Incêndio na biblioteca (Conto)
MARIA DE FATIMA FERREIRA RODRIGUES
Incêndio na biblioteca
Adriana levantou os ombros num movimento ágil para sentar-se ou apoiar os seus cotovelos na areia. O sol refletia sobre si e sobre o que a circundava, palavra que a lembrava de circo, em sua forma, tanto quanto lembrava de um círculo; forma diferente da cobra de vidro que fazia uma volta atrás da casa do poeta Manoel de Barros; “cobra” que perdeu a graça para ele quando foi nomeada de enseada. Gostava, o poeta, das coisas simples descritas de modo a suscitar imaginação, imaginações, e não aprisionada.
Volteios à parte... Adriana suspendeu o ato e voltou a deitar-se na areia tomada por um redemoinho de lembranças que a levava de volta à sua cidade natal.
Naquele longínquo e pequeno lugar o café da manhã era ocasião para todos atualizarem as conversas, as fofocas e para trazerem novos assuntos à pauta familiar. Enfim, eram encontros regados por iguarias caseiras: os pés-de-moleque da Dona Rosa, a canjica da Dona Zilda, os pães-de-queijo da Dona Filó, além das receitas da própria família que tanto a agradavam. Sentada em volta da mesa a família conversava sobre tudo: doenças, afazeres, vida social, planos, etc . Todavia, naquele dia o assunto da vez era o incêndio na biblioteca da maior escola da cidade. Dizia-se que ninguém foi pego em flagrante não obstante corria boatos, entre alguns, de que já havia uma pessoa em suspeição, e era sobre isso que segredavam entre si. O incêndio começou às 20h e só foi debelado as 23h com a ajuda da população que, aflita com o acidente, se indagava:
- Quem, e por que fez isso? !
A verdade é que o fogo se alastrou e queimou boa parte do acervo da Biblioteca Graciliano Ramos, que provinha de doações.
Conta o vigia que saiu em seu horário, às 17h, e deixou tudo em ordem, argumenta ainda que não houve nenhuma intercorrência que traduzisse atitudes suspeitas. Por ali só passaram até o final da tarde “crianças dóceis e educadas”, na faixa dos 7 aos 12 anos, e que tinham frequência regular na escola.
A história chegava às pessoas em sussurros. A gravidade do tema levava a que se baixasse o tom da voz até naquele dia, durante a conversa encetada no café da manhã, na casa dos pais de Adriana.
“Reza a lenda” que uma criança tocou fogo na biblioteca indignada com certos personagens do Sítio- do- pica-pau-amarelo. Isso a mãe da criança contou para uma amiga da vizinha da irmã da diretora da escola, pessoa que muito apreciava conversas jocosas, especialmente assuntos que movimentassem a cidade.
A razão da indignação da Rosiane, e o que a motivou a incendiar a biblioteca foi o fato dela não conseguir concentrar-se nas aulas, por conta das aventuras infantis narradas pelo autor do Sítio do pica-pau-amarelo. Já havia recebido duas reclamações da professora Ana, por falhas com as tarefas escolares, ainda que essa professora fosse famosa por seus métodos humanistas. Sem embargo, as constantes falhas em sala de aula também levaram a direção da escola a enviar comunicados aos seus pais, registrando o seu constante alheamento.
Contou a menina, posteriormente, que mesmo diante de muitos esforços não conseguia desligar-se dos enredos e dos episódios lidos durante os intervalos de aula. Registrou ainda que por ser feita a leitura na própria biblioteca, sendo proibido levar o livro para casa, por mais que se esforçasse não conseguia depois da leitura desligar-se das aventuras literárias.
Amava a todos os personagens do Sítio, mas tinha predileção especial pelo Visconde de Sabugosa. Era a sabedoria dele que a encantava e, por isso, ao voltar para a sala de aula ficava em conversa com o personagem, em pensamentos, é claro.
Começou a ser mais atentamente observada entre os colegas quando, por várias vezes, deu sinais de um desligamento do ambiente, pois não conseguia acompanhar sequer as leituras realizadas em sala de aula. Ao ser solicitada pela professora Ana para que desse continuidade à leitura, comumente, o seu enlevo revelava aos demais colegas não saber sequer a partir de que página e parágrafo deveria prosseguir a leitura.
Depois de repetirem-se vários desses episódios levou o primeiro bilhete da professora para os pais. E, a partir de então, as ocorrências desagradáveis foram se sucedendo, até que perdeu o status de liderança entre os colegas, o que a deixou muito chateada.
Os pais curiosos e preocupados com os acontecimentos indagaram sobre o que se passava com ela. Tudo em vão. A Rosiane nada contava sobre o quanto a sua mente andava ocupada com esses seres invisíveis que tanto amava. Temia que, em represália, a sua desatenção os pais a retirassem da escola onde tinha os melhores amigos. Isso foi contado também ao delegado.
