Escritas

Lista de Poemas

Tic -tac do amor

Tic -tac do amor

são apenas dois sonzinhos
que anunciam bem de leve
- vai chegar um bebezinho!
Tic-tac, tic-tac
agora é o meu coração
a imitar o relógio
provocando confusões
Tic-tac, tic-tac 
Não me atormente a cabeça
pulsando tão lento assim
pois o esperar das horas
descompassa as emoções
Tic-tac , tic-tac
Pisa firme no andar
pois sem a tua cadência
como o tempo chegará ?!
tic-tac, tic-tac
bate calmo,
bate lento
não me provoque tensões
atente ao acontecer
pois um bebê já chegou
e me faz imaginar
que é tempo só de amor.
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Incêndio na biblioteca (Conto)


Incêndio na biblioteca

Adriana levantou os ombros num movimento ágil para sentar-se ou apoiar os seus cotovelos na areia. O sol refletia sobre si e sobre o que a circundava, palavra que a lembrava de circo, em sua forma, tanto quanto lembrava de um círculo; forma diferente da cobra de vidro que fazia uma volta atrás da casa do poeta Manoel de Barros; “cobra” que perdeu a graça para ele quando foi nomeada de enseada. Gostava, o poeta, das coisas simples descritas de modo a suscitar imaginação, imaginações, e não aprisionada.

Volteios à parte... Adriana suspendeu o ato e voltou a deitar-se na areia tomada por um redemoinho de lembranças que a levava de volta à sua cidade natal.

Naquele longínquo e pequeno lugar o café da manhã era ocasião para todos atualizarem as conversas, as fofocas e para trazerem novos assuntos à pauta familiar. Enfim, eram encontros regados por iguarias caseiras: os pés-de-moleque da Dona Rosa, a canjica da Dona Zilda, os pães-de-queijo da Dona Filó, além das receitas da própria família que tanto a agradavam. Sentada em volta da mesa a família conversava sobre tudo:  doenças, afazeres, vida social, planos, etc . Todavia, naquele dia o assunto da vez era o incêndio na biblioteca da maior escola da cidade. Dizia-se que ninguém foi pego em flagrante não obstante corria boatos, entre alguns, de que já havia uma pessoa em suspeição, e era sobre isso que segredavam entre si. O incêndio começou às 20h e só foi debelado as 23h com a ajuda da população que, aflita com o acidente, se indagava:

- Quem, e por que fez isso? !

A verdade é que o fogo se alastrou e queimou boa parte do acervo da Biblioteca Graciliano Ramos, que provinha de doações.

Conta o vigia que saiu em seu horário, às 17h, e deixou tudo em ordem, argumenta ainda que não houve nenhuma intercorrência que traduzisse atitudes suspeitas. Por ali só passaram até o final da tarde “crianças dóceis e educadas”, na faixa dos 7 aos 12 anos, e que tinham frequência regular na escola.

A história chegava às pessoas em sussurros. A gravidade do tema levava a que se baixasse o tom da voz até naquele dia, durante a conversa encetada no café da manhã, na casa dos pais de Adriana.

“Reza a lenda” que uma criança tocou fogo na biblioteca indignada com certos personagens do Sítio- do- pica-pau-amarelo. Isso a mãe da criança contou para uma amiga da vizinha da irmã da diretora da escola, pessoa que muito apreciava conversas jocosas, especialmente assuntos que movimentassem a cidade.

A razão da indignação da Rosiane, e o que a motivou a incendiar a biblioteca foi o fato dela não conseguir concentrar-se nas aulas, por conta das aventuras infantis narradas pelo autor do Sítio do pica-pau-amarelo. Já havia recebido duas reclamações da professora Ana, por falhas com as tarefas escolares, ainda que essa professora fosse famosa por seus métodos humanistas. Sem embargo, as constantes falhas em sala de aula também levaram a direção da escola a enviar comunicados aos seus pais, registrando o seu constante alheamento. 

Contou a menina, posteriormente, que mesmo diante de muitos esforços não conseguia desligar-se dos enredos e dos episódios lidos durante os intervalos de aula. Registrou ainda que por ser feita a leitura na própria biblioteca, sendo proibido levar o livro para casa, por mais que se esforçasse não conseguia depois da leitura desligar-se das aventuras literárias.

Amava a todos os personagens do Sítio, mas tinha predileção especial pelo Visconde de Sabugosa. Era a sabedoria dele que a encantava e, por isso, ao voltar para a sala de aula ficava em conversa com o personagem, em pensamentos, é claro.

