OS POETAS COM PALAVRA [MANOEL SERRÃO]
manoelserrao1234


O que silente o poema pelos tomos em voz alta não fala.
Fala calado pelo ósculo mudo e na boca podre não cala!
Fala na folha “adivinha” no dito em vez só de ouvidos.
E no que muito sente, fala, dita na voz escrita a palavra.
Fala por chuvas de balas hostis e quão reboados canhões;
Fala por doridos dilúvicos sob um céu de fuzis;
Fala por obus de versos sutis e avis odes blues de anis;
Escarra-nos, por sua "guerra" ao mundo? Altiva, berra-nos!
Fala-nos por palavras retilíneas, tortas ou entrecortadas,
Fala-nos nas estrofes livres, cativas ou arrumadas. Fala-nos!
Fala-nos, inda que a sombra dê-se à luz em ares de grande.
E, dê-se em ares de Gandhi do Ser com o Ter, todo o combate.
Ao passo, que dentro o embate de conjugá-lo o verbo vos cabe.
Fora o que não sabe? Saber por idade, sabe o poeta...
O poeta sabe dar por Amor à palavra o lume do Sol-Idade.
Inda que pura ou suja ou mais que imperfeita o profanam.
Inda que pedra ou pena, e não lhes dês trégua, o ultrajem:
Ó só sabe na “carne do almaço” quem sangra rios no verso;
Só sabe de Goethe quem recita os belos versos de Homero;
Ó só sabe das chagas as dores quem ressuma na Parkinson;
E o que na lama a alma sã por sorte desinfeta-se da morte.
Ó só sabe quem afaga urtiga no verbo a lã o poeta carrega.
E opila o suor da vida pelos poros da palavra dita singela,
Até que o vate afogue a poesia na testa, mas fala a poética!
E se assim, não tarda do impossível, dizer-te: toda nua sua?
É vossa a poesia, não a palavra?
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