Escritas

Lista de Poemas

TRAVESSURAS (Manoel Serrão)

Era um quintal; 
Era um terreiro; 
Era um lugar de correr e pular.
Era uma vida de empinar pipa amarela e cantares;
Era bela! Bela! Bela! Uma vida tão bela de peripécias e sonhares.

Assim,
desde bem pequenininho, 
sujeito-criança do verbo conjugado imaginar,
a que se cria O D'us encantado?
Hoje olho a vida pela brecha da paisagem morta,
E não vejo o Mundo vivível sem (o) ferrolho na porta.

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MARIA CELESTE [Manoel Serrão]


Ó baixios d’areias, em que poças deságuas o alcanças?
Em que tormentas fustigas, ou borrascas o decolas?
Em que piras o inelutável fogaréu o devoras?
Em que quarto de horas o Celeste náufrago o afogas?


Ó Deus? Avistei destroços a bombordo e esbirros partirem-se no convés;
Avistei botes sem "hóspedes" quão corpos devorados a estibordo;
Avistei corsários entre acenos de S.O.S e lamentos quão almas inflamas através do fogo cruzado!

Deus! Deus! Ó Deos onde estavas que o destino fatal cuspiras em ardentes chamas a nau em águas de abrasado sal?

Ó Deos! Deos onde estavas que avistei em bravo prélio o Celeste brunir em ferro indo da purga ao inferno?
Ó Deos! Diz-me: onde estavas Deus? Onde estavas? Onde estavas que avistei da meia-laranja aos olhos nus de uns para outros rasos d’agua: o medo; o pânico; e, o brado clamor do assombro perpétuo? 
Ó Deos! Ó Deos! Aqui nest'hora? Quedo-me impávido, e, de joelhos aos prantos, sob o plúmbeo céu plissado pálio da Sagração? Ressoar impusente a voz do silêncio distante, quão d'ante o páramo o espectro da nau peregrina solta ao zéfiro; 

Ó juro-vos avistá-la d'ante o mar esbraseado, rubro-corado o quente revérbero da nau invisível  - o fantásmico Celeste -, ardente em chamas, apagar-se, regido pelos sussurros das vozes humanas, os últimos cantos e labaredas nos porões se perder ao longe, à  distância, mergulhar na eternidade de seu sono eterno... 
Ó juro-vos avistá-la d'ante o mar funéreo d'um março o naufrago, a nau sem âncoras perdida entre saudosas lembranças.
A nau vertendo lágrimas, acenando-me adeus... Ó D'us, quão vestuta ausência de tudo!


Ó Deos! Ó Maria Celeste, imortal t’alma solta ao tempo, viverás eterna por barcas à flor das águas, navegantes mares na memória dos homens.  



NOTA: O Maria Celeste foi um pequeno navio cargueiro de propriedade da Companhia de Navegação São Paulo, construído em 1944. Em 16 de janeiro de 1954, o navio foi atingido por um incêndio durante a operação de descarga de combustíveis em São Luís, Maranhão, e afundou após queimar por três dias consecutivos, deixando 16 mortos.



Comentário de João Batista do Lago: Belíssimo poema [A NAU CELESTE]: As imagens que o P. nos sugere são imensas e inacabáveis. Fiquei com a sensação de estar presente àquele cais, assistindo ao desespero de todos aqueles que, de fato, ali estavam, e nada puderam fazer. O grito, do Sujeito do poema, revela a dualidade de um inferno real e de uma metaexistência de esperança que jamais se concretizará em qualquer futuro. Ainda hoje as almas pensam por ali. Olhem o cais à noite e verão corpos boiando agora num mar de asfalto.

Nota sobre o autor do comentário:[“João Batista do lago, maranhense, pode ser considerado, atualmente, um dos mais completos poetas e cronistas do Brasil, haja vista a consciência plural e significativa de sua intuição cultural, fato que o faz passear entre musgos históricos gregos e o modernismo clariciano, espargindo o pensamento poético alemão, americano ou inglês, sem esquecer das taças saboreantes dos vinhos que enebriaram o cismar dos poetas franceses como BAUDELAIRE (Charles Baudelaire), MALLARMÉ (Stéphane Mallarmé), FRANÇOIS COPÉE (François Édouard Joaquim Copée) e MUSSET (Louis Alfred de Musset) – o poeta do amor. Como eu, o Maranhão e o Brasil também, creio, se orgulham de João Batista do Lago, uma das maiores expressões literárias do mundo moderno. Fato que, realmente não deixa a desejar se comparado a nenhum dos franceses acima citados”. Marconi Caldas Poeta, escritor e advogado São Luís – Maranhão – Brasil 2007].


  
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PIPA SOLTA DA PSIQUE HUMANA (Manoel Serrão)




Empina, l
anceia o Ego, guina o ID
Partiu-se a zero, rompeu-se o elo 
Quebrou-se o Self e poder do Rex. 


Na ronqueira da pipa solta?
O vento zumbe, a incônscia zoa.
E a razão livre da pessona tola,
Cambalhota alta pelo céu avoa...


 

 

 

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BEM QUE NOS QUER [Manoel Serrão]





Todo o saber de si,

É o "mal" maior que o bem nos quer.


