Lista de Poemas
Fonte iluminada
Disseram-me que eu não sou capaz de pensar.
Eu e todos que estão no meu lugar.
Eu sou o povo e o povo é só para executar
Aquilo que os que pensam “mandar”.
Disseram-me que o povo é como uma boiada
A ser tangida por quem é tudo sem ser nada.
Uma boiada incapaz de aprender,
Incapaz de escolher,
Incapaz de ter visão,
Incapaz de andar sozinha sem meter os pés pelas mãos.
Disseram-me que eu não sei me virar
Sem ser tocado pelo barco que toca o mar.
O mar amarrado ao rabo de uma caravela.
Isso revela o enredo,
Que esconde os segredos
De quem em tudo tem o dedo.
Há o dedo deles em tudo.
Eles são mágicos.
Disseram-me que o barco do povo segue em frente
Porque os mágicos levam a gente.
Os mágicos são uma raça superior
Merecedores de todo o esplendor.
Eles com força e sabedoria usam o leme,
Transpiram virtudes e nada temem.
Disseram-me, disseram-me, disseram-me...
Mas tudo que me disseram não passa de lero-lero
Pra esconder a festa dos que tocam o bolero.
Como que os mágicos são virtuosos e nada temem,
Se eles morrem de medo de um Mister M?
O que seria dos mágicos sem as capas e cartolas?
Por que os mágicos apagam as luzes para mostrar suas escolas?
Por que os mágicos mataram Sócrates e Jesus
E põem pedras no caminho que leva à luz?
Por que os mágicos tiram da lição
As matérias que geram iluminação?
Se o povo não somos de nada,
Por que tentam esconder a fonte iluminada?
Aldeia claudicante
A luz que me ilumina me encandeia
Quando quero mostrar o que não se mostra na aldeia.
Preciso pintar um quadro convincente,
Mas que não mostre o papel de certas gentes.
Tenho que fazer vista grossa
Para a gente fina
Que sempre endossa
O que vem de cima.
Tenho que viver em uma casa sem botão,
De peito aberto e sem alma na mão.
A minha alma é livre para navegar,
Desde que eu consiga negar:
Que os sentidos estão no sentido que interessa
Aos que mandam na conversa,
Que a luz da casa grande chega à senzala
Para indicar uma direção, não para iluminá-la.
Tenho que vender como autênticos os falsos Picassos
E me emporcalhar na lama do riacho.
Tenho que dizer que o “penso, logo existo”
É uma ofensa a Jesus Cristo.
Não posso mostrar que a escravidão mudou de roupa,
Mas está aí de vento em popa.
O excesso de exploração é uma marca marcante,
É um traço que mancha a aldeia claudicante,
É um dos fios que perpassa toda a teia
E quem tentar quebrá-lo será o peixe da ceia.
O que há por trás das cortinas de fumaça não pode aparecer
E a minha pintura tem que parecer
Uma representação verdadeira.
Tenho que vender uma parte como inteira.
Manipular e dissimular para se apropriar.
Preciso ser cínico, preciso apodrecer,
Preciso mostrar para esconder,
Preciso fechar os olhos para as manobras
Dos que veem o povo como mera mão de obra.
A pintura desse quadro,
Em minha alma, faz estrago.
A Diferença
Parei em um canto
Correndo a vista nos cavalos do seu Franco.
Nesse olhar, percebi o abismo que há
Entre o cavalo de carga e o cavalo de passear.
Pra começar, o cavalo de passeio jamais deve trabalhar,
E o cavalo de carga jamais deve passear.
Pro cavalo de passeio não falta ração,
Não falta vacina, não falta água, não falta nada não.
Já o cavalo de carga, seu Franco só falta matá-lo
De sede, de fome, de trabalhar para sustentá-lo.
O cavalo de passeio vive protegido
Da chuva, da poeira, do sereno…
O cavalo de carga sobrevive dolorido,
Explorado, abandonado, gemendo.
O cavalo de passeio não pode ficar feio,
Seu cocho sempre, sempre, está cheio.
Já o cavalo de carga nem cocho tem,
Mata a fome na estrada transportando feito um trem.
O cavalo de carga não tem vida,
É um meio para o seu Franco construir a avenida.
Depois do dia todo na estrada,
Seu Franco solta o cavalo, dá-lhe uma lapada,
Se aproxima do cavalo de passear
E faz um afago para o bicho relaxar.
No dia a dia a carregar
O que o seu Franco quiser transportar,
O cavalo de carga vive a suportar
Mais do que o lombo pode levar.
