Lista de Poemas
ASSOMBRO
Que a vida não gira ao redor,
Que o sono se apaga triste,
Num assombro de terror.
Há dias... que o mundo pára,
Que não há gente contente,
Murcha a flor... não se repara,
Oh! Que mundo comovente!
Há dias... que o teto cai,
Na cabeça estilhaçada,
Sacudindo o que lá vai!
Há dias... a esperança que resta,
Esvaem-se prantos no caminho,
Para que se abra uma fresta!
Maria Antonieta Matos 08-08-2016
TURBILHÃO
flutuem ondas no céu,
Acena o verde na serra,
O vento traz armas de guerra,
E o mar enfureceu.
Ouviu-se pranto e lamúria,
Aflição e desespero,
Solidão em pedra dura,
Tão longe na mente s' afigura,
Turbilhão em destempero.
Arrasta tudo o qu' apanha,
Tresloucado a fulminar,
Carros, casas em águas idas,
Multidões num sufoco, desvalidas,
Contra o vento a devastar.
Desvanece tudo ao redor,
Não há luz a iluminar,
Escasseia o pouco alimento,
Rodopia, leva-o o vento,
Pelas ruas a boiar.
Animais numa agonia,
Enleados, esfarrapados,
Tanta agitação, emergência,
Luta-se pela sobrevivência,
Avistar apavorado.
08-09-2017 Maria Antonieta Matos
ALENTEJO JANELA ABERTA
De largos e soltos horizontes,
Onde a beleza ressalta,
O sol ardente tudo abrasa,
Povoam de branco os montes.
A luz clara, o azul do céu,
O passeio dos passarinhos,
Tantos cânticos, asas ao léu,
O esplendor que adormeceu,
O sonho a vaguear caminho.
Alentejo de tradições,
De "estórias" inolvidáveis,
De poemas e canções,
De música nos corações,
De gente linda e amáveis,
Alentejo dourado mar,
Espera-te a lua cheia,
Ao lusco-fusco a bailar,
espreitando a namorar,
Os amores na sua teia.
Maria Antonieta Matos, 19-07-2017
FIZ UMA ATERRAGEM NUM CAMPO SELVAGEM
Fiz uma aterragem
Num campo selvagem
Encontrei a cegonha
No ninho deitada
Com os seus filhos
Numa matraqueada
Encontrei o macaco
Nas árvores a baloiçar
E dentro de um buraco
A cobra a sonhar
A pastar a vaca
O pasto fresquinho
E em cima da fraca
Estava um passarinho
Entretida a ver
Os cisnes no lago
Sem me aperceber
Senti um afago
Beijou-me o macaco
Depois deu um salto
Um salto tão alto
Fiquei em sobressalto
Que me arrepiei
Se caísse em falso
Muito descontraída
Por entre os sobreiros
Dormi protegida
Sob os seus sombreiros
Depois do descanso
Vi o pónei manso
O camelo e a zebra
Olhando uma lesma
Fugindo indefesa
Escondeu-se no solo
E vi o canguru
Com o filho ao colo
Gritei-lhe cucu
E piscou-me o olho
Passava o Chital
Com ar elegante
Arfava, arfava
E parou um instante
Entretanto o Gamo
Com o corno entalado
Num grande ramo
Ficou rodeado
De gente a mirar
Mas muito concentrado
Conseguiu-se soltar
Passava o perú
Com leque elegante
Arrufava, arrufava
E parou um instante
Entretanto a fraca
Com linda casaca
Desfila aprumada
E ficou cercada
De público a olhar
Seu trajo invulgar
Num silêncio absoluto
E a pestanejar
O crocodilo, muito astuto
Põe-se a rastejar
Ali a tartaruga
Virando a cabeça
Saía a espreitar
Fazendo das suas
Para mergulhar
Grande desafio
Saltando e brincando
Cabras num redopio
As folhas trincando
De olhos fechados, a avestruz
Voava e sonhava
Não viu onde estava
E truz catrapus
Espantou o papagaio
Pousado no chão
E grita sabichão,
A olhar de soslaio
Ai, ai que eu desmaio
No prado a ovelha
Branquinha de neve
Coça a orelha
Por causa da guedelha
Tão enroladinha
Saiu uma bolinha
Muito bem feitinha
Despistado o porco-espinho
Que corria sozinho
Fez um alvoroço
Ao bater com o focinho
No pé da azinheira
Entretém-se a comer
Com grande cegueira
Nem dá por chover
De orelha fitada
Observando tudo
A lebre revirada
Com o olho num canudo
E a cria a mamar
A puxar pela teta
Não pára de brincar
Parece uma vedeta
Faço um intervalo
E fico a ressonar
Surpreende-me o galo
A cantarolar
Mas que belo canto
Para eu acordar