Começou a ser mais atentamente observada entre os colegas quando, por várias vezes, deu sinais de um desligamento do ambiente, pois não conseguia acompanhar sequer as leituras realizadas em sala de aula. Ao ser solicitada pela professora Ana para que desse continuidade à leitura, comumente, o seu enlevo revelava aos demais colegas não saber sequer a partir de que página e parágrafo deveria prosseguir a leitura.

Depois de repetirem-se vários desses episódios levou o primeiro bilhete da professora para os pais. E, a partir de então, as ocorrências desagradáveis foram se sucedendo, até que perdeu o status de liderança entre os colegas, o que a deixou muito chateada.

Os pais curiosos e preocupados com os acontecimentos indagaram sobre o que se passava com ela. Tudo em vão. A Rosiane nada contava sobre o quanto a sua mente andava ocupada com esses seres invisíveis que tanto amava. Temia que, em represália, a sua desatenção os pais a retirassem da escola onde tinha os melhores amigos. Isso foi contado também ao delegado.

O incêndio mexeu com a cidade, e o mais surpreendente de tudo foi o surgimento dos temas paralelos que passaram a circular nos bastidores. Havia propostas de toda natureza de corretivos à pequena leitora, desde a interdição na hora do intervalo da escola até às punições na família como a privação de viagens e de visitas aos amigos etc. Nessas ocasiões vieram, também, à tona às visões e correntes diversas da educação. 

Contou a pequena leitora, ao delegado, a sua intenção de apenas pregar um susto nos personagens, especialmente no Visconde de Sabugosa que, por ser de sabugo, seria mais facilmente atingido em sua fragilidade. Entendia que o susto serviria de corretivo à sua teimosia. O recado dela para esse personagem era claro: que Ele não confundisse horário de recreação com horário de estudos, recado reproduzido a partir da visão da professora, visto que por conta desse tipo de confusão a professora já havia pedido a ela que soubesse separar as atividades recreativas das atividades pedagógicas. 
Destacou, especialmente, os constantes pedidos de atenção postos pelo Visconde durante as aulas.

No dia do incêndio ficou escondida na biblioteca e quando, o fogo já se aproximava do livro e  ouvia os gritos do Visconde, pressentiu os passos do vigia que estava conferindo as fechaduras das portas, antes da finalização do turno de trabalho; assustada teve que pular o muro da escola, deixando um ponto de fogo aceso, que na sua fuga alastrou-se e não apenas assustou o Visconde como imaginou fazer.

Assim circulou a história na versão de uma criança fantasiosa e de uma leitora principiante.

Ficou claro a pureza da leitora, assim como sua singular imaginação, e o caso foi abafado.  O delegado, amante da literatura, especialmente da obra de Agatha Chistie e Edgar Alan Poe, convidado a resolver o imbróglio, chamou a família de Rosiane e a direção da escola, e sugeriu que o acervo queimado fosse recuperado através de campanhas solidárias junto à comunidade. Já o nome da menina deveria ser mantido em sigilo, ainda que todos soubessem nos bastidores das suas peraltices, o seu nome não deveria ser publicamente mencionado associando-o ao fato.

A palavra SI-GI-LO foi repetida várias vezes durante a reunião com o delegado, a diretora da escola e a família de Rosiane, passando a ser utilizada em muitas outras ocasiões em que não havia qualquer necessidade de proteção aos infratores. Em sigilo foram mantidas as traições do prefeito à primeira dama; os casos omissos de prestação de contas; as demissões e transferências dos opositores, dificultando-lhes a vida; o abastecimento de carros privados com dinheiro público e a compra de votos nos períodos eleitorais, etc.

A palavra sigilo foi incorporada à história da cidade, ganhou fama, e diante de tantos sigilos praticados os cidadãos do lugar chegaram até mesmo a cogitar em mudar o nome da sede do município para Sigilo, decisão que seria coroada com a instalação de uma placa luminosa onde se destacaria: “Bem-vindos à Sigilo”. Apesar dessas ideias debatidas, após as avaliações criteriosas, pela Câmara de Vereadores, ponderaram os legisladores que o nome adotado, do fundador do lugar, um coronel famoso por ter construído o Parque de Vaquejadas, é uma homenagem  justa que representa bem os munícipes, e bastava! Melhor permanecer assim, até mesmo para que o sigilo permanecesse sigiloso e fortemente protegido, sem concorrências públicas.

O “sigilo” pactuado pelos moradores do lugar em torno desses temas provoca preocupações em Adriana que olha agora embevecida o pôr-do-sol, embora perturbada por lembranças tão recorrentes e desafiadoras.