Quando o cavalo se entorta sem aguentar,
Seu Franco usa um relho pra argumentar.
Enquanto seu Franco lapeia
Diz que o cavalo não aprende,
Então a chibata será sua ceia
Para que ele se emende.
Seu Franco lapeia, lapeia, lapeia,
Lapeia que o calombo encandeia.
Mesmo trabalhando o dia todo, todo dia,
Sendo os pés e as mãos de seu Franco e família,
Diz seu Franco que o cavalo é preguiçoso
E o trato com ele não pode ser amistoso.
Agora, o cavalo de passeio ele diz que é de vergonha,
Vistoso, forte, corajoso, do jeito que ele sonha.
– O cavalo de passeio não precisa levar lapada.
– Mas o cavalo de passeio não faz nada!
É um parasita voando na varanda.
É qualquer coisa que não anda.
E quando anda seu Franco só falta inverter os papéis:
Ao invés de ser os dedos seu Franco ser os anéis.
Observando a diferença entre o cavalo de carga e o de passear
Eu entendi o modo de um camponês mandar o filho estudar:
– Quem não dá pra sela, dá pra cangalha.
A sela é do cavalo de passeio que se espalha.
A cangalha é no cavalo de carga, açoitado,
Que existe para ser explorado.
De onde vem a diferença entre um e outro cavalo?
Matutei, matutei… em um instante tive um estalo:
O cavalo de passeio veio em um navio de passageiro.
O cavalo de carga veio em um navio cargueiro.
O de passeio veio livre, leve e solto.
O de carga carregado, todo torto.
O de passeio recebeu asas para voar.
O de carga foi acorrentado, obrigado a sofrer sem reclamar.
O de passeio era dono do seu nariz.
O de carga tinha a marca do dono como cicatriz.
Uma cicatriz que muito diz
Sobre o quadro negro sem giz
E um cenário sujo coberto de verniz.
A Corrida
Que vença o melhor!
Vai começar a corrida.
Estão entre os competidores
Um filho de um doutor
E um filho de um pescador.
Estão todos no ponto de partida.
O filho do doutor amarra a sapatilha;
O filho do pescador está descalço, farroupilha.
Essa gente fica melhor assim,
Assim fica mais distante de mim.
Começa a corrida, larga bem o filho do doutor.
O filho do doutor vai abrir vantagem.
O filho do pescador pensar em vitória é bobagem.
A superioridade do filho do doutor é evidente.
O filho do pescador está aí para aparecer pra sua gente.
O filho do doutor se hidrata, se refresca.
O filho do pescador tira o suor da testa.
O filho do pescador não tem água não.
Essa gente fica melhor assim, amigão.
O filho do doutor recebe todo o incentivo da plateia.
O filho do pescador recebe uma vaia que você não tem ideia,
É de deixá-lo sem traqueia,
É pra se sentir uma centopeia.
Essa gente fica melhor assim.
Essa gente nasceu pra isso do começo ao fim.
E o fim da corrida está chegando.
E os pés do filho do pescador estão sangrando.
Essa gente é muito fraca,
Estão em um barco que no meu porto não atraca.
Enquanto isso, chega pra vitória justa e merecida,
Justa e merecida, justa e merecida, justa e merecida…
Vitória daquele que levantou toda a torcida!
Vence, o vencedor, o merecedor,
O bravíssimo filho do doutor!
Entoca
Olho a grande mídia e vejo um piano
Que já vem com um pianista que não é humano
E toca para desfocar,
Toca para entocar,
Define os sabores
Conforme o gosto dos patrocinadores.
Esse pianista não toca para a plateia.
Toca a assembleia.
Toca no ritmo que quiser.
Toca na direção que quiser.
Toca na ponta do pé
Para tocar a pontapé.
Toca como um vaqueiro.
Toca como um grileiro.
Toca como um navio negreiro.
Toca sem musicalidade.
Toca sem um toque de verdade.
Toca para que ninguém toque no piano.
Toca para tocar o cotidiano.
Toca pesado sendo leviano.
Os Cristãos Matariam Cristo?
Os cristãos servem a Cristo?
O que existe por trás do visto?
Será que o diabo está se servindo do imprevisto,
Ou do previsto, ou do visto, ou do registro?
Os cristãos seguem Cristo?
Se Cristo voltasse seria benquisto?
Cristo iria aceitar a diferença que há
Entre o ser e o parecer?
Nesse espaço passeia:
A luz que encandeia,
A riqueza que gera fome,
As grandezas que amesquinham o homem...
Cristo iria aceitar a feira livre em seu nome
Ou iria colocar a boca no trombone?
