Lista de Poemas
Deixei meu coração enfim morar na lua
Deixei meu coração enfim morar na lua.
Vi seu olhar, no céu sem fim planar, errante.
Vi-me espelhada a sorte eterna em brilho instante
Que na imensidão revela a essência Tua
Senti toda demência que na ciência atua
- Buscando pela essência Teu pairar constante
Sobre a mãe esfera - em atitude infante,
Pois tendo a Ti adiante segue improba e crua.
Vi do meu coração um longo olhar rendido,
Radiante e embebecido no esplendor da casa
Da Tua paz e da Tua luz, sem ter, sem dor, sem ruído.
Ouvi meu coração por fim bradar da lua:
“Dá-me fazer senhor, da imperfeição uma asa
Presente
Preciosidade soberana, segura,
Lente diáfana da realidade em ação!
Perene morada de glória e loucura.
Não fujas do É, nem divagues.
Assim, que ao imponderável será,
Remorsos e quimeras não pagues.
Preserva a flama que só aquele te dá!
Porque contemplar em frincha estreita,
Se encontrarás ossada desértica e adeus?
Registro ou é história ou é colheita.
Em memória os cultue, vá lá, eram teus!
Acende teus refletores e teus gravetos
Luz no presente, não no que vem ou foi embora.
Nele teus tesouros, ramalhetes e sonetos.
Vive intensamente a eternidade do agora!
Primeiro amor
Envolta no véu poeirento da rua
Sob o abatido sol da manhã
Fuma a jardineira ao gemido arcado
Pela estrada nua rumo a Jaçanã
Exalando cheiro de diesel queimado
Nessa órfã e empoeirada estrada
Descompassada pedala a lembrança
Resgatando no odor da fumaça
O primeiro amor de criança
Cuja marca indelével não passa.
Os olhos brilhantes, encantados
Com a precoce chegada do amor
Não perdiam um só movimento
Dos "pegas" e "piques" de pés agitados
Das pregas das saias rodadas ao vento
Um par de olhos, um cheiro, uma visão...
Um rosto, um nome e nada mais...
Fez-se tom silencioso, fez-se canção
Fez-se agasalho na noite, fez-se oração
Fez-se luz dominante dos sóis matinais.
Ficou lá no suspiro, na pureza perdida
De um pequeno e virgem coração
Ficou lá prisioneira e esquecida
A reclamada receita que a vida
Debalde procura no mar da ilusão.
Re-lembranças
Impressas na soleira da saudade
Permito-me, enfeitando a realidade,
De lembranças, estóicas, porem minhas.
Transmudar letra a letra em novas linhas,
Suprimindo as intrigas e a maldade,
O nó da nostalgia o peito invade,
Cingindo cepo a cepo antigas vinhas.
Vagando por memórias do passado,
Dissímiles, reencontro lado a lado,
O bem e o mal, num embate tão antigo.
Destarte, em findas telas presencio,
No ocaso o lusco fusco já tardio,
Colhendo o sol que ainda esta comigo.
Nas asas da surreal-idade
Lancei-me fora ao vento
Tendo a esquerda o silencio
E à direita mortas verdades...
N'alma lembranças acesas
No olhar o sonho celeste...
Levo no coração agreste
Rumorejante vozerio
À frente, em brilho noturno
Única silenciosa e bela
Reinando sobre o vazio
Sorri-me a estrela-dalva
Emoldurada pela janela
Ao meu convite e da mata
Que do véu negro ela encanta
Ajoelhada diante dela
A noite fica parada...
E o silencio a cantar se levanta
No coaxar, nos silvos e nos pios,
Soltando-se em risos cálidos;
Tudo petrifica o momento
Escondido na vésper azulada...
E eu sem pensamento
Adormeço em sua luz... ao relento.
Depois do tempo
Porque sempre em ti ação do amor serei.
Serei na eternidade que para além de si perdura,
A predição da Tua terna e mais perfeita criatura.
Em Ti vi em arte pura as cores vivas
Vi da Via Láctea, altiva, o volutear da luz.