Desde então, assim transcorrem os dias, as noites, as horas, os minutos e os segundos naquela cidade, como em tantas outras nesse país onde, ainda na Primeira República, o potente escritor Lima Barreto o denominou de República das Bruzundangas.

O curioso é que Rosiane cresceu e tornou-se jornalista, e sem distinguir realidade e ficção, quiçá por suas ideologias que nada têm a ver com Moteiro Lobato, vive a produzir matérias jornalísticas que favorecem o sigilo nesse país dos maniqueísmos grotescos e das omissões, onde os poderes constituídos estão próximos geograficamente, mas alheios à maioria dos seus concidadãos, assim como alheio fica o  Rochedo de Gibraltar em relação à Península Ibérica; porque assim quis a natureza, ou por que quiseram os ingleses ?

Até quando assim será a construção social da “realidade”?  Não é difícil supor: sê-lo-á até que se inaugure um novo modo de ver o mundo e, principalmente que se compreenda os efeitos danosos da banalidade do mal.

Ainda bem que, silenciosamente, lápis e papel conduzidos pela livre imaginação podem produzir bons argumentos e viagens,  e além disso nos tira das prisões e nos fazem viajar em nossas próprias fantasias e criações.

 

Fátima Rodrigues

Expedicionários, João Pessoa, Paraíba , Brasil 05/12/2020.
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Neuroses (conto)


Irene parou no portão e olhou para trás. Quis voltar para conferir se havia fechado bem a porta dos fundos. Achava que sim, todavia a sua intuição indicava ser necessário confirmar essa desconfiança. Esse era um gesto usual em sua rotina. Voltou e conferiu portas e janelas, foi ao banheiro, lavou as mãos e seguiu.
Sempre que ia sair uma perturbação vinha a sua mente e não a deixava prosseguir sem que esses atos se concretizassem. E mais! Ao voltar para conferir, qualquer que fosse o esquecimento, também ia ao banheiro e depois lavava as mãos...
Agora conseguiu sair! Ah! Que alívio !
Ficou pensativa sobre esses gestos costumeiros, mas prosseguiu. Já estava quase atrasada para o seu compromisso:  iria assistir a um concerto do Coral Todos Nós.
Dirigiu-se ao centro da cidade, entrou no teatro devagarinho, sentou-se e olhou para os lados em busca de conhecidos. Posicionou-se numa fileira em que tinha uma boa visão. Gostava muito daquele teatro: sua forma, sua acústica, suas cores.
Escolheu essa programação em busca de algo diferente, algo que a acalmasse, pois a noite anterior foi de insônia entremeada por pesadelos. Atribuía essa perturbação a um filme de terror que assistiu antes de dormir. Por conta daquelas cenas de execuções ficou a madrugada inteira em desassossego e amanheceu o dia exausta.
Na noite seguinte decidiu viver uma experiência diferente e ver algo bonito que a acalmasse, por isso é que estava ali.
No ponto extremo esquerdo do palco um senhor vestido de preto cruzou o olhar com o dela. Aquele jeito de olhar a constrangeu, manteve-se em alerta e a indagar-se:
- Por que ele  me olha tão incisivamente?
Enquanto pensava sobre isso dava-se início a apresentação cultural do coral Todos Nós, que é reconhecido pela qualidade da sua formação e repertório. O maestro regia com firmeza e atenção e as vozes do coral se alternavam entre os tons graves e agudos, entoando belas melodias. O repertório escolhido era impecável. O homem vestido de preto entrava e saía da coxia e dirigia-lhe um olhar penetrante. Ela sustentava o olhar, mas um arrepio a atravessava inteira. A peça do coral prosseguia, enquanto sentava ao seu lado uma senhora elegantemente vestida e bem maquiada, que a olhou de forma breve, cumprimentou-a e voltou-se para o palco. Conheciam-se de vista e a Irene supunha ser tal conhecimento vinculado às suas presenças nesse tipo de ambiente. Estando agora acompanhada pensou: ficarei livre do olhar invasor daquele assistente de palco. Ficou quieta observando-o, mas ao vê-lo com a atenção voltada para a coxia levantou-se e saiu. Atravessou todo o teatro pela lateral e adentrou a um outro vão bastante iluminado que dava acesso à rua. Sentiu o ar banhar-lhe o rosto, o que a deixou bastante relaxada. Olhou para o céu em busca da sua constelação preferida, mas nada viu: a poluição obscureceu o céu. Lembrou-se de quando deitava-se na calçada em sua casa, em Capim Dourado, e ficava contando as estrelas, coisa que se a sua mãe visse logo reprovava; segundo ela contar as estrelas no céu fazia nascer verrugas no corpo. Prosseguiu a caminhada, mas ao dar uns dez passos na calçada sentiu uma presença próxima e olhou para trás. O que a levou a constatar que o homem de preto, e de olhar penetrante caminhava olhando para o infinito. Era fim-de-ano e uma feirinha de natal composta de objetos artesanais ocupava os passantes. Ele parou numa barraca de enfeites natalinos e ela parou na barraca vizinha, queria demonstrar que não percebia o assédio dele; cruzaram os olhares e ela sentiu-se mais uma vez invadida. Aquele não era um olhar usual e ele continuava a segui-la.
Manteve-se calma. Viu que ele comprava algo e aproveitou para tentar escapar da sua presença. Saiu atravessando a multidão, entrou na Rua Direita, conhecida por seu intenso movimento, e desaguou numa rápida caminhada na praça São Bento. Já descia uma escadinha para dirigir-se ao Vale do Anhangabaú e prosseguir numa rua lateral que daria acesso à Travessa em que morava quando deu de frente com ele. Estava exausta de caminhar e sentou-se num banquinho que estava disponível ao lado de uma banca de jornal. Do outro lado da rua o homem vestido de preto comprava cigarros e olhava-a de esguelha.
Resolveu caminhar rápido. Embrenhou-se na multidão e dirigiu-se a passos rápidos para o Viaduto do Chá. O céu estava escuro anunciando chuvas. Pensou consigo mesma:
- Era só o que faltava!
Não andava com guarda-chuva. Começou a correr e o homem do teatro, que portava agora uma capa preta, ria-se e corria também. A Irene estava prestes a cair de cansaço. Foi então que uma música suave chegou aos seus ouvidos; abriu os olhos e ao sentir um incômodo na coluna aprumou-se na cadeira enquanto a dama sentada ao seu lado, no teatro, dirigiu-lhe um olhar de reprovação. O homem de preto continuava seus afazeres deslocando-se do palco à coxia, enquanto ela bocejava sem entender ao certo em que parte do espetáculo se encontrava, pois adormeceu logo na terceira música.
O maestro agradeceu aos presentes e fez o encerramento com a apresentação da música Asa Branca.
E agora, seguindo de volta para casa, ela se ocupava em buscar explicações para o ocorrido. Firmou o seu olhar no movimento intenso dos passantes, e para a sua surpresa o homem de roupa preta seguia quase ao seu lado e vez por outra olhava para trás. Um arrepio percorreu-lhe a coluna e ela seguiu adiante em busca de uma viela para proteger-se do desconhecido.

