Lista de Poemas
CHAGAS [Manoel Serrão]

Ó chagas essas tão eternas.
Despertai-me, Senhor, os vazios.
Perdoai-me, Senhor, os infiéis.
Libertai-me, Senhor, os cativos.
Ó chagas essas tão eternas.
Curai-me, Senhor, os inculpados.
Embalai-me, Senhor, os incriados.
Desfraldai-me nos estendais do solário o branco enxágue das minhas verdades derradeiras.
Ó catarse! Se tudo o que sorrides de mim e do erro sorris é o quer vós fazeis? Por que então choreis a dor do vosso lastimoso pranto? Ó cães! Se tudo o que sorrides de mim e do modus sorrir é o que sabeis? Por que choreis o ébrio que vos abateis o Ebro desencanto?
Ó chagas essas tão eternas.
Não os deis a saberem do sol que não há.
Não os deis a saberem! Não os deis a luz! Não os deis a saberem do orgulho que ressuma de todas as minhas chagas.
Hás-me de ser – de o mau, e o mal ser belo o bom não saber?
Hás-me de ser - de o bem, e o mal me quer ser o bem querer?
Ó deu-as nas águas ondulantes de Tessália uma profecia anunciada: doravante chagas eternas essas tão curadas.
L´ROMA DE CAFÉ [Manoel Serrão]

Do lado de cá?
Um aroma de café, uma sombra
E um banquinho na praça.
Do lado de lá?
Um gerente do banco, um aperto de mão
E alguns zeros na conta.
Assim, bendizente a vida me fez decidir:
Sem pressa, o aroma do ca-fé?:
Gesta até hoje no Ser-afim.
VÍCIO [Manoel Serrão]

O meu amor
tem sempre um vício:
As vezes reclama do conforto;
Outras, conforta
o egoísmo.
O SAL & A CAL [PRÊMIO POESIA AGORA - EDITORA TREVO - SÃO PAULO] [MANOEL SERRÃO]
A safra do sal em grãos farta a lavra encharca o chão.
Safa-se em sacas o grão-patrão, faz do silo farto um cio em Gaia,
E do latifúndio quão o Olimpo um Céu à mão.
A "safra” da cal a cruz, o poial, o caos de Hades, a escuridão.
Purga o servo O Ser-Adão, a servil Eva sem-terra na precisão,
E da fé a dê lírica ilusão d'Asa Branca partir como um "avião".
O Ser a morte antes que o destino por sorte condene-o à morte?
Chora o lamento, agoniza dorido o martírio... Ó maldita agoniação!
E roga o pio, paga a novena em vão, troca o sonho pela unção.
Mas a gleba cava que não lhe augura o pão? Acaba sem-grão!
Ao passo que o fero infenso cego Cabra da peste,
Em dilatada ira, sem “opor-se ao pão”, cede à boca do cano,
Gira mira, nega o feito o vil no peito e odioso aponta...
Mas a conta que arroga o Amo pela "cava" do chão?
O dedo acaba no Cão!
CRÍTICA LITERÁRA POR: Francisca Ester de Sá Marques, ou como é mais conhecida Ester Marques é atualmente professora adjunta do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão. Possui mestrado em Comunicação e Cultura pela Universidade de Brasília. É autora de vários artigos e do livro Mídia e Experiência Estética na Cultura Popular. Faz parte da Comissão Maranhense de Folclore. Ex-Secretária da Culturaa do Estado do Maranhão. Hoje Assessora Especial do Governo do Maranhão.
A cal e o sal
O primeiro sentimento que a poesia a cal e o sal nos
Desperta é o espanto seco e duro que observamos, por.
Exemplo, na obra Vidas Secas de Graciliano Ramos.
Quando expressa um sentimento semelhante sobre a seca
No nordeste. É uma poesia chocante que nos leva a pensar
A dualidade yin/yang da vida. Para que lado, nós queremos.
Ir?
Depois desse choque inicial, a segunda leitura.
Murmura mais leve aos nossos sentidos angustiados e, no.
