Escritas

Lista de Poemas

PROMETEU ETERNO [MANOEL SERRÃO]



Ó vibrai-o o rijo punho! Deixai-o de ser o amargo remédio dos teus infernos.
Deixai-o levar o fogo divino de Prometeu eterno ao vosso Ente cego.
Deixai-o Mundo Novo e o Velho Mundo pronto e acabado vos levar ao Mundo Futuro Novo começado!

Oh! Que belos olhos! Sonho guardião do fogo Eterno. 
Ó que belo Mundo ideado! Belos são os olhos verdes-claros do todo dominado Mundo inacabado.

Belo! Belo! Belo Mundo pela cor do tom tornado o acreditável,
E o pleno acreditado no Futuro Mundo Belo.
Belo! Belo! Ó Mundo belo! Todo belo Mundo em tudo começado.

Ó catarse! Ó cães! Ó aves cheias de graça dos mundos plurais habitados!
Ó por que não faleis. Dizeis o que vieste dizer? Dizeis do óbvio que o homem não ver? Ouves: os homens que sofrem sem sonhos e sem saber precisam nascer e florescer!

Ó Bendicto sejas tu saber, invasor! O Mal belo ‘sta na pedra bruta e o Bem belo n'alma do saber!
O Saber! Não o Saber que se desenha de um hoje-amanhã que sustenta o falso,  mas que se mostra como Mundo verdadeiro! Ó não é sonho nem saber! Porque se sonhar saber faze-o sofrer, não sonhar saber faze-o morrer!

Ó a quê Mundo tudo deveis saber? E de que tudo podeis sede possível – tornar-se – o Tudo é Possível Sonhar - quão saber do Mundo - Saber como O Mundo derradeiro?

Eia, bela quiromante bela, predica é-lhes o futuro? Não os vês?  Não vês qu’inda dos clãs por não saber vagam bandos, brutos, rudes e rugem os bárbaros sonhos nunca maiores do que as palmas das mãos!
Ó louvado sejais vós! Saber é uma estrada de luz, na floresta da Noite e das sombras.

Ó vibrai-o o rijo punho! Vibrai-o!  Às armas, sonhos, às armas, saberes!
Que a arte seja a vida e a vida arte da poesia que se cria por saber, não seja apenas sonho que se acaba sem Vida e Sonho por não saber sonhar nem viver: não há vida nem sonho!

Ó Homem-futuro-do-Saber-Sonhar sem o Mundo Escuro à Luz-Sol com que Sonhara saber sorrir... Depós de muitos sábios conselhos, saber? Saber, não é sonho!

 

 

 

 
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E EROS ESPERA [MANOEL SERRÃO]




Co’a face rosa em tez rubra sã em largos risos,

Quão n’A boca carnosa virgem um terno beijo.
Tu que és por gênio – o desejo - fulgor incontido?
Ó não os dês! Não os dês, ó gloriosa, diva Musa.
Não os dês, pois, crua e pura teu deleite nua!

Ó não os dês, pois, não os dês aos maus sentidos,
Nem aos vis, doces tetas, os dês aninhos: ouvidos!
Não os dês aos maus ouvidos a quem te ama,
Infecta-se d’alma anóveas pelo fado da lama.

Ó vens tê-la gentil bela flor aos meus sonhos.
E diríeis a rir-se de si em leve áureas a cantar.
Que dia após dia, o vosso amor que me fias: é:
Ditoso sobejo encantado, elo da vossa bel prazer
Ó vens tê-la gentil bela aos versos que me crias.

Ó sem vês, há uma flecha amorosa no meu coração.
Há este amor que n’Ele há de tão pio na minha oração,
Há n’Ele há que s'espalha adejante na minha canção.
Ó quão feitos um para o outro e não vens pra sonhar!
Ou será tudo qu’eu nada sou aos olhos do vosso amor?