 

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ANTROPOCENO [PONTO DE MUTAÇÃO] [Manoel Serrão]



Ó tu que dizimas em torturas a Terra que se consome.
Que subtrai das piracemas a vida contra a corrente.
Que poluís rios, veios d’águas, bicas, oceanos e mares.
Que atiras à rés floresta, matas ciliares e árvores.
Que ceifas aves, insectos e todos os seres criados.

Ó tu que dizimas em torturas a Terra que se consome.
Que baforas dos canos monóxido de carbono.
Que sufoca de fumaça tóxica e metano o Ox dos ares.
Que lanças ao colo Mater: o lixo do luxo do vosso conforto.
Que selas de betume o barro e asfalto a verdejante relva.

Ó tu que dizimas em torturas a Terra que se consome.
Que arranha-céus de concreto e aço enfeando o espaço.
Que alteras os célsius e roazes geleiras avultando os mares.
Que degradas a bioface e a Geo matéria física da Terra.
Que condenas o futuro da era natural gravada na pedra!

Ó tu que dizimas em torturas a Terra que se consome.
Não vês qu'tua sorte contra o tempo e a morte, será apenas lembrança tatuada na pedra lascada?
Ó Ser contra o Sol que se apaga, haverá de vir outro sol se acender?
Ó Ser contra a Lua de Jorge, haverá de vir outra lua por sorte?
Ó Ser contra as forças do Universo, tornarás mutáveis o que são imutáveis?

Ó não vês? Estúpida humana que hecatombes e reboados trovões estão por chegar?
Ó não vês? Estúpida humana, que almas pias serão escravas d'um sistema que se anuncia?
Ó não vês? Estúpida humana, que deveis do mundo cuidar, evoluir e transformar.
A dimensão coletiva do sujeito?

Sabeis! Se dela não vos tendes piedade, dela não tereis no destino, à vossa piedade no futuro!
Há um formigueiro de bocas com Oito bilhões de outros, enramando-se sobre a Terra coberta de pedra!
Sabeis! Se não sabeis! Sabeis que a vossa eternidade não irá de além da curva dos dias,
Como a soma da humanidade em partes sequer resultará num só homem [inteiro].

Ó cioso [a] Deus [A] Universo que tudo sabe, ordena, prevê, defende e repara:
É da Gaia aos humanos o desejo que desses erros, os pudessem perdoar,
E os fizessem da culpa saber que estão perdoados por cuidar.

Ó eia o Xis da questão, onde habita o Ponto de Mutação!
O presente indigente mais que imperfeito está doente...
Ó Gau! E eles não sabem que jazem?

 

 







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DÊS] . [CENTRO [Manoel Serrão]



Dês] . [Dês
Dês] . [Centro
Dês] . [Cético
Dês] . [Concerto
Dês] . [Concreto

Dês] . [Dês
Dês] . [Juízo
Dês] . [Parâmetro
Dês] . [Julgado
Dês] . [Engano

Dês] . [Dês
Dês] . [...

Dê] . [Dê
Dê] . [D’ modo ético: o alvo, a meta, o plano.
Dê] . [D’ modo o imanente, o urgente.
Dê] . [D’ modo múltiplo, o plural, o singular, o simultâneo.
Dê] . [D’ modo expressão ao potencial inerente.

Dês] . [Dês
Dês] . [Centro
Dês] . [Nó emergente
Dê D o modo D crescente sem cetro [O] crescente.
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DELIRIUM [Manoel Serrão]







Distorce-me

O real pelo avesso...
Ó delusao? Mentir para o meu“eu”? Não!
Nunca fui (ao) mundo oposto.
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ORELHAS al 'sdɛntes [Manoel Serrão].



Ouça! Ouça! Escute sempre, converse com os olhos até bater com as orelhas nos dentes.







 

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AFAGO POUCO [Manoel Serrão]


Afago que não passa troco.

Afago que sonega o outro:
É poço que afoga o choro.
É vento que apaga o fogo.
É fel que amarga o doce.

Afago, sonegado ou pouco,  
O que há de não fazer no afogo,
quando o afago sonegado ou pouco,
Não o afaga solto?


Ó tanto mais se si ilude!
A troco d'um afagar,
ao se dar se pensa pouco.
O que há de não fazer chorar?





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ALGUÉM ME DISSE! [Manoel Serrão]


 
DEDICO-O IN MEMORIAM DO MEU PAI             
[AGAMENON LUCAS DE LACERDA]
 
Com o arco-íris que não sonhei pensar...
Alguém me dissera: um dia as cores iriam mudar.

Falou-me que as haveriam de desbotar.
E deu-me um sábio conselho:
Cumpre-a com amor e ternura, e haja o que houver, honre-a, custe o que custar.

Cego de mim não "ouvir" e sequer "encarei" seu terno olhar.
Duvidar do que o Homem dizia? Duvidara!
E a vida rio ao mar,
Me fez saber pelos braços do destino, caminhar...
Hoje sem poder abraçá-lo, e, sem duvidar do que o Homem dizia:
De saudade choro até soluçar!




 
 
 

 
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Comentários (1)

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321alnd
321alnd
2019-03-06

Parabéns por seus textos e seus poemas, meu caro Manoel Serrão. Poesia é, como disse o grande poeta Octávio Paz, salvação e nós dois seremos salvos por ela, assim como todo aquele que faça da beleza o único pão para sua alma. Tenho igual honra em te-lo como leitor. Um forte e cordial abraço.