Mastigar de cada palavra, descobrimos a beleza latente e.
Abrupta que surge em cada verso. É uma poesia crua,
Densa e crítica, mas ao mesmo tempo, intencional e.
Voluptuosa que nos impulsiona a refletir sobre a realidade,
Sobre as desigualdades, sobre a fertilidade que brota Da.
Terra... que brota do homem.
Nesta poesia, o que distingue a criação da criatura? A
Criação é fruto de uma anamnese sofrida, prenhe de amor,
Pronta a revelar-se/desvelar-se que se defronta com um
Criador que se esconde porque a sua identidade o
Incomoda tal como a realidade carente que o rodeia.
Criação e criatura fundem-se, no entanto, na poesia que.
Encanta e seduz, no equilíbrio rítmico das palavras que.
Despertam o nosso imaginário, na simbologia que fere e.
Incomoda.
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Comentário de Lustato Tenterrara em 22 maio 2010 às 17:25 Lindo poema, Poeta. Saiba que muito nos honra tua presença em nossas redes sociais.Parabéns pela brilhante inspiração, tão forte, tão febril, tão crua e nua que teu poema Sal e Calcerca-nos, leitores, com a visão sinistra de uma miséria mil vezes dita e que continua muda em face da falta de consciência dos Governos-Estados, dos países dito "ricos". E são ricos não à custa da fome que assola nosso planeta, pois recente estudo oriundo do Gabinete da Presidência da República (Brasil) revelou que com a metade dos recursos "doados" aos grandes bancos por ocasião da crise financeira de 2009, seria suficiente para acabar com a fome no planeta. Uma vergonha que a fome dos desvalidos irá cobrar no Dia do Juízo, de todos aqueles que, dolosamente, omitiram-se ou deixaram de agir.Um abraço. PS.: A gravura de Portinari, além de lindíssima, inteira toda a trama, dá vida, mais ainda, ao holocausto do século 21. Portinari, com sua tela crua; Manoel Serrão, com suas palavras ferinas. Comentário de Lustato Tenterrara ao poema Sal e Cal, de Manoel Serrão. |
ANEL D’ÂMBAR [Manoel Serrão]

Louv'v 'stá núbil,
‘Stá “Loba” ‘stá úbere.
Lou’v ‘ste útero de fecundado amor,
Lou’v en... Lou’v en teu belo!
Ó lou'v! Lou'v en 'stá sorte!
Lou'v en 'stá serônia chuva.
'Stá serena orvalha, brisa do zéfiro.
'Stá mirra o aroma-rosa o coração fraterno. Lou'v en d’alcácer a libélula ‘alcanfor a mais bela!
Lou’v ‘stá ófris ‘stá "Fleur”.
Lou’v ‘stá croma lis buquê d’cor.
Lou’v en 'stá paz.
Lou’v en teu belo!
Ó Lou'v! Lou'v en 'ste amido.
Lou'v en 'stá madura semente o grão.
'Ste sal no cio do chão.
'Ste néctar humus do Nilo régio.
Lou'v 'stá colheita do afã, ânfora d’farto grão.
Lou’v ‘stá Isis ‘stá flama ‘stá íris.
Lou’v en d’amimo a alma sem dor.
Lou’v en o luau que a ti espero.
Lou’v en teu belo desejo sonhador!
Ó lou'v! Lou'v en 'sta lira.
Lou'v en 'ste delibado, o tear do coser, o libar.
'Ste elo infinito desejo sonhador.
'Stá prenda gêmea de junho.
Lou'v en aprus das d’águas de aço.
Lou’v ‘stá Déia ‘stá Osíris a que tudo possui.
Lou’v ‘stá glória Atenas do Olimpo.
Lou’v en 'ste amoroso louvor.
Lou’v en teu belo humor!
Ó Lou 'v! Lou'v en 'ste encanto quebranto.
Lou'v en 'stá Boda de Canaã 'ste amor.
'Stá dádiva a glória múltipla a melena.
'Stá núpcia, 'ste porto-marina, 'stá Luz.
Lou’v en o adejo dos colibris pelo céu beija-flor!