Ó vens!  Se não vens ao meu circ’lo de fogo...
Sejais bem-vindo a
 vós mesmo amor!
Se a espelha rasa trincou... E Eros espera!...
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POLÍCRATES, O SABOTADOR DO PRÓPRIO SUCESSO [MANOEL SERRÃO]



Em uma sociedade cada vez mais pluralizada como a nossa, sobretudo, customizada, baseada no consumo descartável, sitiada pelo marketing e pela estratégica midiática, completamente fútil, liquidificada, cativa do lixo cultural e do efêmero, que nos passa a falsa ideia de vivermos num mundo capitalista globalizado de infinita abundância e fartura, em que proclama pelo direito à felicidade através da mais plena satisfação que alimenta a um só tempo todos os desejos, sobretudo, o desejo de aquisição material, à evidência de que outra forma não se pode pensar. Que cruel subversão impôs a sociedade industrial e no presente agora arrematado pela cyber-thecno-digital aos mais obscuros interesses  conspiratórios (por eemplo: a Elite das Sombras) para  a escravidão humana, já que a tecnologia não tem alma nem sentimento, e dessa maneira sendo o único mecanismo capaz de perpetuar a submissão do homem pelo poder do próprio homem. 

Às vezes ambígua a ideia da felicidade incorpora a de culpabilidade, tão bem representado pelo mito do anel de Polícrates, senão vejamos: “O rei Polícrates era feliz. Tão feliz que não havia nada que pudesse desejar. Pensou, então, que seu destino era bom demais para estar conforme com a lei do mundo; sua felicidade só poderia ser destruída se não conjurasse o destino infligindo a si próprio um sofrimento. Entre suas riquezas havia um belo anel, que ele amava sobre todas as coisas. Decidiu sacrificá-lo ao mar. Mas os Deuses recusaram a oferenda: um peixe engoliu o anel que, ao ser encontrado por um pescador, foi reconhecido e restituído ao rei. Polícrates, vendo nessa inconveniente restituição um sinal dos deuses, tentou, em vão, desembaraçar-se do fetiche, mas, sem jamais consegui-lo, perdeu nesse desesperado esforço, um a um, seus bens e sua tranquilidade”.

Que temeroso destino teve o rei Polícrates diante da plena satisfação material, e assim, porque não “espiritual” de todos os seus desejos. Sem dúvida, um desafio para o mundo contemporâneo, e para todos nós humanos, Polícrates, O SABOTADOR DO PRÓPRIO SUCESSO, ou não!
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OS POETAS COM PALAVRA [MANOEL SERRÃO]




O que silente o poema pelos tomos em voz alta não fala.

Fala calado pelo ósculo mudo e na boca podre não cala!
Fala na folha “adivinha” no dito em vez só de ouvidos.
E no que muito sente, fala, dita na voz escrita a palavra.

Fala por chuvas de balas hostis e quão reboados canhões;
Fala por doridos dilúvicos sob um céu de fuzis;
Fala por obus de versos sutis e avis odes blues de anis;
Escarra-nos, por sua "guerra" ao mundo? Altiva, berra-nos!
Fala-nos por palavras retilíneas, tortas ou entrecortadas,
Fala-nos nas estrofes livres, cativas ou arrumadas. Fala-nos!

Fala-nos, inda que a sombra dê-se à luz em ares de grande.
E, dê-se em ares de Gandhi do Ser com o Ter, todo o combate.
Ao passo, que dentro o embate de conjugá-lo o verbo vos cabe.
Fora o que não sabe? Saber por idade, sabe o poeta...
O poeta sabe dar por Amor à palavra o lume do Sol-Idade.

Inda que pura ou suja ou mais que imperfeita o profanam.
Inda que pedra ou pena, e não lhes dês trégua, o ultrajem:

Ó só sabe na “carne do almaço” quem sangra rios no verso;

Só sabe de Goethe quem recita os belos versos de Homero;

Ó só sabe das chagas as dores quem ressuma na Parkinson;

E o que na lama a alma sã por sorte desinfeta-se da morte.

Ó só sabe quem afaga urtiga no verbo a lã o poeta carrega.

E opila o suor da vida pelos poros da palavra dita singela,
Até que o vate afogue a poesia na testa, mas fala a poética!
E se assim, não tarda do impossível, dizer-te: toda nua sua?
É vossa a poesia, não a palavra?
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ESPERANÇA! BOA ESPERANÇA (MANOEL SERRÃO)






Sentimento de quem vê como possível

A realização daquilo que deseja.
Esperança! Esperança! Esperança!
Esperança mesmo quando não há esperança para isso.
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BÁRBARA (MANOEL SERRÃO)

Eia, tu onde vais! Onde vais que desliza entre m'alma e mim, mascando-me o corpo até que o sangue espanave-me a carne!