Fátima Rodrigues Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil, 21/11/2020.
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Chão de Estrelas

Chão de Estrelas 

Em dias de chuva sou toda oitiva
imagens refletidas nas poças d'água
conectam-se com o universo que me cativa

O olhar é para além 

Me chega em sopro as orações da minha mãe
Então, o chão vira espelho e o ceu projeção
Do chão ao céu
gaivotas plainam indiferentes à minha condição

Amo o céu, as gaivotas,e as sombras projetadas no chão
Amo sem fronteiras
os que ocupam esse fugidio território que é o meu coração

O amor é o meu lume e dele sou cativa.
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Liturgia da Escrita

Liturgia da Escrita

Escrever é sempre um ato litúrgico
E cada um que crie o seu rito
Comparo escrever com a feitura de biscoitos
Escolho os ingredientes
conforme o que me faz falta
e misturo-os para sentir o sabor
Por fim dou a forma
Me apraz saborear o contéudo
e ver a forma !
As vezes faço coraçõezinhos, quadradinhos, rolinhos, bolinhas
Ao final brinco como criança !
Na escrita sigo a intuição
Parto de uma palavra, de uma paisagem, de um cheiro
As vezes há falta, as vezes há sobras
e haja lapidação: tira de lá, põe de cá
Nesse ínterim a imaginação vai longe
Gosto é de brincar com a ideia enquanto
visito lugares e pessoas
Vejo céus estrelados e os
mistérios do conto As mil e uma noites
Vejo mares extensos
Lembro até dos meus vestidos de laço na cintura
e das festas da padroeira da minha infância
Me vejo nas férias em Goiás
Vozes a cruzar
línguas e bocas a provar
explosões de alegrias, risos das minhas crianças
Escuto chuvas torrenciais e a famosa pergunta:
"- Cadê o veranico de janeiro?"
O cheiro morno de pão de queijo misturado com café enche a casa
Coisas da Dona Maria !
Tudo isso me inspira na escrita e me faz
recorrer à memoria, aos sons, letras e linguagens
Os dicionários me auxiliam num percurso que vai do desejo ao dito.
Um dia ainda saberei expressar com maestria esse oceano em que mergulho e que me encanta, mas que ao escrever nunca atravesso por inteiro.
Sinto que essa aventura me traz ventura e por isso, com licença poética,
afirmo: "navegar é preciso".
Fátima Rodrigues
Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil. Em 30 de outubro de 2020.
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Nos labirintos da escrita e dos afetos (conto)