Ó lou'v en 'ste soer d'áurea amena, lou’v!
It’s a miracle? Ó D'us... Ó D'us... Ó D'us...
Lou’v en teu belo! Lou'v en! Mas dade-mh-a
O elo teu eterno anel d’alindado âmbar.
Ó lou'v en teu belo, belo, belo o Amor!
DÉCOR [Manoel Serrão]
Daquele amor décor, restou:
Alguns mosaicos de xadrez pisado.
Um tapete [persa] puído
E um marrom-Rembrandt surrado.
O resto o tempo levou.
MESSIÂNICA [Manoel Serrão]




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Ó tivéssemos! Tivéssemos... Inda tivéssemos as epopeias homéricas – a ilíada e a Odisseia – a visão olímpica da existência, a expressão do deus Apolo de Delfos. Tivéssemos o modos respeito à efígie, o sujeito ético não objeto, a "justa medida" – a valorativa proporção em comedida porção por todas as fases da vida.
Ó tivéssemos! Inda tivéssemos... Tivéssemos a sertaneja epopeia – a saga d’a Pedra do Reino -, a visão dual sobrenatural, a expressão de Dom Pedro-Quaderna. Ó tivéssemos o modus sublime de olhar por meio da imago o universo popular. Tivéssemos os dois rochedos a sangue humano regados. Tivéssemos os fiéis sacrificados feito todos poderosos imortais ressuscitados. Ó tivéssemos!
Ó tivéssemos! Tivéssemos... Ó tivéssemos salvos os povos das florestas; Anastácias, Dandaras das cafuas, Luíses da Gama e os Zumbis da escravidão. Ó tivéssemos a dessedenta do Nordeste: a sebastiânica redenção. Tivéssemos dado cabo aos filhos da servidão. Tivéssemos as Cabras da Peste, o Rei do Cangaço -, Virgulino Lampião à sua imagem e semelhança. Ó sim sinhô! Tivéssemos Catulos, Vitalinos, Machados e Suassunas. Tivéssemos Joões do Vale, Patativas, Lobatos, Amados e Brennand's. Tivéssemos Montelos, Sousândrades, Gullas, Nauros e Gonzagões! Ó inda tivéssimos!!
Ó tivéssemos! Tivéssemos... Inda tivéssemos o drástico da tese; a cura pura para a incúria da peste; a norma culta menos culta distraida informal; o oblio obus para os corruptos e perversos! Tivéssemos o perplexo insano, os dês perfeitos, o imorredouro perpétuo!
Tivéssemos o hard, o soft, o bew: a Santíssima Trindade. O homo-cyber ultor urdindo a IA
que ‘stá por chegar. Ó sic? Tivéssemos!
Tivéssemos inda do artista o autismo! O toc sem pânico do bipolar: o sorrir no chorar, um prazer sem gozar no prozac e na eurritmia um cantar. O saber sem lugar inda por não saber o ser criar e d’arte: o recriar. Ó tivéssemos além das inquietudes e desgraças, de novo encenar em cada poema a intimidade do eterno nascer. A liberta da carne reinventar no pó o homo do barro.
Ó Tivéssemos! Tivéssemos Moisés... Francisco... Ratzinger... Tivéssemos Lutero... Agostinho... D. Helder e Mallarmé .
Tivéssemos Os “5 Solas” recristianizados. Pedro à Cristo jamais por três vezes negado. Tivéssemos mil vezes Deos a Enoc arrebatado. O clero de indulgências afogado. Tivéssemos dos profetas os dízimos exorcizados.
Tivéssemos O absurdo, a reponta, a eutimia. O absoluto em estado gasoso e todos os demais [sãos] relativos sonhando acordado. Ó Tivéssemos! Tivéssemos no Ser-ser existir os molambos dês feitos os farrapos...
Ó Tivéssemos no mundo que se enuncia na ordem social a consolidação da harmonia, o Bem para os códigos da justiça. Um lugar onde nenhuma importância a cor da pele nem do arco-íris tristeza tivesse, só alegria! Tivéssemos como os homens da Hélade as prédicas apolíneas: "Nada em excesso" e "Conhece-te a ti mesmo": Ó "Reconhece que não és um deus". Tivéssemos!!
