Escritas

Lista de Poemas

Advento e ocaso

longínquo advento,

em parcos tons apequenou-se

mas és ainda horizonte e história,

a mesma que ao tempo servil muito ofertou,

lá onde, em montanhas de primaveril ardor,

o rosto primeiro, em brilho auroral, aflorou.

 

melancólico ocaso,

feito de pendões perdidos,

de prontidão vazia, de propósitos risonhos

que o caminho tortuoso o perolar furtou.

melancólico postigo! via desluzida do florescer,

quando, no sumidouro da razão, adormeceram os sonhos.

 

irreverente advento,

prelúdio e sumário de canções e títulos

em sonoros acordes de possibilidades e convicções,

esteira de aluviões e tormentas que derramará,

na mesma caudalosa e transbordante taça,

o mosto rosado das alegrias e os restolhos das frustrações.

 

meritório ocaso,

vicejante de credo e esperança

que ora acena, daqui do dia que te tem presente,

não com as sombras que propõe teu pretérito ser,

mas com o aceno jovial de que há vida

e que alcançá-la em novo advento é oração eloquente.
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Dissidentes

Aglutinando a paz e as gentes,
Andar célere e olhar atento,
Passa o mundo róseo e calado,
Fitando sob o céu ardente
Dissidentes passando ao lado.
Gentes que olvidaram a canção,
Que esqueceram o tom da poesia,
Tartufos de almas vazias
Mergulhados no ermo da urgia,
Da avareza e do pisar apressado,
Sem passado brotado do chão
Ou planado no ar da alegria.
Marchando sobre nuvens e lombra
Gentes agentes da sombra
Que assombra o verde cerrado
Com serras e a lei do machado,
Que mancham as marchas dos rios.
Gentes em castelos vazios
Lestas e austeros em vão,
Vão ávidos, segundo a segundo
E alheios, à margem do mundo,
Não o veem passar sem ruídos
Disposto a ofertar em penhor
Até ao sátiro agenciador de gemidos
Seu rosto azul “manchado” de amor.
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Vozes do silencio

Da manhã do tempo ouço seu clamor,

Vozes do silencio de mim desgarradas.

Ávidos lamentos do não amado amor

Escondido nos cúmulos das incertezas

Amordaçadas.

Eco longínquo de vozes sem vida

Dos rascunhos de sonhos de amores não tidos

De verbetes não lidos da estrofe perdida

Nos mananciais de princípios e dogmas

Poluídos.

Reclama das horas sepultadas em devaneios

Por não amar com o amar que o amor quis,

Quando quis do amor subjugar os anseios

Enxertados com espectrais e renitentes receios

Desde a raiz.

Róseo fulgor não havido que haveria de ser,

Nesta negra e poeirenta mina de hulha,

Ora resta lutuoso brilho do anoitecer,

Sob o olhar vago e profundo da ave penitente

Que infeliz arrulha.

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O grito da vida

A tarde enfeita-se do entorno ao monte,
As ondas bailam suaves no final de dia,
Em degrade escarlate veste-se o horizonte,
Tremula dourado o sol na brisa tardia,
Tépida, reflete a areia um último cintilar...

Reconfortadora, imersa no silêncio,
Não tardará a noite, amiga passageira.
O astro rei inclina-se a orar!...
A paz brilhará na estrelada cimeira:
Anúncios perpétuos d’um novo despertar.

Emerjo-me do mergulho nos frágeis ais
E submerjo na fecundidade das tardas tintas,
Em cada tom de laranja, carmim e lilás,
Derradeiros recamos da luz fugidia.
Ressuscitam-me no que há e no que havia.

Ouço sob este manto que recolhe o dia,
Tênue como a brisa redentora da tormenta,
Enredado em bordado de paz e harmonia,
- Aqui estou; Amor que depura e inocenta...
O grito da Vida ecoando desde o horizonte.

E a não menos que em tudo me refaz:
Espírito, substância, consciência e vontade;
Sonhos, propósitos, esperanças e liberdade.
Submeto-me às alvíssaras que o Amor traz
Num estar sem lembranças e sem verdades.

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QUANDO

Quando derribadas as utopias,
Açaimadas nas veredas da paixão;
Quando desbotadas e murchas as pétalas
Do irrigado e florido plantio da ilusão;
Quando as ausências povoadas de saudades
Empalidecem o horizonte da razão;
Quando dita o dia o despertar da luz
E teimosa segue a vida rendida á escuridão;
Quando os pesados grilhões da verdade
Aprisionam as asas da imaginação;
Quando acinzentada bruma das pagas
Apagam as cores da inspiração;
Quando a noite desperta o alarido
Nos surdos gritos subidos do coração:
Descalças de futuro e de presente,
investidas de seu domínio rígido,
Repetem-se agora as horas em vão
Consagrando-nos por oferendas
As débeis essências do passado,
As ausências travestidas de lembranças,
As somas dos silêncios do presente,
O amanhã de repleto vazio,
A solidão.