Um tenor, um espanto
Para harmonizar
Nesta fantasia
Estão belas chitas
E tenho a primazia
De ver as mais bonitas
Vejo lamas na cama
Com pijama às listas
A passear o elande
Com muito aparato
É deveras grande
Mas não parte um prato
Lémures fantasiados
Macacos a macaquear
E se forem bem mirados
Canguru parecem achar
Nandus desfilando
Numa linda passadeira
Com o pescoço girando
E o corpo à maneira
Ornamentados os Axis
Têm coroa avantajada
Quando estão a namorar
Por um triz, ai por um triz
Não fica a coroa engatada
Cervicapras cabriolas
Com feitio engraçado
Saltam e pulam no montado
Em jeito de sapateado
No final toca orquestra
E há muita animação
A burrica é a maestra
Ouve-se grande ovação
E eu acordei do sonho
A cantar uma canção
No campo Selvagem
Prima a natureza
Faz uma viagem
Para ver a beleza
Caminhando desprendido
Envolvendo os sentidos
Os sons e os cheiros,
O ver e o tocar
Animais protegidos
Convivendo com a natureza
Saltitando aqui e ali
Esta visita é com certeza
Um momento muito feliz
Vamos ver os animais
Ao parque do campo Selvagem
Conhecê-los por demais
Como brincam e o que fazem
Olha ali, o lindo Pavão
Com seu leque colorido
Come os bichinhos no chão
E é muito atrevido
Olha as cabritas anãs
Tão divertidas que estão
Brincam com as suas irmãs
Fazem muita confusão
Ciumento com sua dama
Com beleza a cortejar
Ecoa com muita chama
Dia e noite sem parar
Convivendo com a natureza
Ao ar livre e muito feliz
Passeando com certeza
Por aqui e por ali
O Perú todo enrufado
Abre o leque gracioso
Na quintinha destacado
Por se mostrar tão airoso
Maria Antonieta Matos 07-12-2011
O MAR
Gostava de ter nascido
Perto dessa imensidão
Nunca teria sentido
Um só minuto, solidão
Me deitava na areia
Ondas me vinham tapar
Olhava à noite as estrelas
Ficava sempre a sonhar
Com os peixinhos brincava
Conversava com a lua
O sonho me aconchegava
Meu amor, seria tua
03-09-2012 Maria Antonieta Matos
GRITO
Cessem de se empolgarem dos feitos
Numa sonância sublime enganadora
Que a mentira se desfaz por conceitos
Que tarde ou cedo, se afirma reveladora
Gracejem lá do alto com olhares cegos
Em comunhão na zombaria gloriosos
Acostumai-vos a sugar todos os servos
Com estranhos jeitos miraculosos
Deitem abaixo um país erguido
Que o presente e futuro vê protegido
Arrependam-se amanhã que já tarda
Deitem-lhe fogo que depois de já ardido
O generoso ânimo bem-sucedido
Fraqueja, temeroso, mas não resta nada
11-10-2013 Maria Antonieta Matos
In "Poesia Sem Gavetas III"
Injustiça
Injustiça ao nascer
O berço é desigual
Uns começam logo a sofrer
Sem ainda fazer mal
Ao crescer ainda criança
Anda a pedir para comer
Explorado pela ganância
Sem o adulto nada fazer
Ao brincar é discriminado
Por ser pobre ou diferente
Sempre a ser injustiçado
De uma forma indecente
Em adulto suas qualidades
São de importância menor
No meio de falsidades
É escravo cheio desamor
Quantos se dizem ser amigos
Para o outro cativar
Cheios de muitos sorrisos
E a faca estão a cravar
O fraco sem grande margem
Para se poder manobrar
É sufocado pela ordem
Dum que o queira desgastar
Na justiça se não tiver bens
Que o possam absolver
Culpado fica refém
Sem ninguém para o proteger
O poder é perverso
Subjuga o subordinado
Que faz tudo que é complexo
Com muito pouco ordenado
Com todos os trocos contados
A saúde não é prioritária
Doentes andam esforçados
Numa inexistência diária
O carimbo que se aplica
A qualquer pessoa de bem
Só por má-fé se justifica
E quem não quer ver, também
Maltratar um idoso
Ou pessoa pela cor
Absolver um criminoso
É injusto seja onde for
07-11-2012 Maria Antonieta Matos
AMIGOS
Tenho um jardim de flores
Perfumando o meu dia-a-dia
Enfeitado com lindas cores
Enchendo-me de alegria!