Naquele final de semana, março de 2014, em que ocorria Le Salon du Livre à Paris, entediado com a sua condição, o papel, a partir de um certo lugar, resolveu iniciar um diálogo com a caneta. Estava cansado da tirania daquela criatura que o utilizava na hora que desejava  e que se postava a rascunhá-lo como bem queria, sem que indagasse sobre os seus desejos e sonhos. Achava absurdo que a caneta despejasse sobre si somente relatórios, prestação de contas, balanços e recados sem nenhum afeto. Essas marcas não o satisfaziam. Nunca sobrava à caneta um tempinho de nada para registrar em seu corpo um só verso, uma melodia, um haicai, ou, uma florzinha rabiscada. Com isso, o seu destino era sempre uma gaveta, um arquivo, a lixeira, ou a devolução para uma empresa de reciclagem, sem que houvesse nenhum gesto de carinho em seu corpo. Ficava pensando... e se fosse utilizado para imprimir uma tradução em Português das Cartas de Walter Benjamim, ou uma reedição da obra de Manoel de Barros? Quem sabe um livro de Simone de Beauvoir? E o que dizer de compor a obra do Saramago? Poderia viajar, participar de feiras, ter um lugar especial na biblioteca de alguém que zelasse por ele, que o levasse à sua cabeceira e que lhe fizesse companhia nas horas vagas. Ficava até pensando: e se virasse um caderninho de notas e fosse parar na escrivaninha de Ângela Davis? Poderia estar a contribuir na composição de uma obra humanitária! Ou quem sabe se não poderia compor um livro de Fernando Pessoa, e ir parar na biblioteca de Chico Buarque de Hollanda, que poderia manuseá-lo em busca de inspiração para a sua própria escrita?

