Escritas

Lista de Poemas

Planície do tempo

Tempo...
Flor em desabrochar continuo,
Albergue de quantas lágrimas
Relâmpago desluzido do agora...
Atravessando por sua planície
Viandantes de toda hora,
Por estações, plantios e colheitas,
Caminham de mãos dadas
Entrelaçando realidades e sonhos,
Risos e prantos, partidas e chegadas

Tempo... tempo...
Em despedida, vestidas de cansaço,
Por detrás do resplendor tremulo
Pesarosas quão tardias lágrimas,
Inundam seu caminho lasso,
Lavando das esperas o acúmulo,
Da nostalgia a relva e o túmulo.

Tempo... tempo... tempo
Janela entreaberta às fantasias...
Em seu parapeito, emudecida
A vida se curva à sorte;
Despede desbotadas as alegrias
E lança-se de ti para além
Usando por trampolim a morte
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Veste branca da manhã

Bordando a veste branca da manhã
Sorridente, desperta dourada, sem pressa
A luz da aurora espreguiçando na parede
E em seu raiar silente bebe minha sede
Em solene entrega de pencas de promessas

Ah! Esse aroma matutino que me inventa,
Em outro solo, em outra água e em outros ares,
- débil bacelo salvo em vinha poeirenta -
E em toda sorte de semente e de pomares.

Ah! Perfumada veste branca da manhã!
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Quadras finais

O verbo em mim se esvai isso é verdade,
Desfalecido na fuligem do meu peito.
Engano ter-me crido um alvo eleito,
Sirênico sonho, ser do estro a raridade

Lança aguda - fere e fende a sanidade -
A vaidade, sutil madrinha do imperfeito,
Risonha e fácil insinuou-se em meu leito,
Vestal profana, por progênie a veleidade.

Esvai-se o vento e sem rumo meu adejo
Por sol esvoaça, adentra a noite, ao relento
E as certezas, a segurança e até o talento,
Já distantes, apagam os rastros de sobejo

O silencio que me veste o verbo inteiro,
Vem sem rosto, vem sem vulto e sem matiz
Do fracasso é talho vivo e é cicatriz
È a tristeza a libertar-me em seu viveiro

Porque dessa liberdade ser posseiro?
Pra que asas, quero longas, sem ter céu?
Silencia-se a ópera bufa ao meu te-déum;
Secam-se me as folhas, reaparece o canteiro!
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Palavras vazias

Da luz perdeu-se o branco das palavras...
Desbotados, os gestos descidos delas,
Perderam-se igualmente da doçura
Desfeitos, insípidas gotas da verdade.

Da pagina, remota pagina, que perdura,
Sombras se confundem com as minhas
E o branco das palavras sobre as linhas
Decompõe-se em cores mortas e em rasura.
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Nuvens espessas

Espessas formam-se as nuvens
Carregadas de cor e de penas
Das penas caladas na alma
Na alma em que o penar reza
Quem como ao céu acena
Sem disfarce rogando à arte
No Deus de quem ela é parte
Que as espessas nuvens errantes
Sejam brancas, fugazes, serenas
Caminheiras em cantilenas
E seja a tormenta estandarte
Fechando-lhe o inverno, destarte.
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Regenerando

Equilibre-se minha cambembe carcaça...

De ti me libertar não pude, não posso e tento

Tentado no menino que de sempre e ainda,

Num jogo acriançado de birra e de graça,

Em seu bojo sorri e brinca arreliento.

Deste casulo que o pó dos anos encurva,

Despertar adolescente retorna à fantasia

E o licor adamantino brota da fonte turva;

Torrente primaveril à carquilha se mistura

E regenera a velha craca inerte, seca e dura.

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Dá de coração o coração

Mostra-te no amor o aceno parco
Postigo de espia tênue e breve...
Aeriforme, borboleteante - delicado,
Deixa inteiro que seu vôo o leve.
Dá-lhe de coração o coração,
Seja no iracundo torpor do medo,
Seja nos braços febris da emoção.
Enreda-te em seu arco com avidez,
A todo risco mergulha em seu condão,
Tinge na sua cor teus medos de lividez,
Não desposes por segura a pétrea solidão.


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