Eia, tu onde vais! Onde vais que desarvora-me das ameias, pondo-me de joelhos até que o rés condene-me à mea-sorte!

Eia, tu onde vais! Onde vais que voraz e perfídica feriste-me por érea forte a gratidão, e a rima inobrecida até a morte!

Eia, e tu onde vais! Onde vais? Onde vais para que todos saibam que te sofre aquilo
Que te faz sofrer na tua brutidão? 


Eia, inda, assim, ó purusha, bárbara podridão?
Serei completa ação espiritual e eterna poesia aos olhos do coração!
E eia tu, ó Bárbara, diz-me: onde vais? Quem te morreu!


* purusha: humano ou humana no sânscrito.
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AXIOMA DE AZEITONA [MANOEL SERRÃO]





Meu axioma não agrega e nem soma... Meu axioma?

O meu axioma é puro genoma de oleosa azeitona.
É xucro azorrague alma de abobrinha que azucrina.
É gumma de beiju com angu, pirão de puba que assoma.

Meu axioma que não soma e nem adiciona... Meu axioma?
O meu axioma é ázimo, aziago de azinhavre; e
spique negresco de azevinho;
brinda de zinabre venosa que fermenta a vida com azia.

Meu axioma é azedume de conserva; picles de alho com pimenta; ruge e batom de urucum; o meu axioma é pó compacto de amido com maizena.

Meu axioma que não sonha com o pincel da Faber-Castell,
É rímel, míssil atômico no céu anil da babel.
É azo fétido de arroto azebre, vomito, baba de quiabo, golfa de babosa com conhaque da Barra.

Meu axioma é bafo ofídico, fermento e bacilo no iogurte de Baco.
É lata velha sem ABS e air bag automático, é quão pitiu de sovaco e morrinha bactéria sem Minâncora de bácoro.
Meu axioma é premissa necessária axiomática, verdade auto evidente e oculta que não se demonstra, mas escarra-me demente!

É cusparada nauseabunda de “razões” opostas que dessemelham.
Oh! E quão toda axiomática ilusão: meu axioma é inverdade real
no prato da necessidade...
Ó meu axioma, é não ter axioma nenhum!

 

 

 

 

 

 

 

 

 
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SEM TIRTE NEM GUARTE [Manoel Serrão]






Nenhuma Arte à pArte,
É Arte flama que arde.
Nenhuma Arte é pArte,
Arte tirte nem guArte:
Arte se não compArte.


 
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HOMÚNCULO [Manoel Serrão]


D'ingrata o labéu desdouro amaro-a-bílis negra do vosso fel.
Ostento em terra os pés do que servil o insano que abraça o vil, e o vil sano que abraça o homem desfigurado em figurante papel.
Não! Não sou o Pégaso, nem o Ego-rex “solipso” dos vossos desfastos solitários.
Não! Não sou o verme senil, nem a rês do canzil das vossas cobiças inconfessas.
Não! Não sou a presa inútil no calabouço da vossa purga, tampouco o surto suplício de Tântalo: tão perto e, tão longe, tornado a pedra agastada do vosso anel.
Ó vês, sei d’Eu tanto quanto mais sei do que sei quem sou, e do que sei, não sabendo, eu, que não sei o que sou, assim como não sei, também não penso saber que sou: ora uns recheios de nãos, ora Outras vaguezas de sins! 
Inda incréu sem me saber sobrevido ao oblívio da morte, solitude soluçada, queiras ou não: por migalhares a verdade da vossa risada; sou O capitão da minha interioridade livre ou sitiada; sou A gota suicida, a bátega afogada sob o crepom azul do papel; sou um par de asas supra no meu caduceu.
Assim, ora homúnculo um pixel de mim; ora Enoque gigante que "andou com Deus" avoante ao céu! Sou O meu próprio e o único Ser-a-afim nessa Babel













































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ONDE DEUS HABITA [Manoel Serrão]








Ó quando sou o que desejo ser?
Sou o ser onde Deus habita.
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Comentários (1)

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321alnd
321alnd
2019-03-06

Parabéns por seus textos e seus poemas, meu caro Manoel Serrão. Poesia é, como disse o grande poeta Octávio Paz, salvação e nós dois seremos salvos por ela, assim como todo aquele que faça da beleza o único pão para sua alma. Tenho igual honra em te-lo como leitor. Um forte e cordial abraço.