Que sorte teria, se fosse um livro, para ter a possibilidade de acompanhar leitores e leitoras, pessoas sensíveis e portadoras desse sentimento ímpar de amor ao conhecimento e aos sentimentos do mundo.
Ficou nessa digressão durante todo o final de semana, pensando em si, em suas razões e destino. Destino: substantivo masculino, trissílabo, palavra sonora, fardo que agora o comprimia. Sentia-se sem nenhuma importância naquele escritório sem vida, um lugar aprisionado por paredes cinzas, onde ácaros e poeiras sutis até lembravam o escritório de Wall Street onde trabalhou Bartlebly, o escrivão revolucionário de Herman Melville. Lembrava também da apatia do escriturário e, sobretudo, da sua rebeldia diante de afazeres tão repetitivos, ao responder às demandas do chefe com uma só frase:
 – “Prefiro não fazer”.
Como suportava a caneta fazer sempre o mesmo tipo de escrita?
Era final de semana. Iria aproveitar para planejar uma ação que ajudasse a mudar esse estado de coisas em sua vida.
Na noite de sábado teve vários pesadelos. Primeiro sonhou com um incêndio de grandes proporções onde teve a sua vida ceifada. Virou cinzas e foi parar nos esgotos da cidade. Acordou suado e em pânico. Tomou chá para acalmar-se e voltar a dormir. Entretanto, novo pesadelo veio acordá-lo com um barulho ensurdecedor. No segundo pesadelo foi triturado por uma máquina que o transformou em pó prensado. Ainda assustado, ao acordar, pensou: a despeito das dores e da certeza da morte, nesse pesadelo teria direito a uma outra vida. Menos mal. Quem sabe ao voltar a uma nova condição de papel reciclado teria mais sorte? Mas, o pior de tudo era essa incerteza sobre seu destino.
Persistia na mente a ideia de acolher em seu corpo romances, poesias, ilustrações e ganhar espaço numa estante de algum leitor ou leitora sensível, de preferência um escritor ou escritora.
Acordou no domingo sob o efeito desses pesadelos e com a ideia fixa de dialogar com a caneta. Ensaiou, por todo aquele dia, palavras que criassem empatia no diálogo que dar-se-ia na segunda-feira. E, nesse dia, tão logo a caneta chegou ao escritório, cumprimentou-a efusivamente:
- Bom dia, parceira!!!
A caneta levantou a cabeça surpresa com o tom de intimidade, mas parou para escutá-lo e para retribuir, sem nenhum entusiasmo, o cumprimento.
- Bom dia !
E o papel prosseguiu, de uma forma instigante:
- Que tal conversarmos sobre o conteúdo da sua escrita?
- Não entendi.
Respondeu a caneta.
- Falo sobre o que escreves, afinal sem papel teu trabalho não se realiza.
A caneta respondeu disparada:
- Você não é nada sutil, hein !? Que insulto!
- Como se atreve a falar uma asneira dessas?
- Você não sabe da existência das telas, onde se lê e escreve tal como se escreve no papel?
- Nem sei porque ainda uso essas velharias de papel ?
O papel respondeu calmamente, com uma voz melodiosa, mas sem espaço para contraposição:
- Bem lembrado! Tenho em mente o papel e as telas. As telas significam, em parte, uma recriação da função do papel, embora nenhuma sociedade o tenha abolido completamente.
- Com as telas ganhei mais funções e possibilidades. Existo como tela em diversas modalidades e ferramentas, mas continuo de grande utilidade na modalidade antiga. O papel, é um velho aliado das Ciências, das Artes e da Literatura. Desde a minha descoberta, após o papiro, sou um artigo muito importante.
E, para selar a sua busca de parceria, ressaltou:
- Você também é importante, e já passou por muitas transformações ao longo da História. Sabes disso, né?
A caneta inquieta tergiversou:
- Tela não é papel!
E o papel retrucou:
-Teclado também não é caneta, mas cumpre sina semelhante.
- A caneta acrescentou:
- Mas existe a caneta para se escrever nas telas...
Impassível, mas fortalecido em suas decisões, o papel contra-argumentou:
- O meu pensar não se põe sobre a forma, é sobre o conteúdo. Sendo papel ou tela estou a buscar um outro destino, fora dessa normatividade que é a essência dos relatórios e balanços. Não quero ir parar em lixeiras, ou em arquivos para meras consultas. Quero com a escrita estimular a imaginação, motivar a criação, proporcionar viagens.
Ao  escutar a caneta fez a seguinte proposta:
- Que tal você fazer intervalos no trabalho e escrever poemas, compor músicas, crônicas, ensaios, cartas, ou escrever pelo menos bilhetes e pensamentos?
A caneta respondeu impaciente:
- Estás louco? Queres que eu perca o meu lugar? Me presto à escrita contábil, não me interessa essas asneiras de que falas.
- Essas “asneiras” a que você se refere são alento, e verdadeiros bálsamos à alma. Retrucou o papel quase entristecido com tamanha positividade.
Nesse momento, chegou a concordar com Byang-Chul Ham sobre a Sociedade do Cansaço e suas implicações. E ficou a refletir com nostalgia, ainda bem que existem papeis cumprindo com outras funções menos pragmáticas e mais poéticas do que as que ele próprio costuma reproduzir.
A caneta pediu licença ao papel e recolheu-se a pensar. Gostava de escrever contas, não achava nada monótono construir dados, nem elaborar os relatórios ... Chegava mesmo a gostar de estabelecer e de cumprir metas. Fazia isso sempre! Era tão bom ver o papel cheinho de contas! Melhor será que ele nem saiba o quanto brinca com os números na cabeça, não no papel!
Mas, agora estava sensível à demanda registrada pelo papel e sem dúvidas pelas telas que manuseava tão frequentemente. Como jamais havia pensado nas questões tão bem postas pelo companheiro de trabalho?  Inclusive ficara sensível às suas dores quanto ao próprio destino. Ao pensar sobre o tema veio à sua mente uma indagação:
- Então as canetas e os teclados também têm destino?
Ao acionar os sentidos deu-se conta de que a sua escrita era conduzida por uma mão que a segurava e guiava firmemente.
Agora estava ciente de que o seu destino dependia de um ser humano. Isso posto, não caberia a si nem ao papel as decisões sobre o que escrever. Precisava alertar o seu interlocutor para esses desígnios. Respirou fundo e pensou:
Ah! Os labirintos da vida! Existem objetos e ferramentas tão importantes que podem cumprir com nobres funções, mas tudo esbarra na vontade e decisão dos seres humanos.
Já o papel estava em sua versatilidade a pensar que não se trataria de abolir os relatórios, nem o manuseio de dados, tão necessários à explicação racional do mundo. A seu ver o que é imprescindível é ceder lugar à poesia. Mas isso não implica em banir da sociedade outros estilos de escrita e saberes.
A mão que acionava a escrita levantou, finalmente, uma questão:
- Por que não pensar sobre os Cavalcantis e os Cavalgados, e sobre as costuras do mundo em tempos de paz e de guerra?
Afinal, quem comanda e quem é comandado?
Que filosofia rege a vida de cada um de nós? 
Existe lugar para os desejos que em nós habitam?
Dessa querela entre a caneta e o papel resta afirmar que ambas estão sob o jugo da escrita e não há prisões para a palavra quando o desejo de se expressar- é maior que o de calar-se.
A palavra canta, voa e sangra. Ao bem ou ao mal do que se quer comunicar, como demonstrou o Marquês de Sade e prisioneiros políticos que também se valeram da escrita, em suas celas e exílios, ou mesmo sensíveis donas de casa a poetizar as suas vidas, há intenções ou no mínimo mensagens em toda escrita.
Canetas e papeis falantes podem parecer desvarios ou alucinações urbanas, sofrências recalcadas das quais nem Kafka escapou. Mas não esqueçamos que pôr os objetos a falarem e até os narizes a andarem é coisa de quem escreve e isso ocorre em qualquer lugar do mundo.

