouxo que alço vôos de toda envergadura
Difícil é aterrisar no plano
Quero as montanhas
Mesmo quando o olhar de cima para baixo me causa vertigens
Sou tola  quando penso nisso
- Melhor é existir.
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Acordar


Leve e tênue pulsar Híbrido
que nos traz luz e sombra
Sentidos de si e solidão
No abrir e fechar dos olhos
um quê se indaga
enternecido ou decaído Ato
em si
aberto par a par
ante o insólito
O novamente visto De novo
a crer ou descrer
Querer ou negar o ser
Acordar
sem querer a si Acordar
na madrugada enlutada
Dar cor de si
No amanhecer pleno
luzes se esvaindo Ao vento
galáxias a perderem-se  Na imensidão do cosmos
juntam-se e separam-se
num circuito entre pequenez e grandeza
Na poeira .... Do nada
o ser se escuta.

Fátima Rodrigues, Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil, 26 de janeiro de 2021
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Memória de um rio

Rio que abracei a nado
Me acolhes inteira
Desde a minha Ribeira
És por mim amado !

De longe ouço os teus brados
Te navego à vela
e escuto os teus ecos da minha janela
... sons tão  afinados !

Quando o ausculto ao vento
Sinto uma calmaria
Que sem ti não viria
Com tamanho alento !

Pensas que És somente
Um andante líquido
a desaguar  fluido
um mero rio corrente ? !

Em mim tua memória tudo evoca
lembranças tão cálidas
postas em camadas
fábulas inequivocas !
(Em homenagem ao Rio Cariús- Nova Betânia_ Distrito de Farias Brito, Ceará, rio da minha infância, que me acompanha todos os dias)

Fátima Rodrgues.
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Haicai



Eu planto canções
grafando versos livres
Colhendo emoções
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Um ano por inteiro

Ao ganhar um ano novo
que o tenhas por inteiro
Reveja o vivido ponto a ponto
Anote e repare, se for o caso,
o que fez com intenção
 Anule os afetos
que trazem a desesperança
Apague o que passou do prazo
ou renegocie-o com quem puder
A vida pede passagem
Se mágoas são apagadas
o perdão é teu
Não deixes que façam dele troféu
Caminhar mirando horizontes
nos traz belas paisagens e renova as utopias
Se durante o dia veem-se pontos obscuros
em simulacros ou em explosão de cores
à noite tem-se constelações a brilharem
Dentro de nós um mundo é dado
torna-o grande
como somente tu podes
Mas se a invenção do tempo te perturba
sê inteiro
Inventa o teu próprio tempo
no comando da tua vida
Para cada ser há um horizonte
a descortinar novidades
em pedaços de festa, de júbilo ou de dor

Ano velho?
Memórias de nós
Terra fertilizada, arrasada ou replantada?
seja o que for !
Na simplicidade
podemos semear grãos  e renunciar naturalmente a essa contagem do nada
O tempo é pura invenção
Ser é o que em si se reinventa.

Fátima Rodrigues, Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil  em 31/12/2020.
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