Os denunciados de hoje fariam o quê?
O mesmo que os de ontem puderam fazer?
Suportaríamos a presença de Cristo
Ou mais uma vez o pregaríamos num crucifixo?
O touro
Parei para correr a vista
No passeio de alguns artistas
Que são mestres na arte
De lucrar por toda parte.
Não há galinha dos ovos de ouro,
Eles não produzem nenhum tesouro.
É que o dinheiro dessas cacatuas
Põe mais ovos que um peixe-lua.
Cada uma das cédulas bebês
Além de parir, não param de crescer,
Multiplicam-se incontrolavelmente
E não são pobres mortais como a gente.
E para elas não há um único predador.
Quem controla o touro se sente criador,
Mas são as criaturas os únicos não mortais,
Assim, um dia elas transmutam a hierarquia dos corais.
Espírito mesquinho
Vale tudo para vender gato por lebre.
Vale tudo para que o mágico celebre.
Só não se coloca em jogo as integridades física e financeira,
O resto é tudo besteira.
Danem-se os valores que não valem no cassino.
O interesse público não vai no meu destino,
Vai na contramão e traz companhia que desagrada
Aos aeroportos, universidades e outras estadas.
Até engulo certas pessoas nesses lugares,
Se lá estiverem para fazer o que fazem em nossos lares.
Essa gente tem que rastejar feito cobra.
Não pode passar da condição de mão de obra.
A nossa aldeia não pode pegar os caminhos
Daquelas onde os animais mostraram o focinho.
Aqui não, aqui temos outros planos
Aqui há humanos e humanos.
Em outras aldeias falta tapete para o homem de bem pisar
Aqui não há de faltar.
Aqui os tapetes não irão criar asas,
Vão servir dentro e fora de nossas casas.
Aqui é para gente que é gente
E o passado é o nosso presente para sempre.
O Reitor
Algemaram o reitor.
Um professor oferece perigo,
De certas criaturas é um inimigo.
Um professor pode iluminar o escurinho do cinema.
Iluminar é uma coisa que pode causar problema.
A falta de luz é essencial
Para o passeio no curral.
A falta de luz é essencial:
Para a ação do marginal,
Para a convulsão intelectual,
Para a serpente sair da toca,
Para levarem o ouro da vendedora de pipoca,
Para o morcego chupar o sangue do animal,
Para a mentira fazer um carnaval...
Sem dúvida tinham que algemar o reitor.
É preciso enfeitar a página, leitor.
Algema no pé, algema no amor,
Algema até na alma do professor.
Algema no pé, algema na mão,
Algema na educação.
Algema no pé, algema na mão,
Algema na iluminação.
Algema para a diversão da TV.
Algema para a educação aprender.
Algema para todo mundo ver
O que acontece com quem não aprende a ler
Nos olhos dos donos do poder.
Professor gosta de iluminação.
Algema nele então,
E luz, câmera e ação.
O espetáculo precisa deixar uma lição:
Ninguém deve contrariar a razão da aluvião.
As águas da liberdade de expressão
Passeiam livres nas torneiras do coração
Se não contrariarem os interesses de quem tem tudo nas mãos.
As águas que não correm para o mar
Em obstáculos irão esbarrar.
A água que não corre para o mar
Pode logo se acabar
Ou ser acabada pelos nobres que
Acabaram com o reitor.
Duas bolsas
Contemplando a evolução das tecnologias
Disseram-me que evolução humana brilha em nossos dias.
Essa afirmação me acompanhou feito uma assombração.
Para mim, em tal comparação paira uma grande confusão.
A evolução tecnológica é um avião de última geração,
Já a humana não passa de uma Maria Fumaça se arrastando pelo chão.
Naquilo que nos diferencia dos outros animais
E das inteligências artificiais
A evolução é uma Maria Fumaça que anda devagar demais.
– Rapaz, isso é muita areia pro seu caminhão!
– Eu sei que é, mas do jeito que der vou seguir a minha condução.
– Os outros animais não constroem avião!
– Sim, mas vamos ver a face humana dessa evolução:
A Maria Fumaça é uma das faces da moeda.
Não é toda a moeda que a gente pega.
Pegando a Maria Fumaça ponho os pés no chão
E sigo a minha viagem dividindo a bagagem
Em duas bolsas a serem levadas para pesagem.
O peso da bolsa de tecnologias salta aos olhos dia após dia.
O peso da bolsa da razão, da emancipação, da virtude, da harmonia...
É um peso abaixo do peso, um pesar,
Uma tristeza, uma baixeza e ainda tende a afundar.
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