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Amor de mãe

Escorre, oh distintivo de amores selados, líquido lânguido, de fonte pura e altiva, vagueando por sulcos amargos, cansados, em gotas que rolam na face, a deriva, lavando do semblante a beleza perdida, esquecida, na lida intensa de recantos sombrios.

As aves que em teu ninho romperam cascas, ora errantes presas de alísios e do poente, bebericado tendo o teu suco em rotas tascas, voltar-se hão ao ninho, arrulhando docilmente; esquivas, chorosas, pias e prodigas crias a consolarem-se e a oferecerem-te mãos vazias.

Secam-se os veios de amargor e prantos. Filtram-se as lagrimas em exultantes cantos. Debela-se, debalde, a dor e volta o encanto.

Assim enverga-se o coração do parto, feito junco. Aceita das tascas as sobras e do amor o fiunco... e se alegra, e sorri, tingindo de azul o pranto


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Gota de orvalho

Descida do firmamento
Em movimento recamado,
Com suavidade e leveza,
Ao belo soma ornamento
Pelo céu estimulado.

Úmida, maternal, sem pecado,
se deita sobre arranha gatos,
Sobre ramagens e flores
E em ritmo contínuo e calado,
Transcende em altar os matos

É pérola inimitável
No seu estar passageiro,
Tal e qual o pensamento,
Que no tempo insaciável
Do presente é prisioneiro.

Viça pelas manhãs a rosa
E depõe-se no dia ao meio,
Mas, se o sol a quer enxuta,
Ao balanço da flor viçosa
Esparge sem ter receio.

Em folha seca pousada,
Brilhante qual passageira,
Úmida gota de orvalho,
Anuncia nova ramada,
Primavera alvissareira.

Ah, Déa de efêmera glória...
Celebrando seu estar solene,
O orvalho por ti se enluta
E a rosa tem na memória
O beijo que a faz perene.



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Como é bela minha cidade!

Curvilíneos relevos, seios maduros,
moldados em rochas de amor,
cinzelados pelo Criador,
deleitam e aprisionam o olhar
de apaixonados filhos a sonhar
em jamais evadir-lhe os muros.

Com sorridente frescor jovial
e alma morena cheirosa de mar,
espraiada na areia seduz o luar,
que na espuma lhe beija as veias,
nas noites claras de lua cheia,
em mágico rito de glamour sensual.

Sob os cílios do sol ardente,
sobre as coroas de terras nuas,
escorre sangue por suas ruas,
impregna-lhe o olfato de fatos
e na enlutada invasão de seus matos,
Ela se imola por toda gente.

Explorando sua tez inocente,
ferindo seus seios e muros,
proclamam-lhe mãe os perjuros,
Ao tempo em que ao labor os nobres,
sonhadores, abastados ou pobres,
orgulhosos postam-se reverentes.

Mais que torrão, uma beldade!
Ora moça de trato fino,
de andar seguro e arguto tino,
ora gueixa sedutora e cortês...
Mesclando dor, luxúria e altivez,
como é bela minha cidade!



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Eis que vivo

 

Eis que vivo e vivo esperando.

Vivo o silencio, eu e o pensamento;

Pensamento de leveza azulada,

de medida lenta, sobrevoando,

vivo ainda, a alma já, de ímpeto,

quebrantada.

Eis que vivo e vivo em turbilhão,

folhetim solto ao vento.

Olhar desatento, invernal, sem emoção,

vivo só, com tudo que professo

e confesso, pelo bater do coração.

Vivo do sal, do prazo, de algum tento.

Já sem talento, eis que vivo,

eu e o pensamento.

 

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Pandorga

Crueldade!... Linha lhe sobra, e suspiro...
Cabeceia a pandorga qual ginete fogoso
Ao cabresto, instada sempre a restrito giro,
Órfã da penúria e do conquistar custoso.

No olhar do menino sorriem as cores,
Que ao sol, em brilho de contas reluz.
No olhar do menino fantasmas raptores
No disfarce do vento que a pipa conduz

A roxa pandorga contida reteve saudade!
Revestida da mordaz crueza que não finda,
Firma a suspeita que de lá da tenra idade
Anacrônico mastro o menino ainda guinda.

Nostálgico, o olhar infante veste a realidade
Em esmaecidas cores de cintilar purpurino,
E nela o quanto almeja ainda a liberdade
Da pipa, agora desbotada, o ignoto menino.
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