 

Fátima Rodrigues

Versão publicada em 25/10/2020.
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A palavra e as descobertas do mundo



Severino seguia a pisar em sua própria sombra, circunstância que o projetava em direção ao zênite, palavra que ele acresceu ao seu vocabulário no dia anterior na escola onde estuda, num lugarejo denominado Jericó que segundo sua avó é nome bíblico. Sabia que ninguém acreditaria na coincidência de estar ele no dia seguinte a seguir sua sombra e sua sombra a segui-lo ou ao emparelhar-se a dita com ele, ainda que zênite tenha sido um assunto trabalhado, como já dito, por sua professora que chama também zênite de conteúdo junto com outras palavras que não entraram na cabeça de Severino por conta daquela estranheza vocabular tão distante do seu lugar, aonde se aprende mais com a vida do que com os livros.

Agora mesmo descobriu o zênite propriamente, horizonte bem distante que se desenha à sua frente. Caminha a esmo e ao seu lado uma sombra o segue lado a lado. A depender do horário essa sombra poderia estar em outra posição, entendimento que brotou em si por conta de uma ajuda que lhe deu o seu colega João Sem Medo quando falou das sombras que os acompanhavam na pelada, que não significa mulher nua, significa jogo de futebol sem juiz com regras frouxas, mais que isso diz-se de movimentos produzidos ao sabor da ginga do corpo, com no mínimo duas pessoas a improvisar e a divertir-se com a bola.

Lembrar-se da pelada o fez recordar-se das brincadeiras com a própria sombra quando jogava futebol de improviso com os amigos no tempo próprio do acontecer azimutal, expressão que criou com o uso do dicionário para no dia seguinte causar boa impressão à sua professora, atitude reprovada por terraplanistas, palavra que não tem nada a ver com trabalhadores que manejam máquinas ou instrumentos aplainando a terra para o plantio ou para outros fins práticos, diz respeito a ignorância de quem não estudou noções mínimas de Geografia e Astronomia e odeiam os que sabem situar-se num país imaginário e que em pleno século XXI acreditam que a terra é redonda porque na fotografia de certas paisagens do filme “O Céu de Suely” tem-se a impressão da existência de uma terra redonda e muito clara.

 Lembrava agora Severino Silva dos Três Reis Magos que ele nem sabe porque são assim chamados, pois sendo eles reis deviam comer bem, o que não explica de modo algum a magreza de ninguém, mas o que interessa agora é que eles seguiam a Estrela- Guia, no que ele mesmo os imitava, não que siga a Estrela Guia, evento singular que deu origem ao Natal e ao nascimento de Cristo. Fala o adolescente de sua experiência ao seguir a lua, especialmente quando ilumina a terra nas tão famosas noites do sertão, e ao vagar acompanhando-a ou mesmo ao acompanhar o Cruzeiro do Sul, constelação que nos instiga “pelo sul” a indagar sobre a nossa latinidade em sua parca emergência.