A vida eu vi passar nas horas que a conduz
Ao perpétuo estar em Ti pós noites aflitivas
Já que ao bacurau um céu de estrelas deste
E ao guaxinim as sombras mornas na campina
Também quiseste despejar Tua luz platina
O sono enluarando-nos em prelúdio ao fulgor celeste
Porque criaste, ó Deus, amante o homem
Porque o creste, assim amante, imagem Tua
De eternizá-lo é o anseio que O consome
E de ser Paz contigo ao que o tempo se conclua
Pérolas de um sonho
Em branco linho ou no seleiro impuro
Virás, eu juro, reanimar-me inteiro
E matinal respiro há de romper o escuro
Quando ofertado me será teu peito
Serei refeito das dores e temores idos
Aleitamento de paz terá efeito
Nos vicejantes sonhos por ti acolhidos.
Quando ofertados me serão teus sonhos
Em sussurrar secreto te poderei ouvir,
No embalo de notas e lábios risonhos,
Solfejadas pérolas, meu sonho invadir
Ao jorrar nos corações do amor o sumo
Em verão miscigenado de rumor e calma
Nossa incerteza reencontrará seu rumo
Sorvendo, por consumo, do suor da alma
Dissipadas divisas veremos esmaecer
E recrudescer o frio e fino fio do desejo
À relva, recostados em nosso anoitecer,
Voltar a crer, viver do sonho de novo beijo
O mar inteiro
Ei-lo com seu balanço obstinado
Que abraça a noite,torvo, sibilino,
Entregue à solidão do seu reinado
E do silencio da presença do divino.
Por liberdade tem o brilho matutino
E a fortuna de banhar a terra inteira
Acolhendo a foz dos rios que por destino
Dão-lhe o frescor dos véus da cachoeira
Do porto à pedra, da pedra à areia da areia ao porto,
Ele se perde, se encontra e se despede
E na distancia fluir se deixa, absorto,
Entre as algas e os corais que a cor lhe cede
Abandonando seu status de mar morto,
De mar aberto, mar revolto ou mar profundo
Se apequena e se desdobra a meu conforto
E em oceanos se divide pelo mundo.
Extasiado por seu pulsar ao sol fecundo,
Temperando corpo e alma com seu cheiro,
O coração não quer perder nenhum segundo
Pra pulsar c'a dimensão do mar inteiroVoltei
Fui sem receio, abjeto, nele aceito,
Sedento renovar-me à fonte anseio,
Eu, juiz e réu; presa, inquisidor e suspeito
Depondo o fardo a fadiga e a cobiça.
Atado ao meio pelo meio fui ficando
Nos braços traiçoeiros do sucesso
Deus possesso não me arguo até quando
Suportarei ao triste e irracional progresso,
Me atolando no pró-seco e na carniça...
Da água pura dia a dia me despeço;
No ar que trago só inspiro pó daninho;
Justo o repouso do silencio não mereço;
Abate-me o alimento me perde o vinho;
Cobre meu ninho o negro manto da injustiça.
Voltei, eu ser enfermo, ao nascedouro
Abjeta, vim a rogo revogar-me a tirania
Ávido em restaurar a um ser vindouro
O céu azul, a água límpida e alva a poesia
E alforriado não morrer em falsa liça.
Solidão de mim
Alem de mim vou buscar
Turba bendita
Estrépito ludo rodeia meu penar.
Rumor, areia e mar...
Acolá farnéis à vista
Fragor e risos.
Ruído desolador,
Epidérmico ardor.
É agora insolação o matinal alvor
Ardência benfazeja!
Açoita esse mandrião.
Desperta seu letárgico grito,
Beta multicor em aquário bretão.
Glacial solidão!
Minh'alma orvalhou esse chão
Com a razão apregoando o fim
No regado torrão dessa ruína
Germinou o homem
Da solidão de mim!
Comentários (0)
NoComments
Regue tuas lágrimas a paixão perdida, mas que não venha a aguada de uma nova primavera encontrar-te a semente do amor putrefeita por tão longo pranto.
Mereces muito mais tu a tua liberdade, do que teus fracassos a coroa dos teus lamentos!
Manito O Nato
Português
English
Español