Maria Antonieta Matos 27-08-2012
NÃO QUERO GUERRAS; NÂO QUERO CONFLITOS
Não quero guerras, não quero conflitos,
quero mares calmos e ventos benditos.
Quero o riso solto das crianças na rua,
e o brilho sereno da noite com lua.
Não quero gritos nem fúria em punho,
quero o abraço… esse doce cunho
que sela promessas e cura feridas,
dando sentido às horas vividas.
Não quero ódio, nem muralhas frias,
quero pontes feitas de alegrias.
Quero o pão partilhado à mesa,
onde a paz é simples, mas pesa.
Não quero guerras, nem armas erguidas,
quero histórias de mãos unidas.
Pois se o amor for o nosso fardo,
o mundo será leve, e será mais tardo.
Não quero guerras, não quero conflitos,
quero caminhos limpos, passos convictos.
Quero o sol inteiro nas manhãs claras,
e a paz nas vozes que outrora foram raras.
Não quero ferros, nem grilhões humanos,
nem ódios velhos, nem enganos.
Quero a esperança em flor nas janelas,
e os corações abertos como estrelas.
Não quero tronos de poder vazio,
quero o labor humilde, o pão macio.
Quero a canção que o campo murmura,
e o tempo manso que a alma cura.
Maria Antonieta Matos
FOGO DE OUTRORA
Sinto desejo de ter, na mesma hora,
Esse fogo de outrora que me ardia,
Chama febril que em sonhos me consumia,
Luz que do peito em ânsias se evapora.
Era loucura, sim, que me devora,
Delírio doce em febre que me guia,
A mesma chama que o tempo desafia,
E que a razão, vencida, ignora e chora.
Oh labareda antiga, vem, retorna,
Acorda em mim a fúria tão perdida,
Refaz em chamas a alma que se deforma.
Pois sem o teu calor não há mais vida,
E o coração, sem fogo, se transforma
Num frio mármore em sombra endurecida.
Maria Antonieta Matos
Comentários (2)
obrigado por me ler
Gostei , escreves bem :)
Editou o livro “ Visita à Aldeia da Terra” através de Edições Poejo, baseado e inspirado na Aldeia de esculturas em barro e cimento, sita em Arraiolos, livro de quadras e fotografias personalizadas na atividade e profissões da aldeia, apoiada pela junta de freguesia de Arraiolos. Fez apresentação do livro em escolas e Bibliotecas Municipais para crianças do jardim-de-infância, escola básica e séniores. Colabora em vários grupos de poesia e blogs.
Editou o livro "OLHARES RITMADOS - Nada Sou... Mais Do Que Eu", em 2022
Participação em Coletâneas: “Poetizar Monsaraz - Vol I” “Poetizar Monsaraz Vol II” “Nós Poetas Editamos V” “Nós Poetas Editamos VI” “Sentir D’um Poeta” “Eternamente Poeta” “Poesia sem Gavetas Parte III” “Poemário 2015” “Conto de Poetas Parte III” “Amor Eterno” \"Poemário 2016\" \"Apenas Saudade\" \" Fusão de Sentires\" \"Poemário 2017\" \"Mais Mulher\" \"Perdidamente II\" - Autores Edição - Pastelaria Studios Editora Grupo Múltiplas Histórias \"Sopro de Poesia\" - Autores Edição Orquídea Edições - Grupo Múltiplas Histórias \"Poesia a Cores\" - Pastelaria Studios Editora Grupo Múltiplas Histórias \"Dança das Palavras\" - Pastelaria Studios Editora \"Poesia com Reticências (...) - Pastelaria Studios Editora \"Poemário 2018\" - Pastelaria Studios \"Cascata de Palavras\" - Pastelaria Studios Editora \"Perdidamente Vol. III\" - Poem' Art - Grupo Literário Amigos - " Delírios de Verão" - Delírios de Outono" "Poesia na Escola" Verso & Prosa
https://tradestories.pt/maria-matos/livro/visita-aldeia-da-terra
Português
English
Español