E por falar em Cruzeiro do Sul como não citar Tonho Cavalcanti, um doido que residia nas redondezas, parente de Severino e de seus outros parentes que também seguia a lua, mas ninguém achava aquilo normal, todos achavam doidice, por isso ele, Severino, fazia às escondidas as suas caminhadas com a lua para evitar ser confundido com Tonho Cavalcanti. Não sabe ele se caminhar seguindo a lua ou o Cruzeiro do Sul é loucura ou não, de todo modo previne-se das más línguas, só não se previne é da sua consciência

O estranho dessa estória é que a gente de Jericó acha normal um camponês trabalhar o ano todo na terra do patrão e ser obrigado a pagar metade de tudo que colhe. Isso acontece naquele fim de mundo, mas acontecem também coisas semelhantes e até piores em outros lugares distantes, pois se até em Jerusalém há genocídio e conflitos por terra, imagina naquele mundinho onde quem manda até no delegado é o coronel. E isso a professora afirma que nada tem de errado uma vez que o coronel é também médico e o pai é procurador, a prima vice-prefeita e sua mulher é a prefeita e todas as ruas da cidade são nomeadas com três sobrenomes, os sobrenomes de três coronéis cuja trama familiar envolve matrimônios comuns. E por aí vai o elo inquebrantável.

Ao dar essa explicação a professora ficou sem fôlego, a palpitar e a suar assim como ficou quem aqui narrou num fôlego só essa história tão singular e cheia de delicadezas às vésperas do domingo, quando se recomenda fazer orações e não blasfêmias.

Desconfio que do outro lado do mundo, lugar que se amalgamou ao nosso país via navios negreiros, que chamam assim porque vinham repletos de negros e negras, também chamados negroides, mas que são na verdade pretos e pretas, e que essa é somente a cor de uma etnia, cor diferente do branco e do amarelo, cor como qualquer outra visto que não existe uma só cor de pele no mundo, lá também o zênite, assim como a história de reis e de rainhas são marcadas por incompreensões nos conteúdos escolares, mas são explicadas às crianças e aos jovens de outro jeito, como histórias de sombras, de assombração e de opressão que acompanharam certos cristãos-mercadores que ao chegarem naquele continente, levando também o terror, reinventarm a mercância da vida.

Severino seguiu caminhando e pensando...  ou achava  que estavano mínimo a pensar sobre a vida. Seu olhar mirava o horizonte que o fez lembrar-se de utopia, palavra que merece uma conversa na borda da calçada,  olhando o mar ou mesmo seguindo o luar do sertão em noites de lua cheia.

Fátima Rodrigues – Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil.
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A gente silencia

A gente silencia
não é em razão da distância geográfica.
O espaço que  separa os seres humanos é sempre relativo.
Lá costumamos nos aproximar ou nos afastar
em nossa  humandade ou desumanidade.
Numa linguagem informal, para além de nós,
divagamos horas e horas sobre a natureza,
sua beleza, sua dinâmica, suas dores, seu lado indecifrável, 
e aonde quer que estejamos
temos algo a contar.
Já a  escuta nem sempre se realiza, pois
 "dar ouvidos” instiga, doi e perturba
numa avalanche só!
Por isso, distanciar e silenciar têm semelhanças e diferenças.
Silêncio se cultiva mesmo é no interior
nas profundezas do ser
lá onde reina o indizível
É lá que tropeçamos
e levantamos calmos, ou assoberbados

(....).
É lá que a gente silencia
e o silêncio vira mística
encantamento,
encontro consigo mesmo, paixão
ou prisão.
Fátima Rodrigues, Expedicionários, João Pessoa, Paraíba-Brasil em 10 de outubro de 2020.
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Ambiguidades do real

A realidade pode ser vista distorcida,
mas dita com convicção.
Pode ser uma opiniâo
a revelar uma condição.
Pode ser um desejo
pleno de efeitos.
Pode resultar
de uma visão binária.
Pode revelar até mesmo
sistemas de objetos e de ações.
Quiçá se concretize em premissas, conceitos e noções.
A realidade é múltipla
É fluida
É líquida
É subjetiva
A realidade tem muitas trilhas e caminhos.
A realidade está sempre a nos perscrutar
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O silêncio em manifesto

O silêncio em manifesto

O meu silêncio é a minha oração
e somente se revela na escrita.
É grão fertilizado na terra mãe.
É  um funk atravessando os palácios e se juntando às multidões.
O meu silêncio é cortado por tiros que se repetem na favela 
e pela resistência dos Sem-terra.
O meu silêncio sonha em ser potente onde houver humanidade,
pois sangra em razão das queimadas
na Amazônia, no Pantanal e na Mata Atlântica.
O meu silêncio multiplica-se em vozes que denunciam o feminicídio.
e soma-se ao grito poético de Carolina de Jesus
ao afirmar:
"Meu ideal é gostar de ler".
O Meu silêncio é como a rocha mais dura
que nem mesmo o intemperismo a atravessa.
Pelo dito e não dito,
o meu silêncio grafa as dores do mundo
até que a primavera traga à lume a razão.

Fatima Rodrigues, em 07 de outubro de 2020.
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