O incêndio mexeu com a cidade, e o mais surpreendente de tudo foi o surgimento dos temas paralelos que passaram a circular nos bastidores. Havia propostas de toda natureza de corretivos à pequena leitora, desde a interdição na hora do intervalo da escola até às punições na família como a privação de viagens e de visitas aos amigos etc. Nessas ocasiões vieram, também, à tona às visões e correntes diversas da educação.
Contou a pequena leitora, ao delegado, a sua intenção de apenas pregar um susto nos personagens, especialmente no Visconde de Sabugosa que, por ser de sabugo, seria mais facilmente atingido em sua fragilidade. Entendia que o susto serviria de corretivo à sua teimosia. O recado dela para esse personagem era claro: que Ele não confundisse horário de recreação com horário de estudos, recado reproduzido a partir da visão da professora, visto que por conta desse tipo de confusão a professora já havia pedido a ela que soubesse separar as atividades recreativas das atividades pedagógicas.
Destacou, especialmente, os constantes pedidos de atenção postos pelo Visconde durante as aulas.
No dia do incêndio ficou escondida na biblioteca e quando, o fogo já se aproximava do livro e ouvia os gritos do Visconde, pressentiu os passos do vigia que estava conferindo as fechaduras das portas, antes da finalização do turno de trabalho; assustada teve que pular o muro da escola, deixando um ponto de fogo aceso, que na sua fuga alastrou-se e não apenas assustou o Visconde como imaginou fazer.
Assim circulou a história na versão de uma criança fantasiosa e de uma leitora principiante.
Ficou claro a pureza da leitora, assim como sua singular imaginação, e o caso foi abafado. O delegado, amante da literatura, especialmente da obra de Agatha Chistie e Edgar Alan Poe, convidado a resolver o imbróglio, chamou a família de Rosiane e a direção da escola, e sugeriu que o acervo queimado fosse recuperado através de campanhas solidárias junto à comunidade. Já o nome da menina deveria ser mantido em sigilo, ainda que todos soubessem nos bastidores das suas peraltices, o seu nome não deveria ser publicamente mencionado associando-o ao fato.
A palavra SI-GI-LO foi repetida várias vezes durante a reunião com o delegado, a diretora da escola e a família de Rosiane, passando a ser utilizada em muitas outras ocasiões em que não havia qualquer necessidade de proteção aos infratores. Em sigilo foram mantidas as traições do prefeito à primeira dama; os casos omissos de prestação de contas; as demissões e transferências dos opositores, dificultando-lhes a vida; o abastecimento de carros privados com dinheiro público e a compra de votos nos períodos eleitorais, etc.
A palavra sigilo foi incorporada à história da cidade, ganhou fama, e diante de tantos sigilos praticados os cidadãos do lugar chegaram até mesmo a cogitar em mudar o nome da sede do município para Sigilo, decisão que seria coroada com a instalação de uma placa luminosa onde se destacaria: “Bem-vindos à Sigilo”. Apesar dessas ideias debatidas, após as avaliações criteriosas, pela Câmara de Vereadores, ponderaram os legisladores que o nome adotado, do fundador do lugar, um coronel famoso por ter construído o Parque de Vaquejadas, é uma homenagem justa que representa bem os munícipes, e bastava! Melhor permanecer assim, até mesmo para que o sigilo permanecesse sigiloso e fortemente protegido, sem concorrências públicas.
O “sigilo” pactuado pelos moradores do lugar em torno desses temas provoca preocupações em Adriana que olha agora embevecida o pôr-do-sol, embora perturbada por lembranças tão recorrentes e desafiadoras.
Desde então, assim transcorrem os dias, as noites, as horas, os minutos e os segundos naquela cidade, como em tantas outras nesse país onde, ainda na Primeira República, o potente escritor Lima Barreto o denominou de República das Bruzundangas.
O curioso é que Rosiane cresceu e tornou-se jornalista, e sem distinguir realidade e ficção, quiçá por suas ideologias que nada têm a ver com Moteiro Lobato, vive a produzir matérias jornalísticas que favorecem o sigilo nesse país dos maniqueísmos grotescos e das omissões, onde os poderes constituídos estão próximos geograficamente, mas alheios à maioria dos seus concidadãos, assim como alheio fica o Rochedo de Gibraltar em relação à Península Ibérica; porque assim quis a natureza, ou por que quiseram os ingleses ?
Até quando assim será a construção social da “realidade”? Não é difícil supor: sê-lo-á até que se inaugure um novo modo de ver o mundo e, principalmente que se compreenda os efeitos danosos da banalidade do mal.
Ainda bem que, silenciosamente, lápis e papel conduzidos pela livre imaginação podem produzir bons argumentos e viagens, e além disso nos tira das prisões e nos fazem viajar em nossas próprias fantasias e criações.
Fátima Rodrigues
Expedicionários, João Pessoa, Paraíba , Brasil 05/12/2020.
Comentários (1)
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Maria
2020-12-08
Parece que passou filme.
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