Ó tivéssemos o Caos, os infinitos maiores do que outros e o reencontro do ser sem o consumo desejado que habita e modela o sonho. Tivéssemos! Tivéssemos o chilrear matinal dos pássaros; o arrulhat dos pombos toda a verdade e dos lábios o oscular sem mentir um calar. Ó inda tivéssemos dos Djins o encanto e o quebranto mais benfazejo!
Ah! Tivéssemos cultivado os afetos quão os DÊScomportados por todos abraçados. Tivéssemos DESobedecido as comunas -, até Cuba, Deus meu, até Cuba! E a fúria incontida do capital sujo. Tivéssemos! Tivéssemos o após sem podê-los usar contra todos buscando a quem devorar. Ó tivéssemos descartado a dúvida convertida em dívida quão a conveniência do descartesianismo -, o descogito: não penso - desconheço -, logo existo.
Tivéssemos! Tivéssemos o hoje antes dos gatos tiranos quão o depois do amanhã sem os ratos imundos, tivéssemos! Ó Tivéssemos O politicamente INcorreto, jamais o polido fascista tatuado a ferro.
Ó tivéssemos onde o Mundo passa o AMOR peregrino por todos os caminhos... Ó se ainda tivéssemos...
* IA [inteligência artificial]
ANTINOMIA [Manoel Serrão]
Vejo avessa à gangue a tribo.
Vejo o “avir” do vezo aviso.
Vejo o vício, o viço, o ambíguo.
Vejo a Vogue, a Veja, a crise.
Vejo o VIP, a voile, o yuppie.
Vejo o vil, a van, o viso.
Vejo o surdo, a Vox, o mudo.
Vejo o véu, a urb. Um puzzle!!
Vejo o obus, o ópio, o óbolo.
Vejo o ódio, o óbito, o órfão.
Vejo o ócio, o óbvio, o óbice.
Vejo o ópio, o ágio, o opus.
Vejo o arbítrio, o abuso, o brigo.
Vejo o rito, o mito, o Sísifo.
Vejo a réstia, o injusto, o grito
Vejo o luxo, a vida acabar no lixo.
Vejo o lombo, o arrombo, o tombo.
Vejo o vômito, o soluçado, o pânico.
Vejo o vômer, o “esperto”, o tonto”.
Vejo o ranço, o ronco, o pranto.
Vejo o Papa, o Bispo, o dízimo.
Vejo a Toga, o antro, o cancro.
Vejo o Bem, o Mau, o “Santo”.
Vejo o Rapa, o Mala, o Banto.
Vejo O Pai, o “dolar” – O Nóia.
Vejo a senha, o “trovão”, a prova.
Vejo o tira, o canhão, a pólvora.
Vejo O "Boca", O berro, O Humano.
Vejo o PIB, o desemprego, o adorno.
Vejo o perjúrio, o corrupto, o furor.
Vejo o sonho, o engano, vejo a dor!
Vejo claros, vejo pardos e negros.
Vejo magros, caricatos e vermelhos.
Vejo o todo, vejo o tudo, vejo o nada...
Vejo que não há por detrás dos muros para os homens,
Outros planos! Ó desenganos... Desenganos...
BALA ABALA [Manoel Serrão]
Bala à bala?
Bala é Bala!
Bala não cala bala.
Bala bate.
Bala abala.
Bala abate!
Bala à bala?
Bala obus cala.
Bala "trem bala" passa...
Bala doce acalma.
Bala... Bala... Bala traçada basta?..
Bala [ , ] para que te quero? Bala!
Comentários (1)
Parabéns por seus textos e seus poemas, meu caro Manoel Serrão. Poesia é, como disse o grande poeta Octávio Paz, salvação e nós dois seremos salvos por ela, assim como todo aquele que faça da beleza o único pão para sua alma. Tenho igual honra em te-lo como leitor. Um forte e cordial abraço.
